- Leslie Kaplan
a poesia é um beijo
entre duas línguas
a french kiss
ou
um beijo americano
buscar o ponto
em que as duas línguas se encontram
lá no fundo
da boca
ou então na superfície
a ponta da língua
contra a ponta da outra língua
how do you say that in english?
I love you
that’s all
and
hold me tight
and
give it another try
baby
qual é o ponto de encontro
the meeting point
mas aí a gente pensa em carne
I can’t meet you here
dear meat
let’s play
a game
sim, vamos jogar um pouco
translating
is sexy
I know that
então
a boca the mouth
a língua the tongue
descreva a sensação
ooh ooh ooh
descreva de verdade
the tip of my tongue
dear love
will touch yours
dear love
and we will sing
dear love
together
the tip
of my tongue
will touch
yours
we won’t sing
my love
we will breath
my love in silence
we won’t sing
we will breath
in silence
we will live
and touch
slowly
does the tongue
have a skin?
the soft skin
of the tongue
will rape me
not rape
wrap
not wrap
uma língua doce
um pouco
rugosa
e não vamos falar
da saliva
essa substância mole
e doce
na boca
podemos trocá-la
ou talvez
ela troca você
como uma velha ponte mole
dilui-se dentro dela
ela faz você passar
é uma língua uma saliva uma velha ponte mole
ela leva você
ela faz você passar
but say it again
the soft skin of the tongue
some thing soft
and pointed
how is that possible
it is
say it
and do it
you do it to me
I’ll do it to you
again
and again
till silence
how is silence possible
the soft skin of silence
it is
soft silence
pointed silence
can silence be a bridge?
it can
it is
and here we are
welcome
little word
little word
diga-me uma palavra
só uma palavra
she didn’t like men with poney tails
ela não gostava de homens com rabos de
cavalo
cortes
nuances
atenção
I told you
about translating
give me
one word
just one word
that would open up
open up
explode
and multiply
sim
vamos lá
acabe comigo
a word
uma palavra
a word from you
my love
breaks me up
my love
and makes its way
my love
far inside me
sim
mas sim
she always gave him
a lot of trouble
era
uma chata
shut up
stupid
me beija
estúpido
there was this awful american
woman
who would say
she wanted to have sex
é nojento
é mesmo
but they do
they say that
those terrible
american woman
essas
mulheres
americanas
horríveis
oh
oh
Mas o céu, e essas estrias. Nada nos protege de sua beleza. Todo querer. O céu, o vinho, os livros, o amor. E o pensamento. Se não temos o pensamento, não temos nada. Nada de sua vida. Nada. Mas o pensamento, não o temos. Pensamos ele.
all the words
from all the times
from all the lives
you have lived
and will live
todas as palavras estão aí
disponíveis
elas esperam
all the words
and all the worlds
from all the lives
and all the lovers
cada palavra
está ali
não amanhã
hoje
NOW
(Tradução de Marília Garcia)
06/01/2017
04/01/2017
Julho
- Lucas van Hombeeck
essa nossa cidade drives the people
a gente tem vontade de pegar o 436 grajaú pra ir ver a rosa weber, rosa luxemburgo, rosa
rosa
mas o sistema público de transporte
não é rima
não tem graça
e nem é solução
pra esse tipo de vontade
eu agradeço a essa vontade
porque ela, viva,
continua viva
a cidade,
apesar de
a cidade está tão perigosa
a cidade está tão cara
ela disse
eu tenho medo de sair
depois de escurecer
e não saber voltar pra casa
você tem que aprender
que a vida sempre é
apesar de
aqui da fila do banco pensar no mar é
o momento de luxo prensado entre o edifício e o automóvel
o assalto ao apartamento no alto Leblon
o perigo
aqui
onde o carpete é grama brotada
azul e crespa
regada a ar condicionado e insulfilm roxo
dá pra ver que certa estava minha tia avó tereza,
que me ensinou a pegar o ônibus sozinho pra ir pra escola e a pisar no pé das pessoas
que não me deixassem passar quando chegasse o ponto
a violência
vive junto com a cidade, no meio da cidade, por dentro
a cidade somos nós, a violência são os outros
mal sabiam eles
que o paraíso
são os outros
mas
é verão no rio de janeiro
o relógio marca sete horas
e ainda faz sol
a felicidade não é
mas é quase
como se fosse
e hoje
pelo menos até umas seis
parece que a vida aqui ainda é
