- Rodrigo Petronio
Quanto mais o tempo passa mais o passado se amplia na memória
E o horizonte se afunila nessa luz oblíqua do sol posto:
Aves e silhuetas migram rumo à sombra original que se anuncia
Presas ao eclipse de nuvens que varrem o céu em uma marcha monótona.
Viajante: olha nos meus olhos vazios e vê o pó que se conserva dos meus
dias.
Trava o pacto natural que nos irmana nesse ninho de trevas carcomido pelo
nácar:
Insígnias douradas e outras tantas datas que o destino por descuido nos
deixou.
Contempla os vermes que implodiram a minha carne enrijecida.
Envaidece-te de ver as estrelas e da seiva de tua veia macerada.
De tudo restará talvez o nome.
E os monumentos que meu Império ergue no deserto
Não duram mais que as pegadas de um homem.
Em breve estarei a sós com minha verdade irredutível.
Olho cada um dos que à minha volta se renovam
Como quem já não guarda mais nenhum lastro com os vivos.
Sei que ainda estarei aqui sentado
Por muitas e muitas vidas que se fiam.
Outro será o rosto em mim gravado.
Atrás de muitas máscaras hei de expirar ainda:
Diverso de mim mesmo, no espelho desse lago,
Sempre idêntico a mim mesmo
Na eternidade do instante que declina.