- Luís Filipe Parrado
Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.
24/07/2019
Uvas
- Orides Fontela
Mesclados: o mel
e o mal
a vida: madura
impura
doces-podres
bagos
em que o gozo do mel
inclui o mal
em que o gosto
de podre
aguça o fruto.
Mesclados: o mel
e o mal
a vida: madura
impura
doces-podres
bagos
em que o gozo do mel
inclui o mal
em que o gosto
de podre
aguça o fruto.
Alba
- Orides Fontela
I
Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
na carne.
II
Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.
III
Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.
IV
Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!
I
Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
na carne.
II
Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.
III
Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.
IV
Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!
é preciso acordar no meio dos animais
- Thiago Grisolia
é preciso acordar no meio dos animais,
enfrentar suas turbinas, suas caudas, seus chifres,
seus órgãos sexuais,
seus fluidos impossíveis,
é preciso estar cara a cara com seus focinhos de monstro,
com seus intestinos onde fervilham gases pestilentos,
com sua fedida acrobacia de estômagos.
é pelo estômago das feras que começa qualquer manhã.
é preciso, ainda, ver os pelos de suas línguas,
as grandes brotoejas, as crinas
que pendem dos enormes orifícios das papilas.
e beijá-los. sem temos do hálito,
do alto teor de excremento que exalam.
as feras dançam e não se esquecem.
as crianças não se perturbam.
seus dentes perfuram o vazio das fumaças.
é preciso saber que há fogo.
queimar-se.
a potência de estar no meio deles:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros.
amá-los - convivas indecentes!
amo os animais. os que se deitam na cama,
os que amassam o amor possível,
os que entopem a privada,
que trituram os ingredientes,
infiltrados no coador,
no liquidificador,
no fogão a gás. no cheiro que fica,
como uma usina interditada,
como a casa de uma poeta suicida.
cuspir essa fala dos bichos!
dilatar sua demência como colírio nas pupilas!
é preciso mais que nunca alimentá-los,
para que sua existência seja a cada dia confirmada,
a cada dia amada.
deixamos a luz acesa? esqueci a cafeteira?
quero provocar todos os acidentes
para morrer com os animais.
faminto, mas sem cumprir nenhuma regra.
sem hinos, mas com a marca inconfundível do desejo.
amei. fui amado.
fui metralhado.
estou em pedaços, mas a história permanece.
é preciso amordaçar os bichos,
para que não gritem as senhas,
os sermões,
os corações partidos,
ou qualquer outra das amenidades
que de dentro deles
fazem surgir
a palavra
eu.
é preciso acordar no meio dos animais,
enfrentar suas turbinas, suas caudas, seus chifres,
seus órgãos sexuais,
seus fluidos impossíveis,
é preciso estar cara a cara com seus focinhos de monstro,
com seus intestinos onde fervilham gases pestilentos,
com sua fedida acrobacia de estômagos.
é pelo estômago das feras que começa qualquer manhã.
é preciso, ainda, ver os pelos de suas línguas,
as grandes brotoejas, as crinas
que pendem dos enormes orifícios das papilas.
e beijá-los. sem temos do hálito,
do alto teor de excremento que exalam.
as feras dançam e não se esquecem.
as crianças não se perturbam.
seus dentes perfuram o vazio das fumaças.
é preciso saber que há fogo.
queimar-se.
a potência de estar no meio deles:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros.
amá-los - convivas indecentes!
amo os animais. os que se deitam na cama,
os que amassam o amor possível,
os que entopem a privada,
que trituram os ingredientes,
infiltrados no coador,
no liquidificador,
no fogão a gás. no cheiro que fica,
como uma usina interditada,
como a casa de uma poeta suicida.
cuspir essa fala dos bichos!
dilatar sua demência como colírio nas pupilas!
é preciso mais que nunca alimentá-los,
para que sua existência seja a cada dia confirmada,
a cada dia amada.
deixamos a luz acesa? esqueci a cafeteira?
quero provocar todos os acidentes
para morrer com os animais.
faminto, mas sem cumprir nenhuma regra.
sem hinos, mas com a marca inconfundível do desejo.
amei. fui amado.
fui metralhado.
estou em pedaços, mas a história permanece.
é preciso amordaçar os bichos,
para que não gritem as senhas,
os sermões,
os corações partidos,
ou qualquer outra das amenidades
que de dentro deles
fazem surgir
a palavra
eu.
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