09/03/2016

avelã

-  Joana Lavôr

foram só dois
mas fui má
todas as vezes 
a cinelândia corria 
nos meus cabelos
ela sentada 
a saber
até hoje 
são minhas as caras
como você gosta de pentear 
os cabelos molhados
bancada nas costas
canoa breve deitada
laranja nágua
meia boca suja
meio rosto marrom
nua delirando
baques de ondas
você sempre foi de fazer torres
embolar pedras
e as perder de vista
sobe poros
você corta
filetes
febre
corta e me empresta a tempestade
mulher avessa avulsa
avelã

A marina das coisas

-  Rafael Zacca
                               um segredo para Khalil
Não é tão tarde
que não se possa
selar o céu
com o marulho
das conchas, grave
escavação
motor carvão
branco engasgado
frágil segredo —
……………. a mão
que encontra antenas
se rasga
na areia
assim se abrem as
crianças: sangue
e brinquedo um
bater de dente
(um sonho sólido)
obra um clarão
de sol secando
os grãos, castelos
…………mas não tem volta
dos que não têm
casa, se nos
tocam os dedos
dobramos os
joelhos, um
desterro. É
por isso que
bastam crianças
(se podem ir
à praia): salvam
o mundo, cavam
fundo e articulam
a marina das coisas
os bichos inexplicáveis
o tumulto do nácar.