16/11/2011

Epílogo

-  Anna Akhmátova

 

Fiquei a saber como murcham os rostos,
como das pálpebras o medo assoma,
como o sofrimento escreve nas faces
rijas páginas de escrita cuneiforme,
como se tornam súbito prateadas
as madeixas ruças, madeixas pretas,
murcha o sorriso nos lábios subjugados
e no risinho seco tremem medos.
E estou a rezar não só por mim, mas
por todas que estiveram ali comigo
no calor de Julho e no frio cruel
junto ao muro vermelho e cego.
 
 
Outra vez a hora da missa das almas.
Vejo, ouço, sinto que elas vêm:
 
a que arrastarem a custo à janela,
a que já não pisa a terra mãe,
 
a que, sacudindo a cabeça bela,
disse: "venho aqui como à minha casa!"
 
Gostava de chamá-las pelo nome,
mas até da lista me amputaram.
 
Teci para elas uma ampla capa
das pobres palavras que lhes ouvia.
 
Vejo-as sempre, e por todo o lado,
jamais as esqueço, em nova desgraça.
 
E se amordaçarem minha boca extenuada, 
donde grita um povo de cem milhões,
 
que elas me lembrem da mesma maneira
na véspera da hora do meu funeral.
 
E se nesta terra alguma vez
pensarem em me erguer um monumento, 
 
terão todo o meu consentimento,
mas imponho: não o vão colocar
 
à beira d'água, onde nasci - 
quebrou-se a última amarra com o mar -,
 
nem no jardim real, junto ao tronco amado
onde a sombra inconsolável me procura,
 
mas aqui, onde estive de pé trezentas horas
e não me destrancaram o ferrolho.
 
Porque receio esquecer, na morte calma,
o ribombar dos carros negros, o estalido
 
da porta odiosa, e como uivava
uma velha, tal um animal ferido.
 
Que das pálpebras imóveis de bronze
corra, como lágrimas, derretida neve
 
e a pomba da prisão arrulhe ao longe
e naveguem lentas as naves pelo Neva.