- Rodrigo Petronio
Quanto mais o tempo passa mais o passado se amplia na memória
E o horizonte se afunila nessa luz oblíqua do sol posto:
Aves e silhuetas migram rumo à sombra original que se anuncia
Presas ao eclipse de nuvens que varrem o céu em uma marcha monótona.
Viajante: olha nos meus olhos vazios e vê o pó que se conserva dos meus
dias.
Trava o pacto natural que nos irmana nesse ninho de trevas carcomido pelo
nácar:
Insígnias douradas e outras tantas datas que o destino por descuido nos
deixou.
Contempla os vermes que implodiram a minha carne enrijecida.
Envaidece-te de ver as estrelas e da seiva de tua veia macerada.
De tudo restará talvez o nome.
E os monumentos que meu Império ergue no deserto
Não duram mais que as pegadas de um homem.
Em breve estarei a sós com minha verdade irredutível.
Olho cada um dos que à minha volta se renovam
Como quem já não guarda mais nenhum lastro com os vivos.
Sei que ainda estarei aqui sentado
Por muitas e muitas vidas que se fiam.
Outro será o rosto em mim gravado.
Atrás de muitas máscaras hei de expirar ainda:
Diverso de mim mesmo, no espelho desse lago,
Sempre idêntico a mim mesmo
Na eternidade do instante que declina.
30/04/2012
Quero ficar perto de ti
- Masé Lemos
O que acontece quando se alcança a poesia?
a pergunta assim de chofre
cintila o ar e você responde embaraçado
- te levo agora para esclarecer
e se é preto no branco
o branco no preto exorciza
porque tudo é mais simples que eu.
o seu olhar desencontrado soma
verso limpo
reverso sujo
e se patinasse nas palavras um desejo?
a coisa ínfima
alguma coisa.
O que acontece quando se alcança a poesia?
a pergunta assim de chofre
cintila o ar e você responde embaraçado
- te levo agora para esclarecer
e se é preto no branco
o branco no preto exorciza
porque tudo é mais simples que eu.
o seu olhar desencontrado soma
verso limpo
reverso sujo
e se patinasse nas palavras um desejo?
a coisa ínfima
alguma coisa.
Dame
- Carlos Edmundo de Ory
Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra
No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice
Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!
Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra
No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice
Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!
29/04/2012
- Paulinho da Viola
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
28/04/2012
Enivrez-vous
Charles Baudelaire
Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront:
"Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."
Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront:
"Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."
18/04/2012
sei de uma hora
- gil t. sousa
sei de uma hora
em que todos os relógios me fuzilam
e eu caio em tantos segredos
que nem sei
se são meus
inês subtil
- valter hugo mãe
talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efêmeras
talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo
talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome
não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quanto te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração
como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti
também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo
16/04/2012
EX/PLICAÇÃO
- Haroldo de Campos
não há um
sentido único
num
poema
quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida
beco
(tente outra
vez)
sem saída
04/04/2012
Feche os olhos e leia
- Alberto Pucheu
Não há nenhum Virgílio a me guiar
no inferno nem nenhuma Beatriz,
movida por amor, a me salvar
no paraíso: em meu caminho, estou
sozinho. No lugar que não tem sombras
sem sol nem sol sem sombras, no lugar,
embaixo, sinto o asfalto, em cima, o céu,
no meio estou e nem sei mais se estou.
De tão pequeno, sou ainda menos
que nada. Nada sou. Ou um qualquer
sem nome, musa, deus, inferno ou guia.
Ou um qualquer, no meio do caminho
de sua vida sem começo ou fim,
sem se encontrar achado nem perdido.
Não há nenhum Virgílio a me guiar
no inferno nem nenhuma Beatriz,
movida por amor, a me salvar
no paraíso: em meu caminho, estou
sozinho. No lugar que não tem sombras
sem sol nem sol sem sombras, no lugar,
embaixo, sinto o asfalto, em cima, o céu,
no meio estou e nem sei mais se estou.
De tão pequeno, sou ainda menos
que nada. Nada sou. Ou um qualquer
sem nome, musa, deus, inferno ou guia.
Ou um qualquer, no meio do caminho
de sua vida sem começo ou fim,
sem se encontrar achado nem perdido.
Vilancete
- Bernardim Ribeiro
Entre mim mesmo e mim
não sei que se alevantou,
que tão meu imigo sou.
Uns tempos, com grande engano,
vivi eu mesmo comigo,
agora no mor perigo
se me descobre o mor dano.
Caro custa um desengano
e pois me este não matou
quão caro que me custou.
De mim me sou feito alheio,
entre o cuidado e cuidado
está um mal derramado
que por mal grande me veio.
Nova dor, novo receio
foi este que me tomou:
assim me tem, assim estou.
Gota
- Isaac Ruy
a
cada
gota
canto
como
um
conta-
gotas
conta
as
gotas
no
canto
do
copo
e
gosto
como
o
gosto
do
canto
gasta
o
gesto
gasto
do
conta-
gotas
que
conta
e
canta
como
eu
canto
quando
conto
gota
a
gota
as
gotas
do
conta-
gotas
no
canto
do
copo
a
cada
gota
canto
como
um
conta-
gotas
conta
as
gotas
no
canto
do
copo
e
gosto
como
o
gosto
do
canto
gasta
o
gesto
gasto
do
conta-
gotas
que
conta
e
canta
como
eu
canto
quando
conto
gota
a
gota
as
gotas
do
conta-
gotas
no
canto
do
copo
03/04/2012
Guardar
- Antonio Cicero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
02/04/2012
Via
- Eucanaã Ferraz
Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,
eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,
sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes
do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.
Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.
Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia
nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.
E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.
Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,
eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,
sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes
do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.
Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.
Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia
nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.
E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.
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