- Michel Butor
...qui se soulève... bat... dans le sommeil... silencieusement les marches... le violoncelle... du port réservé au millieu... maintient à l'écart... de la roseraie... l'orge... on est en train de dresser... violet... une tente... sylvestre... céleste... rêveur... le tendre qui donne son masque... la lune... de plumes... passe entre les nuages... lentement... l'ombrelle...
Une main aux ongles rubis,
tenant un éventail,
fait un signe aux Voix qui hésident
entre les Larmes et les Temps.
Les Lointains s'enfoncent dans l'ombre
où il semble que ce soit désert
alors que les Torrents y appellent doucement :
Ô Occidentale...
Rayons.
Souple...
Les Nues maintenant
hésitent
entre le Soir et les Larmes.
fugues
irrésistible déchirante
fulgurations frimas
inlassable
terreurs éraflures guitare
hélice hardiesse hantise harmonie
voix
Fier Aquilon,
horreur de la Scynthie...
Quelqu'un respire dans ce taillis,
sous le soleil entre les branches.
Le chasse-nue et l'ébranle-rocher...
Les voyages
donnent aux Chants leur masque
et restent
immobiles.
Brûlante...
Les Fureurs entraînent lestement les Ondes
à l'écart
dans les rayons.
Ô Nordique...
gueule erseaux nuées halage
praires voyages
enfantements embrassements emblèmes empressements
émotions fréquences lointains
brûlante occidentale amoureuse
temps éraillures guet
nordique révolue
fusions frissons
fuselages
flûtiste frémissements obscurité
narines hippogriffes
hivers
Les Frondaisons appellent
très doucement :
Ô Méridional...
L'eau très claire
bat
silencieusement
les marches du port
réservé.
L'irrite-mer
et qui fais approcher...
Rayons.
J'ose...
Le soleil.
Ô golfes...
Les Orgues prennent par la main les Fumées
pour venir saluer les Nues.
fumets
gigues pourpre
nébuleuse ondes fable
faïence
orage oupille
ô oriental
ordalies nuées prudence
somptuex flûtiste
plumes torrents flamants
voyages rapaces rafale raffinement
études rigueurs
prescience hurlement écaille rafraîchissement
Je frôle...
Les tendres Ondées
prennent leur masque aux Ruines,
puis restent
immobiles à regarder
une plume outremer descendre
en tournoyant
sur le bassin d'oracle.
Méridional brillant...
Les Chants
donnent leus masque de perle aux Délices,
puis restent
dans les charmilles à regarder
les Tourmentes entraîner les Flamants.
Œil dont l'éclair mes tempêtes essuie...
Ou encore :
Avant que les premiers éclats de l'aube
atténuent la force des esprits enfermés
dans la sève des prêles, il faut
leur ajouter dans l'eau de la chaudière
un morceau de la peau d'un loup,
une grenouille d'Allemagne, l'étincelle
d'un brasero allumé en Anglaterre et transporté
de navire en navire dans des lanternes de mica,
des os d'espadon réduits en poussière.
Quand la poussière est entièrement dissoute
et que la sève a pris le parfum du Piémont
entrée des chasseurs
Un rêveur hésite
entre Gracieuse vibrante
et Douce-amère sur un banc de marbre
éclaboussé par la cascade.
Une brume de porphyre.
Le flûtiste et le cuisinier appellent doucement :
Ô soir...
Ou bien:
Le murmure des merles
à l'aurore entre avec l'air
de ce jeudi de printemps dans la maison
de cristal piquetée d'étincelles,
tapissée de poils de chèvres,
enveloppée de brumes.
silence moiré
souffle de menthe sur la boue du Brésil
entrée des invités lointains
murmure d'ailerons
(...)
26/09/2012
25/09/2012
Acalanto
- Paulo Henriques Britto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticularidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticularidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.
Sociedade dissociada
- Bruno Andante
Vi nas grandes cidades
a multidão de solidões.
Próximos tão distantes,
juntos sim, nada unidos.
Vi a juventude alienada,
sedada, refém de modismos.
Já têm direito de ir e vir,
não saem do lugar.
Vi os animais torturados
pintados felizes nas propagandas.
E nos corações das crianças,
alvos fáceis de farsas como tal.
Sociedade dissociada...
Vamos de mãos dadas,
na pressa, ao precipício,
vil fosso de nossos vícios.
23/09/2012
The rose of the world
- William Butler Yeats
Who dreamed that beauty passes like a dream?
For these red lips, with all their mournful pride,
Mournful that no new wonder may betide,
Troy passed away in one high funeral gleam,
And Usna's children died.
We and the labouring world are passing by:
Amid men's souls, that waver and give place
Like the pale waters in their wintry race,
Under the passing stars, foam of the sky,
Lives on this lonely face.
Bow down, archangels, in your dim abode:
Before you were, or any hearts to beat,
Weary and kind one lingered by His seat;
He made the world to be a grassy road
Before her wandering feet.
