- Samuel Beckett
Arrastando a sua fome através do céu
do meu crânio concha de céu e da terra
mergulhando sobre os tombados de borco
que breve deverão retomar a vida e andar
escarnecido por um tecido que poderá não
[servir
até que a fome a terra e o céu se convertam
[em refugo
(Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)
13/12/2016
27/09/2016
O livro sobre nada
- Manoel de Barros
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
19/09/2016
Dois dias antes da conferência
- Heyk Pimenta
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
quando sonham veem o lobo
umas veem o caçador
poucas se veem pastando
juntas
ao lado do lobo
que também pasta
sem conseguir
já não tem dentes
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
a cheia diz
barragem
atendem a fazem
mas cada litro seu tem placas de ferro nos ombros
dentro das casas
os moradores viram barragens
dos berços dos chiqueiros
mas a água acha pouco
o tutano deles
têm ossos moles
e os leva
a cheia diz
barragem
e lhe dão as costas
chumbam roldanas nas casas
enfeitam remos
ensaiam ladainha
de navegação
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
Não é por isso que os cavalos
aceitariam os ternos que lhes fazemos
e também não plantam hortas ou flores
guardam um pedaço do bruto puro
que por tanto tempo
vestiram
pensativos
ainda nos dão garupa
por cortesia e para nos
contar das assembleias
¿quantos pistões carrega o amor desses partidários?
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
Mesmo as que só querem
queimar o vizinho
têm como ninguém
um plano ideal
para o mundo
sei de quem junte dinheiro
e estoque querosene em casa
o lobo de cada uma
guarda
papéis dobrados
nos bolsos
sobre o que fazer
com o fogo
fico pensando o que
esses lobos de óculos que passam
as manhãs lendo nas padarias
pensam de nós ao dobrarem
pernas tão finas
são elegantes como ciganos
……………………………….vampiros
………………………..falsificadores
……………………………….de uísque
mas levam megafones
na valise
já vi mais de um
me olhar com doçura
ficamos mesmo para trás
amarramos o sapato antes
de vestir
não serviu
talvez consigam ainda
aprovar a escravidão
devolvo o olhar com condescendência
aos doces o dulcíssimo
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
a maioria quer
nisso
um jeito de quebrar
os relógios
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
quando sonham veem o lobo
umas veem o caçador
poucas se veem pastando
juntas
ao lado do lobo
que também pasta
sem conseguir
já não tem dentes
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
a cheia diz
barragem
atendem a fazem
mas cada litro seu tem placas de ferro nos ombros
dentro das casas
os moradores viram barragens
dos berços dos chiqueiros
mas a água acha pouco
o tutano deles
têm ossos moles
e os leva
a cheia diz
barragem
e lhe dão as costas
chumbam roldanas nas casas
enfeitam remos
ensaiam ladainha
de navegação
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
Não é por isso que os cavalos
aceitariam os ternos que lhes fazemos
e também não plantam hortas ou flores
guardam um pedaço do bruto puro
que por tanto tempo
vestiram
pensativos
ainda nos dão garupa
por cortesia e para nos
contar das assembleias
¿quantos pistões carrega o amor desses partidários?
