08/12/2015

Trabalho todo dia como um monge

-  Pier Paolo Pasolini


Trabalho todo dia como um monge 
e à noite vagueio, como um gato 
à cata de amor… Vou sugerir 
à Cúria que me santifique. 
Com efeito, respondo à mistificação 
com a mansidão. Olho com olhos 
de imagem os que vão linchar-me. 
Observo o meu massacre com a coragem 
serena de um sábio. Pareço 
sentir ódio, mas escrevo 
versos cheios de amor atento. 
Estudo a perfídia como um fenômeno 
fatal, como se dela não fosse objeto. 
Tenho pena dos jovens fascistas, 
e aos velhos, que são para mim formas 
do mais horrível mal, oponho 
apenas a violência da razão. 
Passivo como um pássaro que, voando, 
tudo vê, e, no seu vôo para o céu, 
leva no coração a consciência 
que não perdoa.

(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)