28/10/2011

Viagem

-  Bernadette Lyra


Pelos meus dedos molhados
         escorrem largos oceanos.
Pelos meus dedos azuis
         desfilam navios esquálidos.
Meus dedos estão cansados
por isto, já nem se fecham:
         portos vagos abrem-se e deixam
         partirem todos os sonhos.



Os sonhos vão como mortos
em seus esquifes marinhos
         nos corpos sem consistência
         pousam anêmonas.
Os rostos entre rochedos opostos desaparecem.
Mistério exibe-se em ar grave e sério
à terra do esquecimento.


Restos de brumas aladas
         perpassam na maresia.
Minhas mãos já não sustentam
quilhas contra as águas claras.
         Cantam na vela enfunada
ventos de todo quadrante
por mais que busquem o horizonte
         o infinito os afasta.


- Sou como viageiro estranho,
por mais que busque e navegue
do infinito o talvegue,
jamais reencontro os sonhos.