- Júlia Manacorda
a obsessão em dizer algo
que valha
a duração
pois
um som não conquista nada
ainda
a miniatura da tua voz
a simples gravação de um som qualquer
a simples regravação de um som qualquer
e a simples alteração de um som
qualquer
e
a coleção de cadernos rasurados
te contei
sobre o diagrama de Schillinger
contendo todas as escalas
orientais e ocidentais
rasurado na parede
quase no teto
e
ainda
não foi possível dar conta
de todo o som
pois
notificar um som é
dizer sua duração
tal como o livro
das Mutações
dizer um tempo
num jogo de números —
aparentemente —
aleatórios
em termos matemáticos
passos discretos
em termos do Tao
a porta intransponível
ou o conceito
de aventura em Simmel
a questão política
de um grito abafado
os aspectos práticos dos estudos de guerra
como
a palavra de ordem inaudível
todo som contém seu oposto
e uma frequência e uma altura
e uma amplitude e um volume
e um sobretom e um timbre
e uma duração e uma morfologia
só é possível dizer o silêncio
em termos de
duração
e a relevância de dizer
um Cage abreviado
diante dos cavalos
tombados
ou dos cavalos
montados
quem usa espada, hoje?
enfim,
este é só o esforço
diário
ou
o exercício diário
se apresento esta forma
insatisfatória
é por ser tratar
mesmo
de uma prática
diária
que não consta nos manuais de guerrilha
uma liturgia
não citada
nos estudos estratégicos
uma investigação
diária
- ignorada pela teologia -
do Castelo
da pizza entre os ônibus
ou da estação de trem da Antuérpia
cujo motivo heráldico
da colmeia
não simboliza -
como se poderia supor à primeira vista -
a natureza à serviço do homem,
nem a diligência como virtude social
mas
sim
acumulação de capital
este não é um hieróglifo necessário
este não é um deslocamento de imagem
desejado
e esta não é a faca amolada
mas
este é o braço que atravessou o fogo
e este
não é um acréscimo relevante
como seria
o peso dos pés e
das pernas
da estação araribóia
gravados nesta
fita magnética