- Ingrid Varella
Unsing all the songs.
Unwrite all the poetry.
Unsay all the words.
Untouch my skin.
Undeceive my dreams.
Unfeel my heart.
Unlet me fall.
Uncry the tears.
Unlook at me.
Unhide the lies.
Unembrace my soul.
Undo our love.
19/07/2011
Louco (Hora do delírio)
- Junqueira Freire
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.
Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele,
Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.
Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.
Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.
Agora, sim – o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.
E vós, almas terrenas, que a matéria
Os sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: – um louco!
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
16/07/2011
Soneto de Constatação - XXVI
- Pedro Lyra
Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.
Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.
Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.
Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.
Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:
— só interessa mesmo o que lhe falta.
Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.
Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.
Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.
Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.
Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:
— só interessa mesmo o que lhe falta.
05/07/2011
Geografia íntima do deserto
- Micheliny Verunschk
I - O corpo amoroso do deserto
Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.
Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?
E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.
Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.
II - A presença dolorosa do deserto
Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.
I - O corpo amoroso do deserto
Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.
Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?
E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.
Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.
II - A presença dolorosa do deserto
Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.
04/07/2011
Murmúrio
- Cecília Meireles
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
03/07/2011
Below the Raven's Nest
- David Wagoner
I was trying to find my voice
under a fir tree and scribble
and scrath something more
or less like it onto a page
but she came down halfway
from her crosshatched jumble
of sticks and seaweed, wedged
near the broken crown,
and explained her situation
with grinding ckucks, tut-tuts,
and insincere chuckles,
as if forgiving the rudeness
of a first offender, a violator
of rules maybe too difficult
for dim-witted outsiders
to take in, to get a grasp on
without official help. We stared
at each other. She decided
I might be hard of hearing
or somehow hopelessly challenged,
dropped to a lower branch,
and leaning forward
for emphasis, began cooing
to an idiot child, then barked,
had a brief asthma attack,
warmed a very bad boy
(who'd just disgraced himself)
never to do it again,
and after some teasing lip smacks
and a one-legged squat,
in case I was simply speechless,
gave me a death rattle.
I was trying to find my voice
under a fir tree and scribble
and scrath something more
or less like it onto a page
but she came down halfway
from her crosshatched jumble
of sticks and seaweed, wedged
near the broken crown,
and explained her situation
with grinding ckucks, tut-tuts,
and insincere chuckles,
as if forgiving the rudeness
of a first offender, a violator
of rules maybe too difficult
for dim-witted outsiders
to take in, to get a grasp on
without official help. We stared
at each other. She decided
I might be hard of hearing
or somehow hopelessly challenged,
dropped to a lower branch,
and leaning forward
for emphasis, began cooing
to an idiot child, then barked,
had a brief asthma attack,
warmed a very bad boy
(who'd just disgraced himself)
never to do it again,
and after some teasing lip smacks
and a one-legged squat,
in case I was simply speechless,
gave me a death rattle.
02/07/2011
Sintonia para pressa e presságio
- Paulo Leminski
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalso ao espasmo.
Eis a vez, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalso ao espasmo.
Eis a vez, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
01/07/2011
Sentença
- Anna Akhmátova
Caiu a palavra de pedra
no meu peito ainda vivo,
não faz mal, eu estava pronta,
de qualquer modo sobrevivo.
Tenho que fazer: a memória
há que matá-la até ao ovo,
devo petrificar a alma,
é preciso viver de novo.
Ou... O verão, seu murmúrio quente,
é como festa além do umbral.
Minha alma há muito o pressente:
casa vazia em dia claro.
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