12/10/2018

teoria crítica dos cowboys felizes

-  Júlia Manacorda


a obsessão em dizer algo 
que valha
a duração 
pois 
um som não conquista nada 
ainda 
a miniatura da tua voz 
a simples gravação de um som qualquer
a simples regravação de um som qualquer
e a simples alteração de um som
qualquer
e
a coleção de cadernos rasurados 
te contei
sobre o diagrama de Schillinger
contendo todas as escalas 
orientais e ocidentais 
rasurado na parede
quase no teto 
e
ainda 
não foi possível dar conta
de todo o som 
pois
notificar um som é
dizer sua duração 
tal como o livro
das Mutações
dizer um tempo
num jogo de números — 
aparentemente — 
aleatórios 
em termos matemáticos
passos discretos 
em termos do Tao
a porta intransponível
ou o conceito
de aventura em Simmel 
a questão política
de um grito abafado 
os aspectos práticos dos estudos de guerra 
como 
a palavra de ordem inaudível 
todo som contém seu oposto 
e uma frequência e uma altura
e uma amplitude e um volume
e um sobretom e um timbre
e uma duração e uma morfologia 
só é possível dizer o silêncio
em termos de 
duração

e a relevância de dizer
um Cage abreviado
diante dos cavalos 
tombados
ou dos cavalos 
montados

quem usa espada, hoje?

enfim, 
este é só o esforço
diário 
ou 
o exercício diário 
se apresento esta forma
insatisfatória 
é por ser tratar
mesmo
de uma prática 
diária
que não consta nos manuais de guerrilha
uma liturgia 
não citada
nos estudos estratégicos 
uma investigação 
diária
- ignorada pela teologia -
do Castelo
da pizza entre os ônibus
ou da estação de trem da Antuérpia 
cujo motivo heráldico
da colmeia
não simboliza -

como se poderia supor à primeira vista -
a natureza à serviço do homem,
nem a diligência como virtude social

mas
sim
acumulação de capital 
este não é um hieróglifo necessário 
este não é um deslocamento de imagem
desejado 
e esta não é a faca amolada
mas 
este é o braço que atravessou o fogo 
e este 
não é um acréscimo relevante 
como seria 
o peso dos pés e 
das pernas 
da estação araribóia 
gravados nesta 
fita magnética