06/02/2013

Arte poética

-   Vitorino Nemésio


A poesia do abstracto?
 Talvez.
 Mas um pouco de calor,
 A exaltação de cada momento.
 É melhor.
 Quando sopra o vento
 Há um corpo na lufada;
 Quando o fogo alteou
 A primeira fogueira,
 Apagando-se fica alguma coisa queimada.
 É melhor!
 Uma ideia,
 Só como sangue de problema;
 No mais, não,
 Não me interessa.
 Uma ideia
 Vale como promessa,
 E prometer é arquear
 A grande flecha.
 O flanco das coisas só sangrando me comove,
 E uma pergunta é dolorida
 Quando abre brecha.
 Abstracto!
 O abstracto é sempre redução,
 Secura.
 Perde,
 E diante de mim o mar que se levanta é verde:
 Molha e amplia.
 Por isso, não:
 Nem o abstracto nem o concreto
 são propriamente poesia.
 Poesia é outra coisa.
 Poesia e abstracto, não.