31/08/2012

Em que alvorada rasgarei os olhos?

-  Hélder Macedo


Em que alvorada rasgarei os olhos?

(Eu queria um manto verde onde dormisse
e um ventre largo onde abrigar meu sono).

Porém...
Porém a minha mão é negra
e tudo mancha.

E a razão, no escuro, só distingue
a própria luz opaca que projeta.

24/08/2012

Ode To A Nightingale

-  John Keats



My heart aches, and a drowsy numbness pains
 My sense, as though of hemlock I had drunk,
 Or emptied some dull opiate to the drains
 One minute past, and Lethe-wards had sunk:
 'Tis not through envy of thy happy lot,
 But being too happy in thine happiness, --
 That thou, light-wingèd Dryad of the trees
 In some melodious plot
 Of beechen green, and shadows numberless,
 Singest of summer in full-throated ease.

O, for a draught of vintage! that hath been
 Cool'd a long age in the deep-delved earth,
 Tasting of Flora and the country green,
 Dance, and Provençal song, and sunburnt mirth!
 O for a beaker full of the warm South,
 Full of the true, the blushful Hippocrene,
 With beaded bubbles winking at the brim,
 And purple-stained mouth;
 That I might drink, and leave the world unseen,
 And with thee fade away into the forest dim:

Fade far away, dissolve, and quite forget
 What thou among the leaves hast never known,
 The weariness, the fever, and the fret
 Here, where men sit and hear each other groan;
 Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
 Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
 Where but to think is to be full of sorrow
 And leaden-eyed despairs,
 Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
 Or new Love pine at them beyond to-morrow.

Away! away! for I will fly to thee,
 Not charioted by Bacchus and his pards,
 But on the viewless wings of Poesy,
 Though the dull brain perplexes and retards:
 Already with thee! tender is the night,
 And haply the Queen-Moon is on her throne,
 Cluster'd around by all her starry Fays;
 But here there is no light,
 Save what from heaven is with the breezes blown
 Through verdurous glooms and winding mossy ways.

I cannot see what flowers are at my feet,
 Nor what soft incense hangs upon the boughs,
 But, in embalmed darkness, guess each sweet
 Wherewith the seasonable month endows
 The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
 White hawthorn, and the pastoral eglantine;
 Fast fading violets cover'd up in leaves;
 And mid-May's eldest child,
 The coming musk-rose, full of dewy wine,
 The murmurous haunt of flies on summer eves.

Darkling I listen; and, for many a time
 I have been half in love with easeful Death,
 Call'd him soft names in many a mused rhyme,
 To take into the air my quiet breath;
 Now more than ever seems it rich to die,
 To cease upon the midnight with no pain,
 While thou art pouring forth thy soul abroad
 In such an ecstasy!
 Still wouldst thou sing, and I have ears in vain --
 To thy high requiem become a sod.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
 No hungry generations tread thee down;
 The voice I hear this passing night was heard
 In ancient days by emperor and clown:
 Perhaps the self-same song that found a path
 Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
 She stood in tears amid the alien corn;
 The same that oft-times hath
 Charm'd magic casements, opening on the foam
 Of perilous seas, in faery lands forlorn.

Forlorn! the very word is like a bell
 To toll me back from thee to my sole self!
 Adieu! the fancy cannot cheat so well
 As she is fam'd to do, deceiving elf.
 Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
 Past the near meadows, over the still stream,
 Up the hill-side; and now 'tis buried deep
 In the next valley-glades:
 Was it a vision, or a waking dream?
 Fled is that music: -- Do I wake or sleep?

21/08/2012

Sul

-  Eugénio de Andrade


Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.

20/08/2012

Muito antes, erigiam-se templos

-  Àlex Susanna



Muito antes, erigiam-se templos
e até mesmo grandes catedrais:
hoje, quando a noite chega, contentamo-nos
com um abrigo, uma qualquer arcada
onde evitar esse excesso de intempérie
e enganar o frio que nos corrói os ossos.

17/08/2012

Todas as noites não saber

-  gil t. sousa

todas as noites não saber

em que hora parar
em que degrau de sombra

largar o recado para o nada

que nos queima
as mãos

15/08/2012

Torso arcaico de Apolo


-  Rainer Maria Rilke


Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.


(Tradução de Manuel Bandeira)

Leer, leer, leer


-  Miguel de Unamuno


Leer, leer, leer, vivir la vida
que otros soñaron.

Leer, leer, leer, el alma olvida
las cosas que pasaron.

Se quedan las que quedan, las ficciones,
las flores de la pluma,

las olas, las humanas creaciones,
el poso de la espuma.

Leer, leer, leer; ¿seré lectura
mañana también yo?

¿Seré mi creador, mi criatura,
seré lo que pasó?

As palavras interditas


-  Eugénio de Andrade


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

04/08/2012

Fim do céu

-   Adonis

Fim do céu

Sonha em jogar os olhos nas
 profundezas da cidade próxima
 sonha em dançar no abismo
 em ignorar os dias que devoram
 as coisas, os dias que engendram as coisas
 sonha em levantar, em fluir como o mar
 em apressar os segredos
começando um céu

no fim do céu.


(Tradução de Michel Sleiman)

Desperta-me no sono em ti

-   Gunnar Ekelöf

Desperta-me no sono em ti
Desperta os meus mundos por ti
Acende as minhas estrelas mortas, atrai-as para junto de ti.

Sonha-me para lá do meu universo
Conduz-me à morada das chamas
Faz com que eu nasça, para mim, morre-me para eu estar junto de ti.

Mais perto, mais perto de ti
Mais perto do meu lar de nascimento
Aquece-me, aperta-me para estar junto de ti.


(Tradução de Armando da Silva Carvalho)

Manifesto

-  Eucanaã Ferraz


Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.

Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide

do que é capaz a coincidência
entre as coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,

pratique-se o descanso, para
que o povo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.

Entre os teus lábios

-  Eugénio de Andrade

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

O destino dos amantes

-  José Agostinho Baptista


Dissipa-se, no longo nevoeiro, a cintilação de um
archote,
um rasto de imponderáveis amantes.
Quem por eles clama, clama em vão.
Já os pulsos se abriram para a desolação da terra.
Estes rios não são os seus rios.
E esta água mutilada,
esta luz que fere o amplo pátio dos invernos é a sua
água, a sua luz.
Onde o raio despedaça os ténues fios do amor uma
inesperada palavra assume o desastre.
Amaram-se e perderam-se.
De pé, sobre o convés, contemplando o fim dos
navios.
O albatroz descreve os vultos imensos da saudade.
Há, sobre o olhar dos condenados,
uma aflição de sombras,
quando o sol se afasta para os eus domínios.
A sedução dos frutos é a sedução da morte e,
seduzidos, eles demandaram o grande vale.
Um arco de som vibra eternamente no centro da
tempestade.
Eles voltam-se para fora,
para a unânime certeza da escuridão do mundo.
A alma parte.