- Ana Cristina Cesar
é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama
30/06/2016
22/06/2016
Lembrete
- Ana Martins Marques
Lembrar que
enquanto andamos
por estas ruas banais
sob um céu inestrelado
templos brancos como ossos
repousam entre oliveiras
quase igualmente antigas
uma mulher desfaz
sobre a nudez noturna
sua trança pesada
um pequeno lama
cabeceia de sono
e há leões e laranjas
falcões e hangares
anêmonas e zinco
um bando de antílopes
atravessa um pedaço de terra
como este
deixando-o depois
vazio de sinais
em silêncio um homem prepara
menos comida do que ontem
um a um
partem os barcos
de passeio
chove intensamente
sobre teleféricos
uma mulher vê
a cidade acender-se
à medida que anoitece
e para acalmar-se
conta as janelas
iluminadas
arrumam-se armários
roupas de pessoas mortas
envelhecem corpos jovens
envelhecem também
os automóveis
e as máquinas agrícolas
com uma rede veloz
recolhem-se do mar
peixes luminosos
que então serão deixados
afogando-se
na areia
algumas coisas
– muitas coisas –
rápida, discretamente
nascem
alguém conhece
pela primeira vez
a enguia, o sexo, a escrita
Lembrar que devemos estar
à altura
disso
Lembrar que
enquanto andamos
por estas ruas banais
sob um céu inestrelado
templos brancos como ossos
repousam entre oliveiras
quase igualmente antigas
uma mulher desfaz
sobre a nudez noturna
sua trança pesada
um pequeno lama
cabeceia de sono
e há leões e laranjas
falcões e hangares
anêmonas e zinco
um bando de antílopes
atravessa um pedaço de terra
como este
deixando-o depois
vazio de sinais
em silêncio um homem prepara
menos comida do que ontem
um a um
partem os barcos
de passeio
chove intensamente
sobre teleféricos
uma mulher vê
a cidade acender-se
à medida que anoitece
e para acalmar-se
conta as janelas
iluminadas
arrumam-se armários
roupas de pessoas mortas
envelhecem corpos jovens
envelhecem também
os automóveis
e as máquinas agrícolas
com uma rede veloz
recolhem-se do mar
peixes luminosos
que então serão deixados
afogando-se
na areia
algumas coisas
– muitas coisas –
rápida, discretamente
nascem
alguém conhece
pela primeira vez
a enguia, o sexo, a escrita
Lembrar que devemos estar
à altura
disso
20/06/2016
regresso às histórias simples
- Al Berto
5
eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo
a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita partilhar um segredo
este corpo em que me escondi
gastou-se
quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu
pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita
mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
5
eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo
a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita partilhar um segredo
este corpo em que me escondi
gastou-se
quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu
pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita
mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
Assinar:
Comentários (Atom)