26/03/2013

Poème à dire


-  Marcel Béalu


La liberté ne s'écrit pas sur la forme changeante des nuages
La liberté n'est pas une sirène cachée au fond des eaux
La liberté ne vole pas au gré des vents
Comme la lunule du pissenlit
La liberté en robe de ciel ne va pas dîner chez les rats
Elle n'allume pas ses bougies de Noël
Aux lampions du 14 Juillet
La liberté je lui connais un nom plus court
Ma liberté s'appelle Amour
Elle a la forme d'un visage
Elle a le visage du bonheur


25/03/2013

A origem


-  Konstantínos Kaváfis


Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.

Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.


(Tradução de Jorge de Sena)

22/03/2013

Mundo Interior


-  Machado de Assis


Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
Do sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, - a natureza externa, -
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E, contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.

16/03/2013

Anyone lived in a pretty how town


-  E. E. Cummings



anyone lived in a pretty how town
(with up so floating many bells down)
spring summer autumn winter
he sang his didn't he danced his did

Women and men (both little and small)
cared for anyone not at all
they sowed their isn't they reaped their same
sun moon stars rain

children guessed (but only a few
and down they forgot as up they grew
autumn winter spring summer)
that noone loved him more by more

when by now and tree by leaf
she laughed his joy she cried his grief
bird by snow and stir by still
anyone's any was all to her

someones married their everyones
laughed their cryings and did their dance
(sleep wake hope and then) they
said their nevers they slept their dream

stars rain sun moon
(and only the snow can begin to explain
how children are apt to forget to remember
with up so floating many bells down)

one day anyone died i guess
(and noone stooped to kiss his face)
busy folk buried them side by side
little by little and was by was

all by all and deep by deep
and more by more they dream their sleep
noone and anyone earth by april
wish by spirit and if by yes.

Women and men (both dong and ding)
summer autumn winter spring
reaped their sowing and went their came
sun moon stars rain

Toda viagem é interior

-    Armando Freitas Filho



Toda viagem é interior
embora
                       por fora
se vista o carro ou o trem
e se aprenda a nadar
com o navio
                       e a voar
pelos ares, como as bombas
e os aviões;
                       toda viagem
se faz por dentro
como as estações
se fabricam, invisíveis
a partir do vento
                      silenciosas
como quando um pensamento
muda de tempo e de marcha
distraído de si, e entra
em outro clima
                     com a cabeça no ar:
psiu, míssil, além do som
e de qualquer mapa
ou guia que desenrolo
míope, sobre a estrada
que passa
sob meu pé-pneumático
sob o célere céu azul
do meu chapéu;
                      toda viagem
avança e se alimenta
apenas de horizontes
futuros, infinitos, vazios
e nuvens:
                     toda viagem é anterior

14/03/2013

Mundo grande


-  Carlos Drummond de Andrade



Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

11/03/2013

Abro as veias, irreprimível


-  Marina Tzvietáieva



Abro as veias, irreprimível,           
Irrecuperável a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

           Pelas bordas – à margem –
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.


(Tradução de Augusto de Campos)

Finale


-   Abigael Bohórquez



Pero voy a partir,
aprendiz amantísimo
que ha sido carne cerca y desunida,
potrillo dulcemente conseguido,
niño zúrrela de corazón torado,
pero voy a partir,
acércate de nuevo,
búscame y estremécete,
desnúdate y traspásame,
gime y hazme gemir,
no me des tregua,
asuélame,
para bien, para mal, para cualquier suerte,
di palabras que no entienda, pero que necesito,
y en un estruendo líquido y profundo:
qué gana de morirnos en plenitud de buenos camaradas
que se han hecho el amor
como quien dijo: hágase la alegría,
y se hizo.

10/03/2013

A Song


-   Josif Brodski


I wish you were here, dear, 
I wish you were here. 
I wish you sat on the sofa 
and I sat near. 
The handkerchief could be yours, 
the tear could be mine, chin-bound. 
Though it could be, of course, 
the other way around. 

I wish you were here, dear, 
I wish you were here. 
I wish we were in my car, 
and you’d shift the gear. 
We’d find ourselves elswere, 
on an unknown shore. 
Or else we’d repair 
to where we’ve been before. 

I wish you were here, dear, 
I wish you were here. 
I wish I knew no astronomy 
when stars appear, 
when the moon skims the water 
that sighs and shifts in its slumber. 
I wish it were still a quarter 
to dial your number. 

I wish you you were here, dear, 
in this hemisphere, 
as I sit on the porch 
sipping a beer. 
It’s evening, the sun is setting: 
boys shout and gulls are crying. 
What’s the point of forgetting 
if it’s followed by dying? 

Soneto

-  Sóror Juana Inés de la Cruz



Deténte, sombra de mi bien esquivo,
imagen del hechizo que más quiero,
bella ilusión por quien alegre muero,
dulce ficción por quien penosa vivo.

si al imán de tus gracias atractivo,
sirve mi pecho de obediente acero,
¿para qué me enamoras lisonjero,
si has de burlarme luego fugitivo?

mas blasonar no puedes, satisfecho,
de que triunfa en mí tu tiranía:
que aunque dejas burlado el lazo estrecho,

que tu forma fantástica ceñía,
poco importa burlar brazos y pecho
si te labra prisión mi fantasía.

03/03/2013

em acrílico forte

-  gil t. sousa



não sei
a que cidade cheguei

lembro-me de ter vinte anos
e cegar

perdi
o que nenhum homem sabia perder

e alguém me disse:
- desenha a tua morte

e eu peguei nos meus olhos
e fiz este silêncio negro

porque os meus olhos
eram negros

e neles é que eu guardava
a vida e a morte

foi há muito tempo
pois sou um homem muito velho

sou tão velho
como a distância do caminho que percorri

lembro-me que fui
que fui, como o sangue vai numa veia

até ao coração
do nada

até sofrer a eternidade
como uma pedra ou um planeta

fui na gota de mim
ao oceano de mim

e agora cheguei
sem saber onde cheguei

estou no mais abstracto
de um ser

estou na minha alma
ou no meu sonho

estou na essência
do que faz enlouquecer

sinto-o na cor forte
que me devolve os olhos

no estranho calor
que me concede humanidade

não sei
a que mundo cheguei

sou um velho
que ensaia o seu olhar

e há esta cidade estranha
onde não corre o vento

onde nenhum céu vigia
nenhum horizonte define

estou sentado
num prado de aço

e nenhuma estrada
foi escrita

nenhum rio
foi pintado

nenhum ser
foi dito

sou um velho
e ensaio o meu olhar

exerço-o no invisível
que precede as coisas

que está antes do objecto
antes do ser

e tenho nas mãos
a ciência dos gestos

tenho a Arte
sou o talento da vida

por isso
gota a gota

dou-me
um mar

dou-me
os homens e as mulheres

e dou-me em cada um
a voz

todas as vozes
até ao esplendor do grito

e nesse rumor
nesse quase cantar

é que oiço o nome
do que me chama

não sei
que cidade me espera

sou um velho
sou um pássaro cego

que voa adormecido
os seus vinte anos