- Geraldo de Barros
na pele
é onde
tudo acontece
onde
confesso
em arrepios
o que vivo
o lado de fora
da memória
janela
para cada instante
onde entro
e saio
sem me desfazer
porém
nunca sou o de antes
16/09/2014
sal em pedra
- gil t. sousa
(leitura duns olhos que passam por mim)
conto-te estes dias, agora que o tempo me é largo e em cada canto das horas se pode erguer uma vida que eu não soubesse ser minha. uma vida inteira, toda, marcada por um beijo, um olhar ou outros raros gestos de magia. quero esquecer-me de dons e de talentos, deixar-me romper pela luz, por sombras escolhidas como facas que o destino me aponta, para me exigir uma outra respiração se me cobre de cinzas, se me amortalha na areia movediça do já não saber, do já não querer. ligo-me a outras máquinas livres de tempo, ciente de que perdi a minha mortalidade desde que a vida apenas me deu a berma de si própria. cosido ao chão de cidades sem nome com linhas duma dor antiga, cerzido de desespero à pedra das ruas, trapo caído, abandonado, parido por mãos rotas. todas as noites uma rua, dum lado o corpo, do outro a alma, no meio o nada.
minto-me nos quando e nos porquês, nos onde. infecto-me dessa verdade sem boca nem corpo. grito, eu grito por se me rasgar a pele como se um comboio-tesoura a atravessasse velozmente, no deserto do meu peito, dum lugar a outro, sítios vazios, sem paragem, deixando rastos como rios, rios de feridas correndo o meu corpo, alagando-o de veneno, comprimido, só à espera de explodir num poema, ou numa só palavra, numa definitiva palavra capaz de despertar catatónicos, de fundir consciências, ou de fazer escorrer pela primeira frecha de ternura esses olhares contidos.
porque a mim o tempo não me conhece e rasga-me, e lavra-me o corpo como se fosse terra já morta, campo de mais nenhuma semente, passando sem passar, deixando-me nos olhos a geometria do silêncio, as linhas rectas como espetos que são as esquinas das minhas ruas, que me trespassam dia após dia, neste embalo de álcool mal destilado, de neblinas que cegam como um falso amigo.
o frio é um tempo sem portas, um espaço de não conter, nem aberto nem fechado, um pulmão de desespero que se respira a si próprio, cravado na grande praça do coração. nu, eu estou tão nu. nem a mortalha dum país, duma cidade, duma casa, ou de um ser. definitivamente nu, errando no lombo de vielas, trapos de geografia, onde me engano de ser o meu lugar. minha montada, as vielas; meus passos, os moinhos.
(leitura duns olhos que passam por mim)
conto-te estes dias, agora que o tempo me é largo e em cada canto das horas se pode erguer uma vida que eu não soubesse ser minha. uma vida inteira, toda, marcada por um beijo, um olhar ou outros raros gestos de magia. quero esquecer-me de dons e de talentos, deixar-me romper pela luz, por sombras escolhidas como facas que o destino me aponta, para me exigir uma outra respiração se me cobre de cinzas, se me amortalha na areia movediça do já não saber, do já não querer. ligo-me a outras máquinas livres de tempo, ciente de que perdi a minha mortalidade desde que a vida apenas me deu a berma de si própria. cosido ao chão de cidades sem nome com linhas duma dor antiga, cerzido de desespero à pedra das ruas, trapo caído, abandonado, parido por mãos rotas. todas as noites uma rua, dum lado o corpo, do outro a alma, no meio o nada.
minto-me nos quando e nos porquês, nos onde. infecto-me dessa verdade sem boca nem corpo. grito, eu grito por se me rasgar a pele como se um comboio-tesoura a atravessasse velozmente, no deserto do meu peito, dum lugar a outro, sítios vazios, sem paragem, deixando rastos como rios, rios de feridas correndo o meu corpo, alagando-o de veneno, comprimido, só à espera de explodir num poema, ou numa só palavra, numa definitiva palavra capaz de despertar catatónicos, de fundir consciências, ou de fazer escorrer pela primeira frecha de ternura esses olhares contidos.
porque a mim o tempo não me conhece e rasga-me, e lavra-me o corpo como se fosse terra já morta, campo de mais nenhuma semente, passando sem passar, deixando-me nos olhos a geometria do silêncio, as linhas rectas como espetos que são as esquinas das minhas ruas, que me trespassam dia após dia, neste embalo de álcool mal destilado, de neblinas que cegam como um falso amigo.
o frio é um tempo sem portas, um espaço de não conter, nem aberto nem fechado, um pulmão de desespero que se respira a si próprio, cravado na grande praça do coração. nu, eu estou tão nu. nem a mortalha dum país, duma cidade, duma casa, ou de um ser. definitivamente nu, errando no lombo de vielas, trapos de geografia, onde me engano de ser o meu lugar. minha montada, as vielas; meus passos, os moinhos.
10/09/2014
Metamestre
- Marianne Lee
Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
Uma pedra é que começa sua jornada.
Se a pálpebra oscila e o coração arde...
tem pela frente a imensidão da tarde.
Anda pensante, a mão quer a pena;
vai diletante e com um sorriso acena.
Ossos do ofício de uma escrita plena.
Bem, não duvidem do que aqui escrevo
enquanto conto nos fadados dedos
rascunhos feitos e depois rasgados;
nada concisos, ao mestre ofertados.
Assim cogito, e no entanto lá fora,
risos me dizem que ele passa agora.
Dons não faltam em seu olhar sisudo;
onde é Quixote também é Casmurro.
Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
A prosa e a poesia seguem ritmadas,
lugares novos em sua densa escrita;
vultos, silêncios? - Não, tudo ali grita!
Assim sabemos não ser absurdo;
onde é Quixote também é Casmurro.
Kafka esculpiu no papel Samsa,
ritmo difuso em obscura dança;
ao mundo deu, este disforme humano.
Uns seguem mitos e outros os poetas,
seguimos Krause e sua ousada meta:
- Então duvidem do que seja o plano!
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