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
Mesmo as que só querem
queimar o vizinho
têm como ninguém
um plano ideal
para o mundo
sei de quem junte dinheiro
e estoque querosene em casa
o lobo de cada uma
guarda
papéis dobrados
nos bolsos
sobre o que fazer
com o fogo
fico pensando o que
esses lobos de óculos que passam
as manhãs lendo nas padarias
pensam de nós ao dobrarem
pernas tão finas
são elegantes como ciganos
……………………………….vampiros
………………………..falsificadores
……………………………….de uísque
mas levam megafones
na valise
já vi mais de um
me olhar com doçura
ficamos mesmo para trás
amarramos o sapato antes
de vestir
não serviu
talvez consigam ainda
aprovar a escravidão
devolvo o olhar com condescendência
aos doces o dulcíssimo
Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias
a maioria quer
nisso
um jeito de quebrar
os relógios
18/08/2016
Piedade
- Roberto Piva
Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos
Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos
06/08/2016
Grandes mamíferos
- Franklin Alves Dassie
1. Uma caixa
Eu é um rinoceronte, um hipopótamo –
um americano idiota espancando
latinos –
de repente, eu estava em todos os lugares
em todos os lugares
e numa caixa
Eu é uma caixa
Esta caixa contém o suco de quinze laranjas
e eu dentro
Esta caixa contém o suco de quinze rinocerontes
e um hipopótamo americano idiota
Esta caixa contém o suco de quinze latinos
espancados
Esta caixa com quarenta e seis pessoas
dentro, mais eu dentro,
não consegue nadar
– impossível com tanto peso
disse um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
2. Mastozoologia
Eu é alguém acima do peso normal.
3. Eu é um outro
Escrevam corretamente meu endereço
porque há um outro Rimbaud aqui
um outro, um Rimbaud
agente de viagens marítimas
Fizeram-me pagar 10 centavos
de taxa extra de franquia
porque meu endereço
não foi escrito
corretamente
4. Um nome
Um nome nunca é escrito corretamente –
Eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero, alguém acima do peso normal:
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado, se caixa fosse
caixote, se fosse um americano, de corpo atarracado,
em forma de barril, tentando escrever
Ele é a terceira pessoa, contando da esquerda
para a direita naquela fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes, hipopótamos, americanos idiotas
e franceses exilados no continente
africano – seria legal se o mundo se chamasse Pablo Picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
5. Outro nome
Não estou dirigindo muito bem ainda
a dor na perna esquerda dificulta-me
com os pedais –
talvez, depois dos remédios,
a situação fique melhor,
mas não acredito
– impossível com tanto peso
impossível com este
trânsito
6. Quinze laranjas
Eu está submerso –
desligado de tudo que não eu mesmo
dentro de uma caixa com o suco de quinze laranjas:
pronto para beber
sem adição de açúcar
nem conservantes –
Eu tomo o suco de quinze laranjas
Eu-hipopótamo espancando
um americano idiota
na piscina de um hotel sul-africano cinco estrelas –
talvez melhore depois dos remédios
é provável que não
Eu é alguém acima do peso normal
que está em todos os lugares
que não precisa mais de casaco
já que uma camada adiposa extra é um casaco
– quinze laranjas no bolso
quinze pontos na perna doente
Eu não sinto mais frio
mas tenho uma sede infernal
resmungou outro mamífero
depois de tomar o suco de quinze
rinocerontes
7. Gran finale com gastrite
Uma caixa, dois nomes e quinze laranjas:
mastigue bem os alimentos
e lembre-se que a sede infernal é sintoma de alguma coisa
Eu é um mamífero –
a perna ainda dói, mas já tirei os pontos
Eu está em todos os lugares, sempre bem
acompanhado: rinocerontes, hipopótamos
americanos, latinos e franceses exilados
em hotéis cinco estrelas:
Depois do diagnóstico nada animador,
achei melhor desistir dos
refrigerantes, apesar de saber que uma caixa
com o suco de quinze laranjas
contém o suco de quinze latinos
espancados –
Impossível com tanta gente
não escrever
o endereço errado
1. Uma caixa
Eu é um rinoceronte, um hipopótamo –
um americano idiota espancando
latinos –
de repente, eu estava em todos os lugares
em todos os lugares
e numa caixa
Eu é uma caixa
Esta caixa contém o suco de quinze laranjas
e eu dentro
Esta caixa contém o suco de quinze rinocerontes
e um hipopótamo americano idiota
Esta caixa contém o suco de quinze latinos
espancados
Esta caixa com quarenta e seis pessoas
dentro, mais eu dentro,
não consegue nadar
– impossível com tanto peso
disse um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
2. Mastozoologia
Eu é alguém acima do peso normal.
