29/11/2012

Visita-me enquanto não envelheço


-  Al Berto


visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem.

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

28/11/2012

Finis


-  Casimiro de Brito


Se antes de abrir a boca
Já está tudo dito
Deverei abrir a boca?


Enredar-me nas águas
Se o mar consome as areias por toda a parte?


Levantar-me alucinado
Se as nuvens apagam o fogo
Mais cedo ou mais tarde?


Se não há nada para dizer
Onde se acumulam as palavras
Que não foram ditas?

Evadir-me, esquecer-me


-  Sophia de Mello Breyner Andresen


Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.


Arte poética


-  Jorge Luís Borges



Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.




27/11/2012

Netuno


-  Simone de Andrade Neves

Crê e trilhas, 
insólitos anéis, 
luas diversas. 

Adagas sustentam 
frágeis 
estalactites. 

Entre o gélido 
e os ventos 
o corpo filtra: 
o meio. 

Nem grande, 
nem pequeno, 

nem perto, 
nem longe, 

o mais pesado: 
o centro. 

26/11/2012

O sorriso

-  Eugénio de Andrade



Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.





 

19/11/2012

Cinco breves poesias


-  Sandro Penna



1
Talvez a juventude seja isto:
sem arrependimento amar sempre os sentidos.

2
Este corpo que aperto (e me aperta!)
tem um sabor de estrelas e de lodo.
E eu não sei quem agora me tinge
(profundíssimo jogo) de vermelho
as estrelas.

3
Era no cinema, onde as portas
se abrem e fecham continuamente.
Àquele rumor ela pensou
que ele voltasse;
mas não voltou.

4
Fazer do verde prado
um jogo proibido.
Já o tenho tentado.
Sem o conseguir.

5
«Poeta exclusivo do amor»
me chamaram. E era talvez certo.
Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores
da cidade longínqua
não são eles também amor?
Sob nuvens quentes
não são ainda o som
de um amor que arde
e não mais se afasta?



(Tradução de David Mourão Ferreira)

11/11/2012

Pinheiros

-  Maria Rita Kehl


Poderia, digamos
não ser hoje.
Podia não ser agora
                        nem aqui.
O ar é grávido de possibilidades
e de cheiros; nessas coisas
ninguém é dono do próprio nariz.

Essa tarde, por exemplo
merece um sorvete
saudadndo o fim da chuva de verão.

Mas então          eu teria
                          nove anos
                          sandálias havaianas
e o bonde subindo a rua
             Theodoro Sampaio

06/11/2012

Os mortos e suas crianças


-   Benjamin Péret


Se eu fosse alguma coisa
não alguém
diria aos filhos de Édouard
providenciem
e se eles não providenciassem
eu iria para a floresta dos reis magos
sem galochas e sem ceroulas
como um eremita
e haveria certamente um grande animal
sem dentes
com plumas
e redondo como um vitelo
que viria uma noite devorar minhas orelhas
Então deus me diria
você é um santo entre os santos
pegue este automóvel
O automóvel seria sensacional
oito cilindros e dois motores
e no centro uma bananeira
que camuflaria Adão e Eva
fazendo

mas isso será objeto de outro poema

(Tradução de Laura Erber)

04/11/2012

Fixações


- Luis Muñoz


Telefona-me à meia-noite.
Escuto o lamber do vento
através do telefone, como um cachorro ansioso,
e a sua voz transparente na cabina.
Há em frente ─  diz-me ─
um armazém de chapa
com forma de garrafa,
um terreno com escombros
branqueados de gesso,
umas casas cúbicas como dados sem uso
e três ou quatro pinheiros calcinados
da cor do remorso.
Estas poucas imagens
fixam-me à sua ausência
como devem fixá-lo ao facto de estar só.
No meu quarto de livros clareados
pela luz de moeda da lua,
provoca uma pontada:
─  Estou atrás de ti ─  diz-me ─
e em redor de tudo isto.


(Tradução Joaquim Manuel Magalhães)

Nostalgia


-  gil t. sousa


o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória

o amor
como um obediente
braço quebrado

reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido

e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas

suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

Distribuição do tempo

-   Julio Cortázar




Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez são mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.

(Tradução de Jorge Henrique Bastos)