04/11/2012
Fixações
- Luis Muñoz
Telefona-me à meia-noite.
Escuto o lamber do vento
através do telefone, como um cachorro ansioso,
e a sua voz transparente na cabina.
Há em frente ─ diz-me ─
um armazém de chapa
com forma de garrafa,
um terreno com escombros
branqueados de gesso,
umas casas cúbicas como dados sem uso
e três ou quatro pinheiros calcinados
da cor do remorso.
Estas poucas imagens
fixam-me à sua ausência
como devem fixá-lo ao facto de estar só.
No meu quarto de livros clareados
pela luz de moeda da lua,
provoca uma pontada:
─ Estou atrás de ti ─ diz-me ─
e em redor de tudo isto.
(Tradução Joaquim Manuel Magalhães)