31/12/2012
A Ceramista
- Ana Rüsche
Trago comigo coisas abandonadas.
Coisas que os homens jogaram fora:
placentas, gânglios, guirlandas, guelras.
Marize Castro, "Muralha"
a partir de Concha e Aurora,
criações de Ângela Barros e Alberto Guzik
agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável
escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada
no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas
e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica
e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro
05/12/2012
A saga
- Enre
O doutor disse:
viver é negócio muito perigoso,
a gente morre para provar que viveu.
Ela respirou com os pés no meio-fio
e as mãos contra o sol
cega de ruas e muros.
Era humana
sólida e precária.
Ele, incorpóreo e eterno,
regurgitou o temor dizendo:
perigoso é não viveres
antes que a morte
te deixe encantada.
Ele, o tempo.
02/12/2012
Petróleo
- Joana Corona
sombra:
carne incorpórea colada no tempo.
corpo imaterial, ou a fisicalidade do ausente.
o negativo de uma materialidade anterior –
silhueta de fumaça na parede branca.
(o que se fotografa são fantasmas)
eu sou o livro-fogo que queima, negro.
estive sempre aqui (mas isso não é visível).
agora há o resquício,
e há também a imagem que me cria,
para que eu siga sendo
este outro.
agora sou um traço de pólvora.
a fotografia-fuligem, a imagem-pó –
o livro-espectro.
É muito claro
- Ana Cristina Cesar
é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama
01/12/2012
Pernalonga
- Max Czollek
há quem conte histórias
sobre a constelação
de seus cadarços soltos
para que você
desate o braço
nos dias ruins
quando alguém pede
que identifique corpos
que outrora amou
ultrapassa o precipício
e despenca primeiro só
quando percebe o erro.
(Tradução de Ricardo Domeneck)
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