- Margaret Atwood
I know I change
have changed
but whose is this vapid face
pitted and vast, rotund
suspended in empty paper
as though in a telescope
the granular moon
I rise from my chair
pulling against gravity
I turn away
and go out into the garden
I revolve among the vegetables,
my head ponderous
reflecting the sun
in shadows from the pocked ravines
cut in my cheeks, my eye-
sockets 2 craters
among the paths
I orbit
the apple trees
white white spinning
stars around me
I am being
eaten away by light
22/11/2011
20/11/2011
EU VI O REI PASSAR
- Antonio Cicero
Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.
Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.
Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor
Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.
Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.
Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.
Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor
Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.
19/11/2011
O tempo passa? Não passa
- Carlos Drummond de Andrade
O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima,
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima,
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
16/11/2011
Epílogo
- Anna Akhmátova
Fiquei a saber como murcham os rostos,
como das pálpebras o medo assoma,
como das pálpebras o medo assoma,
como o sofrimento escreve nas faces
rijas páginas de escrita cuneiforme,
como se tornam súbito prateadas
as madeixas ruças, madeixas pretas,
murcha o sorriso nos lábios subjugados
e no risinho seco tremem medos.
E estou a rezar não só por mim, mas
por todas que estiveram ali comigo
no calor de Julho e no frio cruel
junto ao muro vermelho e cego.
Outra vez a hora da missa das almas.
Vejo, ouço, sinto que elas vêm:
a que arrastarem a custo à janela,
a que já não pisa a terra mãe,
a que, sacudindo a cabeça bela,
disse: "venho aqui como à minha casa!"
Gostava de chamá-las pelo nome,
mas até da lista me amputaram.
Teci para elas uma ampla capa
das pobres palavras que lhes ouvia.
Vejo-as sempre, e por todo o lado,
jamais as esqueço, em nova desgraça.
E se amordaçarem minha boca extenuada,
donde grita um povo de cem milhões,
que elas me lembrem da mesma maneira
na véspera da hora do meu funeral.
E se nesta terra alguma vez
pensarem em me erguer um monumento,
terão todo o meu consentimento,
mas imponho: não o vão colocar
à beira d'água, onde nasci -
quebrou-se a última amarra com o mar -,
nem no jardim real, junto ao tronco amado
onde a sombra inconsolável me procura,
mas aqui, onde estive de pé trezentas horas
e não me destrancaram o ferrolho.
Porque receio esquecer, na morte calma,
o ribombar dos carros negros, o estalido
da porta odiosa, e como uivava
uma velha, tal um animal ferido.
Que das pálpebras imóveis de bronze
corra, como lágrimas, derretida neve
e a pomba da prisão arrulhe ao longe
e naveguem lentas as naves pelo Neva.
08/11/2011
A Party of Lovers
- John Keats
Pensive they sit, and roll their languid eyes,
Nibble their toast, and cool their tea with sighs,
Or else forget the purpose of the night,
Forget their tea — forget their appetite.
See with cross’d arms they sit — ah! happy crew,
The fire is going out and no one rings
For coals, and therefore no coals Betty brings.
A fly is in the milk-pot — must he die
By a humane society?
No, no; there Mr. Werter takes his spoon,
Inserts it, dips the handle, and lo! soon
The little straggler, sav’d from perils dark,
Across the teaboard draws a long wet mark.
Arise! take snuffers by the handle,
There’s a large cauliflower in each candle.
A winding-sheet, ah me! I must away
To No. 7, just beyond the circus gay.
‘Alas, my friend! your coat sits very well;
Where may your tailor live?’ ‘I may not tell.
O pardon me — I’m absent now and then.
Where might my tailor live? I say again
I cannot tell, let me no more be teaz’d —
He lives in Wapping, might live where he pleas’d.’
Le jet d'eau
- Charles Baudelaire
Tex beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis, elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente,
Descend jusqu'au fond de mon coeur.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
O toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plaintre éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancolie
Est le miroir de mon amour.
Tex beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis, elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente,
Descend jusqu'au fond de mon coeur.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
O toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plaintre éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancolie
Est le miroir de mon amour.
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