28/03/2014

The Edge of the World [excerpt]

-  Adonis

I release the earth and I imprison the skies.  I fall down in order to stay faithful to 
the light, in order to make the world ambiguous, fascinating, changeable, dangerous, in 
order to announce the steps beyond.
     The blood of the gods is still fresh on my clothes.  A seagull's scream echoes 
through my pages.  Let me just pack up my words and leave.

(Tradução de  de Khaled Mattawa)

Assim

-  Miguel Pires Cabral


Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.


O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.


Chegou ao fim o dia,
encontro-me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.


São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,


de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.

O que está escrito no mundo está escrito de lado

- Herberto Hélder


a lado do corpo - e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem -
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem - uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando - a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à purpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada - e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos instetinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal -
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta - e levanto  a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
- porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa - ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas - o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga - esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora -
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
- a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial - tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando op dia é muito perto, uma estrela comprida
- as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um comeya desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras -
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo -
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.

11/03/2014

Blind light

-  Marília Garcia


aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega.
          a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada.
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planifi casse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos.
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena.


silêncio

aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindose
a cada esquina. 2. 9. 2. 9.


– você ainda vai me ver três
vezes antes do fi nal, fi que atento
aos sinais, falou. se procurar as palavraschave
encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco.
                                    só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
                                   imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo.