- Roberto Piva
Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos
18/08/2016
06/08/2016
Grandes mamíferos
- Franklin Alves Dassie
1. Uma caixa
Eu é um rinoceronte, um hipopótamo –
um americano idiota espancando
latinos –
de repente, eu estava em todos os lugares
em todos os lugares
e numa caixa
Eu é uma caixa
Esta caixa contém o suco de quinze laranjas
e eu dentro
Esta caixa contém o suco de quinze rinocerontes
e um hipopótamo americano idiota
Esta caixa contém o suco de quinze latinos
espancados
Esta caixa com quarenta e seis pessoas
dentro, mais eu dentro,
não consegue nadar
– impossível com tanto peso
disse um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
2. Mastozoologia
Eu é alguém acima do peso normal.
3. Eu é um outro
Escrevam corretamente meu endereço
porque há um outro Rimbaud aqui
um outro, um Rimbaud
agente de viagens marítimas
Fizeram-me pagar 10 centavos
de taxa extra de franquia
porque meu endereço
não foi escrito
corretamente
4. Um nome
Um nome nunca é escrito corretamente –
Eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero, alguém acima do peso normal:
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado, se caixa fosse
caixote, se fosse um americano, de corpo atarracado,
em forma de barril, tentando escrever
Ele é a terceira pessoa, contando da esquerda
para a direita naquela fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes, hipopótamos, americanos idiotas
e franceses exilados no continente
africano – seria legal se o mundo se chamasse Pablo Picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
5. Outro nome
Não estou dirigindo muito bem ainda
a dor na perna esquerda dificulta-me
com os pedais –
talvez, depois dos remédios,
a situação fique melhor,
mas não acredito
– impossível com tanto peso
impossível com este
trânsito
6. Quinze laranjas
Eu está submerso –
desligado de tudo que não eu mesmo
dentro de uma caixa com o suco de quinze laranjas:
pronto para beber
sem adição de açúcar
nem conservantes –
Eu tomo o suco de quinze laranjas
Eu-hipopótamo espancando
um americano idiota
na piscina de um hotel sul-africano cinco estrelas –
talvez melhore depois dos remédios
é provável que não
Eu é alguém acima do peso normal
que está em todos os lugares
que não precisa mais de casaco
já que uma camada adiposa extra é um casaco
– quinze laranjas no bolso
quinze pontos na perna doente
Eu não sinto mais frio
mas tenho uma sede infernal
resmungou outro mamífero
depois de tomar o suco de quinze
rinocerontes
7. Gran finale com gastrite
Uma caixa, dois nomes e quinze laranjas:
mastigue bem os alimentos
e lembre-se que a sede infernal é sintoma de alguma coisa
Eu é um mamífero –
a perna ainda dói, mas já tirei os pontos
Eu está em todos os lugares, sempre bem
acompanhado: rinocerontes, hipopótamos
americanos, latinos e franceses exilados
em hotéis cinco estrelas:
Depois do diagnóstico nada animador,
achei melhor desistir dos
refrigerantes, apesar de saber que uma caixa
com o suco de quinze laranjas
contém o suco de quinze latinos
espancados –
Impossível com tanta gente
não escrever
o endereço errado
1. Uma caixa
Eu é um rinoceronte, um hipopótamo –
um americano idiota espancando
latinos –
de repente, eu estava em todos os lugares
em todos os lugares
e numa caixa
Eu é uma caixa
Esta caixa contém o suco de quinze laranjas
e eu dentro
Esta caixa contém o suco de quinze rinocerontes
e um hipopótamo americano idiota
Esta caixa contém o suco de quinze latinos
espancados
Esta caixa com quarenta e seis pessoas
dentro, mais eu dentro,
não consegue nadar
– impossível com tanto peso
disse um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
2. Mastozoologia
Eu é alguém acima do peso normal.
3. Eu é um outro
Escrevam corretamente meu endereço
porque há um outro Rimbaud aqui
um outro, um Rimbaud
agente de viagens marítimas
Fizeram-me pagar 10 centavos
de taxa extra de franquia
porque meu endereço
não foi escrito
corretamente
4. Um nome
Um nome nunca é escrito corretamente –
Eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero, alguém acima do peso normal:
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado, se caixa fosse
caixote, se fosse um americano, de corpo atarracado,
em forma de barril, tentando escrever
Ele é a terceira pessoa, contando da esquerda
para a direita naquela fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes, hipopótamos, americanos idiotas
e franceses exilados no continente
africano – seria legal se o mundo se chamasse Pablo Picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
5. Outro nome
Não estou dirigindo muito bem ainda
a dor na perna esquerda dificulta-me
com os pedais –
talvez, depois dos remédios,
a situação fique melhor,
mas não acredito
– impossível com tanto peso
impossível com este
trânsito
6. Quinze laranjas
Eu está submerso –
desligado de tudo que não eu mesmo
dentro de uma caixa com o suco de quinze laranjas:
pronto para beber
sem adição de açúcar
nem conservantes –
Eu tomo o suco de quinze laranjas
Eu-hipopótamo espancando
um americano idiota
na piscina de um hotel sul-africano cinco estrelas –
talvez melhore depois dos remédios
é provável que não
Eu é alguém acima do peso normal
que está em todos os lugares
que não precisa mais de casaco
já que uma camada adiposa extra é um casaco
– quinze laranjas no bolso
quinze pontos na perna doente
Eu não sinto mais frio
mas tenho uma sede infernal
resmungou outro mamífero
depois de tomar o suco de quinze
rinocerontes
7. Gran finale com gastrite
Uma caixa, dois nomes e quinze laranjas:
mastigue bem os alimentos
e lembre-se que a sede infernal é sintoma de alguma coisa
Eu é um mamífero –
a perna ainda dói, mas já tirei os pontos
Eu está em todos os lugares, sempre bem
acompanhado: rinocerontes, hipopótamos
americanos, latinos e franceses exilados
em hotéis cinco estrelas:
Depois do diagnóstico nada animador,
achei melhor desistir dos
refrigerantes, apesar de saber que uma caixa
com o suco de quinze laranjas
contém o suco de quinze latinos
espancados –
Impossível com tanta gente
não escrever
o endereço errado
04/08/2016
Chapéu de palha
- Matilde Campilho
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
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