- Sergio Cohn
1
Esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio
2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas
30/05/2012
29/05/2012
Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo
- Gunnar Ekelöf
Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo
palavras tornam-se de novo interessantes:
Algo soterrado
que se revolve com pá de arqueólogo:
A pequena palavra tu
talvez miçanga
que um dia enfeitara um pescoço
A grande palavra eu
talvez quartzo em lasca
com que um sem-dentes qualquer desfiara sua carne
dura.
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo
palavras tornam-se de novo interessantes:
Algo soterrado
que se revolve com pá de arqueólogo:
A pequena palavra tu
talvez miçanga
que um dia enfeitara um pescoço
A grande palavra eu
talvez quartzo em lasca
com que um sem-dentes qualquer desfiara sua carne
dura.
(Tradução de Ricardo Domeneck)
25/05/2012
Rapto
- Eucanaã Ferraz
Ia tocar meus lábios mas
o trem, o circo,
a fome dos meninos,
o garçom, a praça.
Nunca mais sua mão.
Ia tocar meus lábios mas
o trem, o circo,
a fome dos meninos,
o garçom, a praça.
Nunca mais sua mão.
Como uma flor vermelha
- Sophia de Mello Breyner Andresen
À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
24/05/2012
O sal da língua
- Eugénio de Andrade
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Era a luz, era a forma de uma luz
- Antoni Clapés
Era a luz, era a forma de uma luz
Interior, um rumor como um véu
que cobria o silêncio e as palavras.
Era um (espaço) deserto
dilacerado em infinitos sinais fragmentados.
Era o tempo que volvia, fulgor do relâmpago
no vazio, no próprio relâmpago.
Era o poema, era o poeta do poeta.
Era a poesia habitada
(Tradução de Egito Gonçalves)
Era a luz, era a forma de uma luz
Interior, um rumor como um véu
que cobria o silêncio e as palavras.
Era um (espaço) deserto
dilacerado em infinitos sinais fragmentados.
Era o tempo que volvia, fulgor do relâmpago
no vazio, no próprio relâmpago.
Era o poema, era o poeta do poeta.
Era a poesia habitada
(Tradução de Egito Gonçalves)
Tanto de meu estado me acho incerto
- Luís de Camões
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
No era nadie
- Juan Ramón Jiménez
– No era nadie. El agua. – ¿Nadie?
¿Que no es nadie el agua? – No
hay nadie. Es la flor. – ¿No hay nadie?
Pero ¿no es nadie la flor?
– No hay nadie. Era el viento. – ¿Nadie?
¿No es el viento nadie? – No
hay nadie. Ilusión. – ¿No hay nadie?
¿Y no es nadie la ilusión?
– No era nadie. El agua. – ¿Nadie?
¿Que no es nadie el agua? – No
hay nadie. Es la flor. – ¿No hay nadie?
Pero ¿no es nadie la flor?
– No hay nadie. Era el viento. – ¿Nadie?
¿No es el viento nadie? – No
hay nadie. Ilusión. – ¿No hay nadie?
¿Y no es nadie la ilusión?
Final
- Gastão Cruz
As palavras despedem-se dos dias
em que falar é o melhor serviço
Caem mortas e vivas da linguagem
vitimada
Mas quando regressarem
a sua fúria grande prenderá
nos humanos céus húmidos a arte
esquecida e excessiva da poesia.
As palavras despedem-se dos dias
em que falar é o melhor serviço
Caem mortas e vivas da linguagem
vitimada
Mas quando regressarem
a sua fúria grande prenderá
nos humanos céus húmidos a arte
esquecida e excessiva da poesia.
