31/10/2011

La courbe de tes yeux

-   Paul Éluard


La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.


Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,


Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards

30/10/2011

Apontamento

-   Álvaro de Campos



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

28/10/2011

Elsa

-  Louis Aragon


Tandis que je parlais le langage des vers
Elle s'est doucement tendrement endormie
Comme une maison d'ombre au creux de notre vie
Une lampe baissée au coeur des myrtes verts

Sa joue a retrouvé le printemps du repos
O corps sans poids pose dans un songe de toile
Ciel formé de ses yeux à l'heure des étoiles
Un jeune sang l'habite au couvert de sa peau

La voila qui reprend le versant de ses fables
Dieu sait obéissant à quels lointains signaux
Et c'est toujours le bal la neige les traîneaux
Elle a rejoint la nuit dans ses bras adorables

Je vois sa main bouger Sa bouche Et je me dis
Qu'elle reste pareille aux marches du silence
Qui m'échappe pourtant de toute son enfance
Dans ce pays secret à mes pas interdit

Je te supplie amour au nom de nous ensemble
De ma suppliciante et folle jalousie
Ne t'en va pas trop loin sur la pente choisie
Je suis auprès de toi comme un saule qui tremble

J'ai peur éperdument du sommeil de tes yeux
Je me ronge le coeur de ce coeur que j'écoute
Amour arrête-toi dans ton rêve et ta route
Rends-moi ta conscience et mon mal merveilleux.

Do meu amor para a tua infância

-  Micheliny Verunschk


O menino de porcelana
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.


Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau

( As árvores são dois meninos
Há tempos imemoriais ).

Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).

Fui eu

-   Rubens Jardim


Não se aprende um rosto  
contemplando quadros.  
O rosto sempre excede  
a expressão quadro.  
Mesmo quando cede  
sua sede de rio  
sua sede de água  
o rosto incide  
a impressão quadro.  

Já não falamos moldura  
ou outro ornamento  
ou outro acessório.  
Mas a própria tela  
em transbordamento:  
aquário seco.

Viagem

-  Bernadette Lyra


Pelos meus dedos molhados
         escorrem largos oceanos.
Pelos meus dedos azuis
         desfilam navios esquálidos.
Meus dedos estão cansados
por isto, já nem se fecham:
         portos vagos abrem-se e deixam
         partirem todos os sonhos.



Os sonhos vão como mortos
em seus esquifes marinhos
         nos corpos sem consistência
         pousam anêmonas.
Os rostos entre rochedos opostos desaparecem.
Mistério exibe-se em ar grave e sério
à terra do esquecimento.


Restos de brumas aladas
         perpassam na maresia.
Minhas mãos já não sustentam
quilhas contra as águas claras.
         Cantam na vela enfunada
ventos de todo quadrante
por mais que busquem o horizonte
         o infinito os afasta.


- Sou como viageiro estranho,
por mais que busque e navegue
do infinito o talvegue,
jamais reencontro os sonhos.

Ars Poetica

-  Anne Coray


Nothing can be said
that is intended.

You cannot grow melons
but you learn that swamp grass
is of equal value.

If you should exact
the sound of a dove
you are perhaps unfortunate.
The coo must become
something slightly
undefined and private.

Deference to the self
is the only way to patience.
Is the slug unhappy
because he has no followers?

If you believed once in water
(whether oceans or tears)
you will someday uncover salt.
You will learn how it is mined,
begin a study of structure.

Curiously, you'll find the tongue
reluctant to accept a formal logic.
What you tend, after all,
is invariably simple:
a leaf, a blade, a stone,
the vowels long and pure,
rich and lovely.

07/10/2011

A aeronave

-  Augusto dos Anjos




Cindindo a vastidão do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo. 



E na esteira sem fim da azúlea esfera
Ei-la embalada n’amplidão dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera. 



Voa, se eleva em busca do infinito,
É como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência. 



Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.


Représentation

-   Jacques Prévert


    Des représentants de commerce du Peuple sont en scène et
échangent de terribles invectives.
    Le rideau tombe et se relève sans que les acteurs y aient prêté attention
et ils continuent leur <conversation>.


    - Qu'est-ce que cela peut faire que je lutte pour la mauvaise cause
puisque je suis de bonne foi?
    - Et qu'est-ce que ça peut faire que je sois de mauvaise foi puisque
c'est pour la bonne cause?


    Ils se saluent.

    Le rideau tombe puis se relève.
    Ils s'en aperçoivent et s'invectivent.