3. Eu é um outro
Escrevam corretamente meu endereço
porque há um outro Rimbaud aqui
um outro, um Rimbaud
agente de viagens marítimas
Fizeram-me pagar 10 centavos
de taxa extra de franquia
porque meu endereço
não foi escrito
corretamente
4. Um nome
Um nome nunca é escrito corretamente –
Eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero, alguém acima do peso normal:
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado, se caixa fosse
caixote, se fosse um americano, de corpo atarracado,
em forma de barril, tentando escrever
Ele é a terceira pessoa, contando da esquerda
para a direita naquela fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes, hipopótamos, americanos idiotas
e franceses exilados no continente
africano – seria legal se o mundo se chamasse Pablo Picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanta gente
5. Outro nome
Não estou dirigindo muito bem ainda
a dor na perna esquerda dificulta-me
com os pedais –
talvez, depois dos remédios,
a situação fique melhor,
mas não acredito
– impossível com tanto peso
impossível com este
trânsito
6. Quinze laranjas
Eu está submerso –
desligado de tudo que não eu mesmo
dentro de uma caixa com o suco de quinze laranjas:
pronto para beber
sem adição de açúcar
nem conservantes –
Eu tomo o suco de quinze laranjas
Eu-hipopótamo espancando
um americano idiota
na piscina de um hotel sul-africano cinco estrelas –
talvez melhore depois dos remédios
é provável que não
Eu é alguém acima do peso normal
que está em todos os lugares
que não precisa mais de casaco
já que uma camada adiposa extra é um casaco
– quinze laranjas no bolso
quinze pontos na perna doente
Eu não sinto mais frio
mas tenho uma sede infernal
resmungou outro mamífero
depois de tomar o suco de quinze
rinocerontes
7. Gran finale com gastrite
Uma caixa, dois nomes e quinze laranjas:
mastigue bem os alimentos
e lembre-se que a sede infernal é sintoma de alguma coisa
Eu é um mamífero –
a perna ainda dói, mas já tirei os pontos
Eu está em todos os lugares, sempre bem
acompanhado: rinocerontes, hipopótamos
americanos, latinos e franceses exilados
em hotéis cinco estrelas:
Depois do diagnóstico nada animador,
achei melhor desistir dos
refrigerantes, apesar de saber que uma caixa
com o suco de quinze laranjas
contém o suco de quinze latinos
espancados –
Impossível com tanta gente
não escrever
o endereço errado
04/08/2016
Chapéu de palha
- Matilde Campilho
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
21/07/2016
quem vai querer
- Dimitri BR
não sei o que eu acho mais bonito
o seu cabelo ou você
ainda bem que costumam vir juntos
o seu cabelo e você
toda maquiagem é drag
é para brincar de você
você é perfeita, não se conserte
é só brincar de você
toda roupa também é drag
você nasceu pelada
e eu também
pai e mãe é quem cria
filho tem que crescer
pai e mãe é quem cria
mulher é quem quiser ser
quer quer ser mulher
quem vai querer?
não sei o que eu acho mais bonito
o seu cabelo ou você
ainda bem que costumam vir juntos
o seu cabelo e você
toda maquiagem é drag
é para brincar de você
você é perfeita, não se conserte
é só brincar de você
toda roupa também é drag
você nasceu pelada
e eu também
pai e mãe é quem cria
filho tem que crescer
pai e mãe é quem cria
mulher é quem quiser ser
quer quer ser mulher
quem vai querer?
