22/04/2020

Não sei que dia é à minha volta

-  Cláudia R. Sampaio


Não sei que dia é à minha volta
mas sei que fomos avistados na
certeza deste bairro,
rodeados de carros tristes e pombos
esmagados,
rodeados da comovente dor dos
candeeiros que servem para dar à
luz coisa nenhuma

És meu em redor e o significado disto
vem devagarinho, mesmo que por entre
todas estas varandas e camas separadas,
famintas
Estás presente no meu ácido valpróico
e eu, dentro da tua boca a servir-te de sede
apesar dos olhos pungentes

Mesmo quando não abrimos os braços
à distância certa da nossa força
mesmo se as dúvidas atiçam 
presas às nossas costas
faz parte disto tudo, sabes, um
gramatical ruído nos ouvidos

Para que melhor me entendas
queria estender-te o pensamento
em palavras, mas não sei falar.

Para se falar é preciso estar dentro
da vida
É preciso encontrar uma rua que nos
leve ao peito
mas as ruas não andam
e eu nem a casa regresso

A minha linguagem é mais seca que
um deserto e mais incompreensível
que estes loucos que trago pendurados
na boca
Falar provoca doenças
Falar é mais grave que um tiro
Há que ter cuidado para não morrermos
de palavras por isso nem sou eu que
escrevo
é a mão da minha infra-consciência

Mas quero dizer-te que estamos aqui,
não duvides, perante os carros mal
estacionados,
perante os braços exemplares dos
nossos amigos - e as suas ausências
perante o modo como atinges o ar
com a graça do que te eleva,
perante os meus seios empinados-contentes
e o desembarque da tua exclamação divina

Estamos aqui e eu quero dizer-te
que é de ti que vêm as casas
e é de ti que vêm os ossos
E que se quiseres podemos ser
como as pontes:
eu num lado, tu no outro
e no meio a distância que
quisermos dar.