22/05/2012
sangue quebrado
- gil t. sousa
o sangue quebrado
o sangue quebrado
marca as ruas invisíveis
fugindo duma raiva
antiga
diz-me outra vez
o que é um corpo
e para que serve
um grito
conta-me histórias
do tempo em que
as estradas se abriam
para o mundo e
não eram apenas
o caminho mais longo
para casa
16/05/2012
Aquário
- Marília Garcia
tem o pânico das algas marinhas
quando acordo de frente para o estádio.
o quarto é um aquário
com setas submersas de
sol e seu corpo filtrado
pela luz do insulfilm
tem o contorno
de um magnetismo
inverso. não que importassem
as horas. apenas não sabia como ali chegara. não
sabia quanto tempo tinha passado (um cão
lambia o pé, a mesma imagem
congelada)
e na saída: “vai me responder de novo com
uma pergunta?” “mas a configuração é
diferente.” e ela disse, não lembro o que ela disse.
o estádio é um buraco no tempo e de cima
suas guelras latejam os ecos da última partida.
você se encolhe atrás do vidro
redondo, luta para vencer
as pequenas pedras, como num oceano
violeta genciana
https://myspace.com/mariliagarcia/music/song/aquario-por-rodolfo-caesar-2324127-2301465
tem o pânico das algas marinhas
quando acordo de frente para o estádio.
o quarto é um aquário
com setas submersas de
sol e seu corpo filtrado
pela luz do insulfilm
tem o contorno
de um magnetismo
inverso. não que importassem
as horas. apenas não sabia como ali chegara. não
sabia quanto tempo tinha passado (um cão
lambia o pé, a mesma imagem
congelada)
e na saída: “vai me responder de novo com
uma pergunta?” “mas a configuração é
diferente.” e ela disse, não lembro o que ela disse.
o estádio é um buraco no tempo e de cima
suas guelras latejam os ecos da última partida.
você se encolhe atrás do vidro
redondo, luta para vencer
as pequenas pedras, como num oceano
violeta genciana
https://myspace.com/mariliagarcia/music/song/aquario-por-rodolfo-caesar-2324127-2301465
09/05/2012
Um dia
- Sophia de Mello Breyner Andresen
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
08/05/2012
(da sutileza dos poros, a imersão)
- Lorena Martins
sugiro um mergulho
ou a cáustica fotografia
de meus retalhos
desmesurados
à tua esquina.
sugiro-me assim,
distante.
dos faróis que flertam
com meus insultos olhos,
bebo a metade.
salivo teores
insones
temo voltar.
eu vejo,
cansado
e calado claustro,
o desespero:
diante da porta,
visto
e guardo chuvas.
sugiro um mergulho
ou a cáustica fotografia
de meus retalhos
desmesurados
à tua esquina.
sugiro-me assim,
distante.
dos faróis que flertam
com meus insultos olhos,
bebo a metade.
salivo teores
insones
temo voltar.
eu vejo,
cansado
e calado claustro,
o desespero:
diante da porta,
visto
e guardo chuvas.
Nubes I
- Jorge Luís Borges
No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y en el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
la rosa se convierte en otra rosa.
Es nuestra imagen. Incesantemente
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquellos que has perdido.
No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y en el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
la rosa se convierte en otra rosa.
Es nuestra imagen. Incesantemente
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquellos que has perdido.
Ao mínimo clarão
- Luís Miguel Nava
Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.
Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.
Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.
Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.
Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.
Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.
05/05/2012
Limiar
- Paulo Henriques Britto
Uma geografia de dúvidas
lhe percorria todo o firmamento:
serão serafins? será música
isso que martela incessantemente
e não consegue arrebentar?
As perguntas se dissipam no ar.
E um cardume de corolários
atravessava-lhe o desfiladeiro:
então isto é aquilo, e o contrário
só é verdade do princípio ao meio
etc. Isso proporcionava-lhe
prazer não pouco, e uma penca de álibis.
Definitivamente, sou,
ele pensou, com a magnificência
de um pterossauro em pleno voo.
O saber é sua própria recompensa,
como a virtude, concluiu.
E viu que isso era bom. Depois dormiu.
Uma geografia de dúvidas
lhe percorria todo o firmamento:
serão serafins? será música
isso que martela incessantemente
e não consegue arrebentar?
As perguntas se dissipam no ar.
E um cardume de corolários
atravessava-lhe o desfiladeiro:
então isto é aquilo, e o contrário
só é verdade do princípio ao meio
etc. Isso proporcionava-lhe
prazer não pouco, e uma penca de álibis.
