27/06/2014

Preciso me encontrar

-  Cartola


Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar



24/06/2014

Viento y mar

- Mario Benedetti


El viento arrima propuestas

mejores que las de antes

ya no son interrogantes

triviales o deshonestas

pero el mar tiene respuestas

que improvisa en el momento

y el diálogo es tan violento

que no podré descansar

mientras no se calme el mar

y no se interrumpa el viento

16/06/2014

Níobe transformada em fonte

 -  Sophia de Mello Breyner Andresen

(adaptado de Ovídio)

Os cabelos embora o vento passe
Já não se agitam leves. O seu sangue,
Gelando, já não tinge a sua face.
Os olhos param sob a fonte aflita.
Já nada nela vive nem se agita,
Os seus pés já não podem formar passos,
Lentamente as entranhas endurecem
E até os gestos gelam nos seus braços.



Mas os olhos de pedra não esquecem.
Subindo do seu corpo arrefecido,
Lágrimas lentas rolam pela face,
Lentas rolam, embora o tempo passe.

Móbile

-  Eucanaã Ferraz

Passamanarias de arame, papel
e luz, que recobri com a pele,

onde instalei meus ossos desatados percutindo
no vento, está lá

o arabesco,
sem arrimo, pingando um tempo estacionário entre

palmeiras, contra o céu da Voluntários, o Cristo
ao fundo, o cinema. Seu movimento

hesita, esgrima, cigarra, urina, é-não-é,
flores da ferrugem, palavras fáceis e cento

e um dentes ameaçando carros e coisas
elétricas, edifícios em fila, famílias. Fiz

o que tinha de ser. Ficou lá, inútil, ardendo
sobre o trânsito,

o móbile
gigante que seus olhos não viram,

que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.

Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,

o monstro
que seus cuidados não souberam,

que seu medo não quis,
que nem ao menos.

Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,

lixo,
lixo,

mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,

dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,

era lindo, era fácil,
era puro.