- Stephanie Borges o vocabulário do desejo enche a boca d’água respira, para que o corpo não tropece nas palavras que voltam a ter gosto agora, o sal é sutil depois do mergulho é inevitável lamber os lábios a alegria de chegar de mansinho, descobrir a temperatura com os pés saber entrar pedindo licença, batendo cabeça avançando de lado para que a onda te atravesse equilibrar-se gingando, sim, é uma dança os músculos sabem de cor essa língua nativa submersa aparentemente esquecida maré que transborda quando se te sem com quem falar
- Cláudia R. Sampaio Não sei que dia é à minha volta mas sei que fomos avistados na certeza deste bairro, rodeados de carros tristes e pombos esmagados, rodeados da comovente dor dos candeeiros que servem para dar à luz coisa nenhuma És meu em redor e o significado disto vem devagarinho, mesmo que por entre todas estas varandas e camas separadas, famintas Estás presente no meu ácido valpróico e eu, dentro da tua boca a servir-te de sede apesar dos olhos pungentes Mesmo quando não abrimos os braços à distância certa da nossa força mesmo se as dúvidas atiçam presas às nossas costas faz parte disto tudo, sabes, um gramatical ruído nos ouvidos Para que melhor me entendas queria estender-te o pensamento em palavras, mas não sei falar. Para se falar é preciso estar dentro da vida É preciso encontrar uma rua que nos leve ao peito mas as ruas não andam e eu nem a casa regresso A minha linguagem é mais seca que um deserto e mais incompreensível que estes loucos que trago pendurados na boca Falar provoca doenças Falar é mais grave que um tiro Há que ter cuidado para não morrermos de palavras por isso nem sou eu que escrevo é a mão da minha infra-consciência Mas quero dizer-te que estamos aqui, não duvides, perante os carros mal estacionados, perante os braços exemplares dos nossos amigos - e as suas ausências perante o modo como atinges o ar com a graça do que te eleva, perante os meus seios empinados-contentes e o desembarque da tua exclamação divina Estamos aqui e eu quero dizer-te que é de ti que vêm as casas e é de ti que vêm os ossos E que se quiseres podemos ser como as pontes: eu num lado, tu no outro e no meio a distância que quisermos dar.