21/05/2014

estereofonia

-  Marília Garcia


nunca falei tão sério,
disse e olhei pra cima: seu rosto no
meio das gotas o guarda-chuva
preto como uma moldura redonda e você parado
cantando virado para o vidro do carro
sem ouvir mais nada
e a voz
            e a voz
                          e  a voz cantando no meio da chuva
não pó-sso
mais...
virado para o vidro do carro
isso podia ser você, mas o caminho mais rápido
de um ponto a outro, ele diz.
e eu  olhei pra cima:

pierre, arrependido, conta que
perto dali uma mulher entrou no
bar. ela tinha o seu nome.
_____: no, no es verdad.
LA CHICA: você estava lá?
_____: ela se chamava doris salcedo.

podia ter vindo de outro lugar, olhando pra longe,
os cílios partidos,
     e a voz cantando no meio da chuva
mas o caminho mais rápido, me diz, e
eu olho pra cima e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva. tem um pingo tornando malva
mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor que lembro era o
chumbo daquela vez
                                   e eu olho pra cima você descia
as escadas,
no último degrau já sabe
– cada curva contém 15 passos. ou será só um poema
essa viagem muda em ziguezague atravessando
asfalto, algarismos de velocidade
e raios de esquecimento?

sendo assim seu poema tem 15 passos, conta os metros
enquanto vai dizendo o poema caminhando mas
daquele dia vejo só o chumbo e a voz
no vidro do carro.

depois levanto um braço o guarda-chuva preto
moldura para descongelar cada um dos 24 degraus
para descongelar a ordem do verso seguinte.
panorâmica, golpe e locutor:

– você vai sempre pelo som?
– que som?