Mistério gasoso
- Masé Lemos
enquanto ele fumava seu cigarro Minister
uma coisa azul percorria seu corpo.
se acaso sentia arrepios,
a pele arrepiava
pêlos eriçados.
o frescor do vento marinho
seus pés sobre a areia gelada.
- a vida é líquida
rápida
discretas carícias do mundo.
enquanto ele fumava seu cigarro Minister
uma coisa azul percorria seu corpo.
se acaso sentia arrepios,
a pele arrepiava
pêlos eriçados.
o frescor do vento marinho
seus pés sobre a areia gelada.
- a vida é líquida
rápida
discretas carícias do mundo.
22/09/2012
Autonomia
- Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
(Tradução coletiva - inimigo rumor)
Réquiem
- José Paulo da Fonseca
quantas palavras imagens
anseios
adormecem na alma
esperando a hora o dia a noite
que jamais hão de vir
reflete
lentamente reflete
sobre o abandono a que te condenas
talvez frivolamente
20/09/2012
Arroubos
- Laura Erber
......la misma ofuscadora cantidad de luz y los mismos grupos de
murmuradores ascendiendo por las escaleras
recorrer às palavras que anunciam a realidade
mas isso também não são coisas minhas
aqui nestas margens ainda é difícil
a qualquer momento o sol queima demais ainda não é noite mas também logo se
vê que não é mais dia
ao longo da muralha algo que balança
giro contrariado de saudades
quando envelhecer não afina com catar feijão
envelhecer sem rotina
nervos críticos
mordida invejável no lóbulo de certa orelha
rabiscando por detrás
amor, às vezes foge pelas barbas
sofrendo síncopes
fico também enrodilhada
tua colméia derrama
múltiplos ruídos
você sem pressa
virando o rosto sem direção certa
comentando comentando o dia longo
você suave, feliz
sem lentes entre o contato cutâneo
aqui mesmo
......la misma ofuscadora cantidad de luz y los mismos grupos de
murmuradores ascendiendo por las escaleras
recorrer às palavras que anunciam a realidade
mas isso também não são coisas minhas
aqui nestas margens ainda é difícil
a qualquer momento o sol queima demais ainda não é noite mas também logo se
vê que não é mais dia
ao longo da muralha algo que balança
giro contrariado de saudades
quando envelhecer não afina com catar feijão
envelhecer sem rotina
nervos críticos
mordida invejável no lóbulo de certa orelha
rabiscando por detrás
amor, às vezes foge pelas barbas
sofrendo síncopes
fico também enrodilhada
tua colméia derrama
múltiplos ruídos
você sem pressa
virando o rosto sem direção certa
comentando comentando o dia longo
você suave, feliz
sem lentes entre o contato cutâneo
aqui mesmo
Lendo Ferlinghetti não penso
- Ana Cristina Cesar
Lendo Ferlinghetti não penso
em Nova Iorque no verão
mas nos cheiros de pessoas que não suspeitam
que têm cheiros
e em minha volta
tentando decifrar saudades,
ficções do Humaitá
lento Ferlinghetti não penso
nos amantes cobertos pela árvore
resistindo e rasgando-se
de novo
penso sim
Lendo Ferlinghetti não penso
em Nova Iorque no verão
mas nos cheiros de pessoas que não suspeitam
que têm cheiros
e em minha volta
tentando decifrar saudades,
ficções do Humaitá
lento Ferlinghetti não penso
nos amantes cobertos pela árvore
resistindo e rasgando-se
de novo
penso sim
19/09/2012
Perguntas
- Carlos Drummond de Andrade
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
18/09/2012
Azuliante
- António José Forte
Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver no meio do deserto o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte
Choverá muito eu sei choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente
Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabem tão bem quanto eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
os segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente
Digo não Eu digo não
digo o teu nome que diz não
No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos
passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite mil e uma noites de quem espera
Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir
No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase da terra
tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal
Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver no meio do deserto o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte
Choverá muito eu sei choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente
Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabem tão bem quanto eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
os segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente
Digo não Eu digo não
digo o teu nome que diz não
No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos
passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite mil e uma noites de quem espera
Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir
No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase da terra
tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal
Acordar na rua do mundo
- Luiza Neto Jorge
madrugada. passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas. no meu quarto cai o pó.
um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.
sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam
o azul dos azulejos. assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou
e duma varanda um pingo cai
de uma vaso salpicando o fato do bancário
10/09/2012
Recebei as nossas homenagens
- Eucanaã Ferraz
Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio
parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.
Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio
parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.
09/09/2012
O dever
- Antonin Artaud
O dever
Do escritor, do poeta
Não é encerrar-se cobardementre num texto
Num livro, numa revista de onde nunca sairá,
Pelo contrário, é vir
Para o exterior
E sacudir,
Atacar
O espírito público.
Ou então para que serve?
Para que nasceu?
O dever
Do escritor, do poeta
Não é encerrar-se cobardementre num texto
Num livro, numa revista de onde nunca sairá,
Pelo contrário, é vir
Para o exterior
E sacudir,
Atacar
O espírito público.
Ou então para que serve?
Para que nasceu?
Assinar:
Comentários (Atom)