- Artur Lundkvist
Erra Orfeu pelo mundo,
ora vagabundo coberto de pó por planos caminhos,
ora escalador com edelweiss no chapéu
e corda oleada à volta da lira.
- Sou cantor errante
à procura de um mito perdido,
mas só estátuas encontro,
amor e heroísmo em pedra esculpidos.
E em toda a parte sou o Estrangeiro.
Nenhum povo, nenhuma árvore genealógica bebe a vida
destas fontes. Perde-se o homem na multidão
ou, como máquina, peça por peça se desmonta,
doente de paixão de revelar-se
ou de conhecer-se a si próprio. A mulher
jaz com o seio morto e escuta o trovejar
do mar da noite. Luz e trevas
perderam o seu poder, a sua distinção.
Estrangeiro sou?
Mesmo aqui entre as liras das árvores
felizes de tão raramente assim soarem?
Nunca se abrem as mulheres-árvores, nunca sorriem,
apenas a terra sugam e o ar, o mais que podem.
Euridice alguma me segue no limiar da manhã.
Meu canto não alcança ouvidos, não move corações.
Eu próprio sou o homem desmembrado,
não só não trago a delicada lira
como me pesa também o fardo da carne
neste tempo e abatedouro da vida.
Se então um estrangeiro no mundo real,
no multiplice abismo da criação?
Como imagens aquáticas acumuladas num poço
é a minha angústia; mas vergo ao peso deste fardo
e é apenas lá no fundo entre as pedras que o sangue corre.
Quero quebrar em pedaços a estátua que me figura humano,
revestir-me com pele de tigre ou pernas de flamingo,
ser árvore ou fonte, nuvem ou estrela,
palpitar com a montanha, embeber-me com a terra,
penetrar em tudo e em tudo soar!
(Tradução de Silva Duarte)