21/07/2016

quem vai querer

- Dimitri BR 

não sei o que eu acho mais bonito
o seu cabelo ou você
ainda bem que costumam vir juntos
o seu cabelo e você

toda maquiagem é drag
é para brincar de você
você é perfeita, não se conserte
é só brincar de você

toda roupa também é drag
você nasceu pelada
e eu também

pai e mãe é quem cria
filho tem que crescer
pai e mãe é quem cria
mulher é quem quiser ser

quer quer ser mulher
quem vai querer?

19/07/2016

Corpos onde a cidade se repete

-  Casé Lontra Marques
Corpos onde a cidade se repete:
(depois
de derramar antigas bocas sobre outra água):
quase
elidem alguns órgãos alarmados
— em meio às ferragens —
no
casulo do calendário?
contaminamos
um
espelho com a casa que nos propaga:
(sob
sua solidão):
contaminamos
um
desejo com a fala que nos escava
— cotidianamente —
deitar
entre as horas
na
areia da íris:
forrando
as fissuras que infestam minhas asfixias:
aceito o silêncio que se dispersa (que nos espalha)
sempre
pelas paredes — nas escadas; nas encostas —
do
diafragma: até um ritmo me receber:
também
quem sabe ao largo — sobretudo ao largo —
desta
última inexistência;
apesar
da
ferida no fundo
do
olho
frio:
há manhãs — sucintas —
em
que excedemos o tempo:
apenas
despejando alguma dúvida
entre
migalhas
de
medula
— lembra? —
reacenderemos
o
sismo que aos poucos
desocupa
a
massa
ocular:
(para
talvez recolher o calor
de
seus escombros):
na
borda da afasia;

quase fora
da
afasia:
começa a transfiguração — a transposição —
das
sílabas: (aqui):
começa
a transmissão — espontânea —
das pupilas;
numa
noite de repente
concisa?
procuro
aproximar o rosto do que não é ainda língua:
(do
que não é mais língua):
após
outro princípio
— claro —
de
proliferação?
nasce: em mim: por mim: contra mim:
um
gesto anfíbio — frente a qualquer insuficiência —
roer
relâmpagos;
até o talo:
carregando a memória — exigente —
dos
dias em que ressuscitamos:
(ao
enfim desistir
de
relatar?):
alavanco
a garganta de uma imunidade
estranha
aos
mínimos estilhaços
em
nossos labirintos
— enquanto
alguns desamparos se afastam da apatia —
os mares a que ainda nos doamos;
todos
esses mares — onde logo convalesceremos —
aguardam
outra indeterminação (outra deterioração)
inaugural:
aderindo
a uma anemia
limítrofe?
não
venho fechar palavras
sobre
os
poros — entre pânicos —
dentro
de
pedras:
um novo rumor aloja (acidentalmente)
esta
respiração provisória
— drenando
os sinais da distância que me dissolve —
rente
ao
rosto:
movemos
uma
imensa necessidade
de
enigmas

11/07/2016

sereia blooming blues

-  Rita Isadora Pessoa

porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos     e gritos

no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar 
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
                               na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?

 [que partam todos os raios 
          que partam todos 
   e que ainda assim eu fique
   que eu fique - só e inteiriça 
que seja pernas ou rabo ou nado 
        inspire respire amém ]

para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
                                 é a pele

que a coisa mais triste do mundo

        não deixa sequer cicatriz

06/07/2016

Festa

-  Alejandra Pizarnik

Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

(Tradução de Alberto Augusto Miranda)