16/12/2015

Você não entende nada

-  Caetano Veloso


Quando eu chego em casa 
nada me consola
Você está sempre aflita
lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a Coca-Cola 
eu tomo
Você bota a mesa, 
eu como, eu como, eu como, 
eu como, eu como
Você
não está entendendo
quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, 
eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suíta, eu tomo
Bota a sobremesa eu como, eu como
eu como, eu como, eu como
Você
tem que saber que eu quero correr mundo
correr perigo
Eu quero é ir-me embora
eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo




15/12/2015

A process in the weather of the heart

-  Dylan Thomas


A process in the weather of the heart
turns damp to dry; the golden shot
storms in the freezing tomb.
A weather in the quarter of the veins
turns night to day; blood in their suns
lights up the living room.

A process in the eye forwarns
the bones of blindness; and the womb
drives in a death as life leaks out.

A darkness in the weather of the eye
is half its light; the fathomed sea
breaks on unangled land.
The seed that makes a forest of the loin
forks half its fruit; and half drops down,
slow in a sleeping wind.

A weather in the flesh and bone
is damp and dry; the quick and dead
move like two ghosts before the eye.

A process in the weather of the world
turns ghost to ghost; each mothered child
sits in their double shade.
A process blows the moon into the sun,
pulls down the shabby curtains of the skin;
and the heart gives up its dead.

08/12/2015

Trabalho todo dia como um monge

-  Pier Paolo Pasolini


Trabalho todo dia como um monge 
e à noite vagueio, como um gato 
à cata de amor… Vou sugerir 
à Cúria que me santifique. 
Com efeito, respondo à mistificação 
com a mansidão. Olho com olhos 
de imagem os que vão linchar-me. 
Observo o meu massacre com a coragem 
serena de um sábio. Pareço 
sentir ódio, mas escrevo 
versos cheios de amor atento. 
Estudo a perfídia como um fenômeno 
fatal, como se dela não fosse objeto. 
Tenho pena dos jovens fascistas, 
e aos velhos, que são para mim formas 
do mais horrível mal, oponho 
apenas a violência da razão. 
Passivo como um pássaro que, voando, 
tudo vê, e, no seu vôo para o céu, 
leva no coração a consciência 
que não perdoa.

(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

07/12/2015

Tu eras também uma pequena folha

-  Pablo Neruda


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

02/12/2015

Dos cuerpos

- Octavio Paz

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.

Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.