19/07/2016
Corpos onde a cidade se repete
- Casé Lontra Marques
Corpos onde a cidade se repete:
(depois
de derramar antigas bocas sobre outra água):
de derramar antigas bocas sobre outra água):
quase
elidem alguns órgãos alarmados
elidem alguns órgãos alarmados
— em meio às ferragens —
no
casulo do calendário?
casulo do calendário?
contaminamos
um
espelho com a casa que nos propaga:
um
espelho com a casa que nos propaga:
(sob
sua solidão):
sua solidão):
contaminamos
um
desejo com a fala que nos escava
um
desejo com a fala que nos escava
— cotidianamente —
deitar
entre as horas
na
areia da íris:
entre as horas
na
areia da íris:
forrando
as fissuras que infestam minhas asfixias:
as fissuras que infestam minhas asfixias:
aceito o silêncio que se dispersa (que nos espalha)
sempre
pelas paredes — nas escadas; nas encostas —
sempre
pelas paredes — nas escadas; nas encostas —
do
diafragma: até um ritmo me receber:
diafragma: até um ritmo me receber:
também
quem sabe ao largo — sobretudo ao largo —
desta
última inexistência;
quem sabe ao largo — sobretudo ao largo —
desta
última inexistência;
apesar
da
ferida no fundo
da
ferida no fundo
do
olho
olho
frio:
há manhãs — sucintas —
em
que excedemos o tempo:
em
que excedemos o tempo:
apenas
despejando alguma dúvida
despejando alguma dúvida
entre
migalhas
de
medula
de
medula
— lembra? —
reacenderemos
o
sismo que aos poucos
o
sismo que aos poucos
desocupa
a
massa
massa
ocular:
(para
talvez recolher o calor
de
seus escombros):
talvez recolher o calor
de
seus escombros):
na
borda da afasia;
borda da afasia;
já
quase fora
da
afasia:
quase fora
da
afasia:
começa a transfiguração — a transposição —
das
sílabas: (aqui):
das
sílabas: (aqui):
começa
a transmissão — espontânea —
a transmissão — espontânea —
das pupilas;
numa
noite de repente
noite de repente
concisa?
procuro
aproximar o rosto do que não é ainda língua:
(do
que não é mais língua):
aproximar o rosto do que não é ainda língua:
(do
que não é mais língua):
após
outro princípio
outro princípio
— claro —
de
proliferação?
proliferação?
nasce: em mim: por mim: contra mim:
um
gesto anfíbio — frente a qualquer insuficiência —
um
gesto anfíbio — frente a qualquer insuficiência —
roer
relâmpagos;
relâmpagos;
até o talo:
carregando a memória — exigente —
dos
dias em que ressuscitamos:
dos
dias em que ressuscitamos:
(ao
enfim desistir
de
relatar?):
enfim desistir
de
relatar?):
alavanco
a garganta de uma imunidade
a garganta de uma imunidade
estranha
aos
mínimos estilhaços
em
nossos labirintos
mínimos estilhaços
em
nossos labirintos
— enquanto
alguns desamparos se afastam da apatia —
alguns desamparos se afastam da apatia —
os mares a que ainda nos doamos;
todos
esses mares — onde logo convalesceremos —
todos
esses mares — onde logo convalesceremos —
aguardam
outra indeterminação (outra deterioração)
outra indeterminação (outra deterioração)
inaugural:
aderindo
a uma anemia
a uma anemia
limítrofe?
não
venho fechar palavras
venho fechar palavras
sobre
os
poros — entre pânicos —
poros — entre pânicos —
dentro
de
pedras:
pedras:
um novo rumor aloja (acidentalmente)
esta
respiração provisória
esta
respiração provisória
— drenando
os sinais da distância que me dissolve —
os sinais da distância que me dissolve —
rente
ao
rosto:
ao
rosto:
movemos
uma
imensa necessidade
de
enigmas
uma
imensa necessidade
de
enigmas
11/07/2016
sereia blooming blues
- Rita Isadora Pessoa
porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos egritos
no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?