Definitivamente, sou,
ele pensou, com a magnificência
de um pterossauro em pleno voo.
O saber é sua própria recompensa,
como a virtude, concluiu.
E viu que isso era bom. Depois dormiu.
03/05/2012
Pedro Hestnes
- Gastão Cruz
Passou a alguns metros de onde eu
estava; não o via
há anos e nem sei
qual a última vez que com ele falara
Não o reconheci de imediato e bastou
essa dúvida para criar um hiato
na linha dos olhares de repente cruzados
dentro da tarde; receara
decerto não ter sido por mim reconhecido
enquanto que eu não fora já a tempo
de lhe mostrar que o vira e me lembrava
do seu rosto mesmo que um pouco menos
luminoso que outrora; e um remorso
absurdo me tomou por ter perdido
esse olhar hesitante
no desconcerto breve de uma tarde
Passou a alguns metros de onde eu
estava; não o via
há anos e nem sei
qual a última vez que com ele falara
Não o reconheci de imediato e bastou
essa dúvida para criar um hiato
na linha dos olhares de repente cruzados
dentro da tarde; receara
decerto não ter sido por mim reconhecido
enquanto que eu não fora já a tempo
de lhe mostrar que o vira e me lembrava
do seu rosto mesmo que um pouco menos
luminoso que outrora; e um remorso
absurdo me tomou por ter perdido
esse olhar hesitante
no desconcerto breve de uma tarde
02/05/2012
Fauno
- Gunnar Ekelöf
Deram-me
uma alma de animal
Se lanço para ti os olhos
sabe:
que me foi dada a morte
e a beleza como prêmio
Poucos sentimentos tenho
mas exercito-os
Odiar não sei
mas balir sei, latir
Se detesto
é com os sentidos do corpo
Se desejo, é como qualquer outro
não entra aí a alma
a alma apenas sabe reprovar
Se tenho pensamentos reservados
os teus são, ó homem!
Sabe pois que te vejo!
Não nas coisas extremas:
É nas intermédias
que se encontra o que importa
da alma e da reprovação
(Tradução de Silva Duarte)
Deram-me
uma alma de animal
Se lanço para ti os olhos
sabe:
que me foi dada a morte
e a beleza como prêmio
Poucos sentimentos tenho
mas exercito-os
Odiar não sei
mas balir sei, latir
Se detesto
é com os sentidos do corpo
Se desejo, é como qualquer outro
não entra aí a alma
a alma apenas sabe reprovar
Se tenho pensamentos reservados
os teus são, ó homem!
Sabe pois que te vejo!
Não nas coisas extremas:
É nas intermédias
que se encontra o que importa
da alma e da reprovação
(Tradução de Silva Duarte)
01/05/2012
Eu, Joanna
- Ana Peluso
As palavras não surgem,
Não brindam,
Não rugem.
Prostram-se
Caladas,
Nas bocas
Fechadas.
Espaços mudos
Do nosso ser.
Reluto
Armada,
Dos pés à cabeça,
E de Joanna roubo
A echarpe de ferro
E o cinto do clero
Que ela não queimou.
Avanço o limite
Do chão.
Pedregulho
Que Afrodite
Pisou.
Encanto-te a alma,
E guardo na calma
Tuas chaves
De rei.
E na fogueira
Da cama
Saio ilesa.
Você, poder deposto,
Me acaricia o rosto,
E solta-me as mãos.
As palavras não surgem,
Não brindam,
Não rugem.
Prostram-se
Caladas,
Nas bocas
Fechadas.
Espaços mudos
Do nosso ser.
Reluto
Armada,
Dos pés à cabeça,
E de Joanna roubo
A echarpe de ferro
E o cinto do clero
Que ela não queimou.
Avanço o limite
Do chão.
Pedregulho
Que Afrodite
Pisou.
Encanto-te a alma,
E guardo na calma
Tuas chaves
De rei.
E na fogueira
Da cama
Saio ilesa.
Você, poder deposto,
Me acaricia o rosto,
E solta-me as mãos.
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