08/01/2015

ao primeiro poeta da Hungria

-  Jorge Luis Borges


Neste período para ti futuro
Que desconhece o áugure que a forma
Proibida do porvir vê nos planetas
Ardentes ou nas vísceras do touro,
Nada me custaria, irmão e sombra,
Buscar ter nome nas enciclopédias
E descobrir que rios refletiram
Teu rosto, que hoje é perdição e pó,
E que reis, que ídolos, que espadas,
Que resplendor da tua infinita Hungria
Elevaram rua voz ao primo canto.
As noites e os mares nos separam,
As seculares modificações,
Os climas, os impérios e os sangues.
Porém nos une indecifravelmente
O misterioso amor pelas palavras,
Nosso costume de sons e símbolos.
Semelhante ao arqueiro do eleata,
Um homem só numa tarde vazia
Deixa correr sem fim essa impossível 
Saudade, que tem por alvo uma sombra.
Não nos veremos nunca face a face,
Oh, antepassado que minha voz não alcança.
Eu para ti não sou sequer um eco;
Para mim sou um tormento e um arcano,
Uma ilha de encanto e temores,
Como talvez o sejam os homens todos,
E como o foste tu, sob outros astros.

(Tradução de Josely Vianna Baptista)