[que partam todos os raios
que partam todos
e que ainda assim eu fique
que eu fique - só e inteiriça
que seja pernas ou rabo ou nado
inspire respireamém ]
para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
é a pele
que a coisa mais triste do mundo
não deixa sequer cicatriz
porque é preciso
exercitar a violência
que só uma ideia incorpórea
imprime
ao corpo
-- ricochete que vai de trás
para a frente
em mar aberto, ferida
que espuma pela boca sal
e gritos e gritos e
no fundo, a vida depende
da coragem de arrancar
um sorriso tímido dos astros
com um pé de cabra
investigando a malha beligerante
na marra:
qual era mesmo o teu formato?
qual a velocidade com que
crescem os ossos?
onde ficou aquela que partiu
antes, antes de todos?
[que partam todos os raios
que partam todos
e que ainda assim eu fique
que eu fique - só e inteiriça
que seja pernas ou rabo ou nado
inspire respire
para descobrir tarde demais que
a coisa mais triste do mundo
é a pele
que a coisa mais triste do mundo
não deixa sequer cicatriz
06/07/2016
Festa
- Alejandra Pizarnik
Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.
E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.
(Tradução de Alberto Augusto Miranda)
Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.
E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.
(Tradução de Alberto Augusto Miranda)
30/06/2016
é muito claro
- Ana Cristina Cesar
é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama
é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama
22/06/2016
Lembrete
- Ana Martins Marques
Lembrar que
enquanto andamos
por estas ruas banais
sob um céu inestrelado
templos brancos como ossos
repousam entre oliveiras
quase igualmente antigas
uma mulher desfaz
sobre a nudez noturna
sua trança pesada
um pequeno lama
cabeceia de sono
e há leões e laranjas
falcões e hangares
anêmonas e zinco
um bando de antílopes
atravessa um pedaço de terra
como este
deixando-o depois
vazio de sinais
em silêncio um homem prepara
menos comida do que ontem
um a um
partem os barcos
de passeio
chove intensamente
sobre teleféricos
uma mulher vê
a cidade acender-se
à medida que anoitece
e para acalmar-se
conta as janelas
iluminadas
arrumam-se armários
roupas de pessoas mortas
envelhecem corpos jovens
envelhecem também
os automóveis
e as máquinas agrícolas
com uma rede veloz
recolhem-se do mar
peixes luminosos
que então serão deixados
afogando-se
na areia
algumas coisas
– muitas coisas –
rápida, discretamente
nascem
alguém conhece
pela primeira vez
a enguia, o sexo, a escrita
Lembrar que devemos estar
à altura
disso
Lembrar que
enquanto andamos
por estas ruas banais
sob um céu inestrelado
templos brancos como ossos
repousam entre oliveiras
quase igualmente antigas
uma mulher desfaz
sobre a nudez noturna
sua trança pesada
um pequeno lama
cabeceia de sono
e há leões e laranjas
falcões e hangares
anêmonas e zinco
um bando de antílopes
atravessa um pedaço de terra
como este
deixando-o depois
vazio de sinais
em silêncio um homem prepara
menos comida do que ontem
um a um
partem os barcos
de passeio
chove intensamente
sobre teleféricos
uma mulher vê
a cidade acender-se
à medida que anoitece
e para acalmar-se
conta as janelas
iluminadas
arrumam-se armários
roupas de pessoas mortas
envelhecem corpos jovens
envelhecem também
os automóveis
e as máquinas agrícolas
com uma rede veloz
recolhem-se do mar
peixes luminosos
que então serão deixados
afogando-se
na areia
algumas coisas
– muitas coisas –
rápida, discretamente
nascem
alguém conhece
pela primeira vez
a enguia, o sexo, a escrita
Lembrar que devemos estar
à altura
disso
20/06/2016
regresso às histórias simples
- Al Berto
5
eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo
a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita partilhar um segredo
este corpo em que me escondi
