- Thiago Grisolia
é preciso acordar no meio dos animais,
enfrentar suas turbinas, suas caudas, seus chifres,
seus órgãos sexuais,
seus fluidos impossíveis,
é preciso estar cara a cara com seus focinhos de monstro,
com seus intestinos onde fervilham gases pestilentos,
com sua fedida acrobacia de estômagos.
é pelo estômago das feras que começa qualquer manhã.
é preciso, ainda, ver os pelos de suas línguas,
as grandes brotoejas, as crinas
que pendem dos enormes orifícios das papilas.
e beijá-los. sem temos do hálito,
do alto teor de excremento que exalam.
as feras dançam e não se esquecem.
as crianças não se perturbam.
seus dentes perfuram o vazio das fumaças.
é preciso saber que há fogo.
queimar-se.
a potência de estar no meio deles:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros.
amá-los - convivas indecentes!
amo os animais. os que se deitam na cama,
os que amassam o amor possível,
os que entopem a privada,
que trituram os ingredientes,
infiltrados no coador,
no liquidificador,
no fogão a gás. no cheiro que fica,
como uma usina interditada,
como a casa de uma poeta suicida.
cuspir essa fala dos bichos!
dilatar sua demência como colírio nas pupilas!
é preciso mais que nunca alimentá-los,
para que sua existência seja a cada dia confirmada,
a cada dia amada.
deixamos a luz acesa? esqueci a cafeteira?
quero provocar todos os acidentes
para morrer com os animais.
faminto, mas sem cumprir nenhuma regra.
sem hinos, mas com a marca inconfundível do desejo.
amei. fui amado.
fui metralhado.
estou em pedaços, mas a história permanece.
é preciso amordaçar os bichos,
para que não gritem as senhas,
os sermões,
os corações partidos,
ou qualquer outra das amenidades
que de dentro deles
fazem surgir
a palavra
eu.