e que talvez até mereça
e que talvez ainda por cima
valha a pena
continuar sendo
mesmo que muitas vezes ela seja
só
como se fosse
essa nossa cidade drives the people
a gente tem vontade de pegar o 436 grajaú pra ir ver a rosa weber, rosa luxemburgo, rosa
rosa
mas o sistema público de transporte
não é rima
não tem graça
e nem é solução
pra esse tipo de vontade
eu agradeço a essa vontade
porque ela, viva,
continua viva
a cidade,
apesar de
a cidade está tão perigosa
a cidade está tão cara
ela disse
eu tenho medo de sair
depois de escurecer
e não saber voltar pra casa
você tem que aprender
que a vida sempre é
apesar de
aqui da fila do banco pensar no mar é
o momento de luxo prensado entre o edifício e o automóvel
o assalto ao apartamento no alto Leblon
o perigo
aqui
onde o carpete é grama brotada
azul e crespa
regada a ar condicionado e insulfilm roxo
dá pra ver que certa estava minha tia avó tereza,
que me ensinou a pegar o ônibus sozinho pra ir pra escola e a pisar no pé das pessoas
que não me deixassem passar quando chegasse o ponto
a violência
vive junto com a cidade, no meio da cidade, por dentro
a cidade somos nós, a violência são os outros
mal sabiam eles
que o paraíso
são os outros
mas
é verão no rio de janeiro
o relógio marca sete horas
e ainda faz sol
a felicidade não é
mas é quase
como se fosse
e hoje
pelo menos até umas seis
parece que a vida aqui ainda é
e que talvez até mereça
e que talvez ainda por cima
valha a pena
continuar sendo
mesmo que muitas vezes ela seja
só
como se fosse
Desenterrar
- Paul Auster
I
De par com as tuas cinzas, aqueles
ainda mal acabados de escrever, suprimindo
a ode, as atiçadas raízes, a estraneidade
do olhar – com mãos embrutecidas, arrastaram-te
para a cidade, apertaram-te
neste laço de gíria, e nada
te ofertaram. A tua tinta aprendeu
a violência das paredes. Banida,
mas sempre rumo à fraternal
quietude do coração, revolves os seixos
da velada terra, e compões o teu lugar
por entre os lobos. Cada sílaba
é um trabalho de sabotagem.
(Tradução de Rui Lage)
I
De par com as tuas cinzas, aqueles
ainda mal acabados de escrever, suprimindo
a ode, as atiçadas raízes, a estraneidade
do olhar – com mãos embrutecidas, arrastaram-te
para a cidade, apertaram-te
neste laço de gíria, e nada
te ofertaram. A tua tinta aprendeu
a violência das paredes. Banida,
mas sempre rumo à fraternal
quietude do coração, revolves os seixos
da velada terra, e compões o teu lugar
por entre os lobos. Cada sílaba
é um trabalho de sabotagem.
(Tradução de Rui Lage)
CD100270696BR
- Leila Danziger
Retornar ao remetente –
diz a etiqueta colada ao envelope
que eu acreditava
entregue
ao destinatário
há tempos.
Mas certos dias
o carteiro é uma deusa
que devolve as oferendas
e recebo de volta meu próprio gesto
suspenso
paralisado no envelope
exausto de carimbos, assinaturas
mistérios
mudou-se?
falecido?
recusado?
não sei
onde guardar
um envelope -
rastro-de-luz
remanescente
do desejo
arremessado
e já extinto.
Retornar ao remetente –
diz a etiqueta colada ao envelope
que eu acreditava
entregue
ao destinatário
há tempos.
Mas certos dias
o carteiro é uma deusa
que devolve as oferendas
e recebo de volta meu próprio gesto
suspenso
paralisado no envelope
exausto de carimbos, assinaturas
mistérios
mudou-se?
falecido?
recusado?
não sei
onde guardar
um envelope -
rastro-de-luz
remanescente
do desejo
arremessado
e já extinto.
01/01/2017
No rio de Heráclito
- Wisława Szymborska
No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.
No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos - diz - brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.
No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.
No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.
No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.
No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos - diz - brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.
No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.
No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.
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