gastou-se
quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu
pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita
mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
5
eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo
a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita partilhar um segredo
este corpo em que me escondi
gastou-se
quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu
pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita
mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
16/05/2016
Ciclo das pedras
- Ruy Proença
é terrível dormir
com o barulho
das pedras crescendo
minuto não
minuto sim
um estalinho se deposita
no tímpano
passarão os anos
as pedras serão adultas
sobrará menos espaço
para o sono
é terrível dormir
com o barulho
das pedras crescendo
minuto não
minuto sim
um estalinho se deposita
no tímpano
passarão os anos
as pedras serão adultas
sobrará menos espaço
para o sono
09/03/2016
avelã
- Joana Lavôr
foram só dois
mas fui má
todas as vezes
a cinelândia corria
nos meus cabelos
ela sentada
a saber
até hoje
até hoje
são minhas as caras
como você gosta de pentear
os cabelos molhados
bancada nas costas
bancada nas costas
canoa breve deitada
laranja nágua
meia boca suja
laranja nágua
meia boca suja
meio rosto marrom
nua delirando
baques de ondas
você sempre foi de fazer torres
você sempre foi de fazer torres
embolar pedras
e as perder de vista
sobe poros
você corta
filetes
febre
febre
corta e me empresta a tempestade
mulher avessa avulsa
avelã
A marina das coisas
- Rafael Zacca
um segredo para Khalil
Não é tão tarde
que não se possa
selar o céu
que não se possa
selar o céu
com o marulho
das conchas, grave
escavação
das conchas, grave
escavação
motor carvão
branco engasgado
frágil segredo —
branco engasgado
frágil segredo —
……………. a mão
que encontra antenas
se rasga
que encontra antenas
se rasga
na areia
assim se abrem as
crianças: sangue
assim se abrem as
crianças: sangue
e brinquedo um
bater de dente
(um sonho sólido)
bater de dente
(um sonho sólido)
obra um clarão
de sol secando
os grãos, castelos
de sol secando
os grãos, castelos
…………mas não tem volta
dos que não têm
casa, se nos
tocam os dedos
casa, se nos
tocam os dedos
dobramos os
joelhos, um
desterro. É
joelhos, um
desterro. É
por isso que
bastam crianças
(se podem ir
bastam crianças
(se podem ir
à praia): salvam
o mundo, cavam
fundo e articulam
o mundo, cavam
fundo e articulam
a marina das coisas
os bichos inexplicáveis
o tumulto do nácar.
15/02/2016
07/01/2016
Noturno da Glória
- Augusto Massi
Às quatro horas da manhã
caminho
entre as árvores do Aterro.
Mar agitado de mim mesmo.
Eu,
(a quem a memória não traiu)
cão teimoso,
farejando fúria,
combustão, saudade.
Noite adentro,
em meio à hemorragia de nuvens,
abismos de abril.
Caminho
contra a ventania
varrendo ruas,
espalhando pessoas.
Cruzo,
em alta velocidade,
o túnel de uns olhos
rumo à antiga noite.
Sobre escombros,
transitivo,
avesso a tudo,
(quase fora do alcance)
longe,
lá longe,
caminho.
Às quatro horas da manhã,
entre as árvores do Aterro,
luto
contra um mundo esquivo,
contra tua ausência,
incompreensível,
latejando dentro da noite.
caminho
entre as árvores do Aterro.
Mar agitado de mim mesmo.
Eu,
(a quem a memória não traiu)
cão teimoso,
farejando fúria,
combustão, saudade.
Noite adentro,
em meio à hemorragia de nuvens,
abismos de abril.
Caminho
contra a ventania
varrendo ruas,
espalhando pessoas.
Cruzo,
em alta velocidade,
o túnel de uns olhos
rumo à antiga noite.
Sobre escombros,
transitivo,
avesso a tudo,
(quase fora do alcance)
longe,
lá longe,
caminho.
Às quatro horas da manhã,
entre as árvores do Aterro,
luto
contra um mundo esquivo,
contra tua ausência,
incompreensível,
latejando dentro da noite.
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