- Júlia Hansen
O amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.
Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada. Bicicleta.
Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos miúdos.
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.
O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.
28/06/2013
24/06/2013
He carries in his eyes
- Adonis
He carries in his eyes
a pearl; from the ends of days
and from the winds he takes
a spark; and from his hand,
from the islands of rain
a mountain, and creates dawn.
I know him—he carries in his eyes
the prophecy of the seas.
He named me history and the poem
that purifies a place.
I know him—he named me flood.
(Tradução de Khaled Mattawa)
Lamento
- Luís Quintais
Em memória de Paulo Jorge Valverde
1.
Ao contrário de mim, sei que sempre amaste
as fotografias, porque sempre estiveste
próximo, jocosamente próximo da morte.
E ela brincava contigo através do brilho
das imagens.
No preâmbulo do teu regresso,
que fazia eu? Estava em Granada,
por puro acaso. Por puro acaso visitara a casa de Lorca,
e os seus olhos tinham algo de temível.
Era uma dessas fotografias em que o poeta
sorri para a câmara
segurando alegre um dos seus sobrinhos.
Senti o rumor dilacerante daqueles olhos,
como se se tratasse do eco do teu nome
que o futuro se encarregaria
de me devolver intacto.
Rodeado de asséptica atenção, morrias devagar.
Cuidados intensivos. Que expressão mais consonante
com a única intimidade que conheci de ti—
o que se expunha neste lugar, neste purgatório
de máquinas e escalas afinadas
para a ténue linha da vida que do teu corpo se escoava.
2.
Já não estamos no tempo.
E é aí que te encontro,
num lugar de pesadelo, num lugar de fria,
metálica arquitectura.
Pede-se a palavra,
o único modo de recobrares os sentidos,
a única esperança. Que te dizer à beira deste cárcere de reservas
em que te encontras envolto?
A palavra que te trará à minha mesa,
onde assistiremos juntos
ao desfilar do indeterminado,
nós, os que sempre amámos
as clareiras
onde o indeterminado começa a cantar.
Os olhos de Lorca atravessam longos corredores de
[aflição
e invadem esta sala de agonia.
Nada posso fazer. A não ser perseguir
ficções, as que nos têm forçosamente de salvar.
Se assim não for, só nos resta a sujeição à perda, ao desespero.
Oiço o vento que se desprende
das árvores de São Tomé, as que estão
nas fotografias que me envias,
ou melhor, imagino as bruxas que se metamorfoseiam
em pássaros
apenas para habitarem os postais que me envias.
3.
Sobrevivendo-te, talvez te tenha traído.
Terei sido eu aquele que te conduziu pela mão
até ao lugar convulso
onde para ler se implora luz e se obtém silêncio?
Arredar-te-ia deste silêncio.
Como fazê-lo? Saberei trocar de ilha?
Saberei merecer a ilha difícil, a ilha das fantasiosas deserções
onde perscrutaremos por fim o mar?
Em memória de Paulo Jorge Valverde
1.
Ao contrário de mim, sei que sempre amaste
as fotografias, porque sempre estiveste
próximo, jocosamente próximo da morte.
E ela brincava contigo através do brilho
das imagens.
No preâmbulo do teu regresso,
que fazia eu? Estava em Granada,
por puro acaso. Por puro acaso visitara a casa de Lorca,
e os seus olhos tinham algo de temível.
Era uma dessas fotografias em que o poeta
sorri para a câmara
segurando alegre um dos seus sobrinhos.
Senti o rumor dilacerante daqueles olhos,
como se se tratasse do eco do teu nome
que o futuro se encarregaria
de me devolver intacto.
Rodeado de asséptica atenção, morrias devagar.
Cuidados intensivos. Que expressão mais consonante
com a única intimidade que conheci de ti—
o que se expunha neste lugar, neste purgatório
de máquinas e escalas afinadas
para a ténue linha da vida que do teu corpo se escoava.
2.
Já não estamos no tempo.
E é aí que te encontro,
num lugar de pesadelo, num lugar de fria,
metálica arquitectura.
Pede-se a palavra,
o único modo de recobrares os sentidos,
a única esperança. Que te dizer à beira deste cárcere de reservas
em que te encontras envolto?
A palavra que te trará à minha mesa,
onde assistiremos juntos
ao desfilar do indeterminado,
nós, os que sempre amámos
as clareiras
onde o indeterminado começa a cantar.
Os olhos de Lorca atravessam longos corredores de
[aflição
e invadem esta sala de agonia.
Nada posso fazer. A não ser perseguir
ficções, as que nos têm forçosamente de salvar.
Se assim não for, só nos resta a sujeição à perda, ao desespero.
Oiço o vento que se desprende
das árvores de São Tomé, as que estão
nas fotografias que me envias,
ou melhor, imagino as bruxas que se metamorfoseiam
em pássaros
apenas para habitarem os postais que me envias.
3.
Sobrevivendo-te, talvez te tenha traído.
Terei sido eu aquele que te conduziu pela mão
até ao lugar convulso
onde para ler se implora luz e se obtém silêncio?
Arredar-te-ia deste silêncio.
Como fazê-lo? Saberei trocar de ilha?
Saberei merecer a ilha difícil, a ilha das fantasiosas deserções
onde perscrutaremos por fim o mar?
23/06/2013
Teoria Sentada
- Herberto Hélder
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a umidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a umidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
22/06/2013
Aos deuses do olvido
- Adriano Nunes
Deixar o ar
Da despedida
Penetrar pelas frestas do que se forma
Com o fôlego das dúvidas remotas,
Forçá-lo a ir pela saída mais íntima
Do flerte, do gesto, do riso, pô-lo à prova
Dos desejos que a alma contornam,
Expirá-lo num êxtase incontido,
Vê-lo vento a virar furacão,
Balançar o cabelo da palavra
Que, por mais que se procure,
Não se acha esculpida
Na vontade de encontrá-la, nave e nuvem,
Acenar para quem passa,
Atravessar a ponte que já vai longe, fora
Do alcance dos arames farpados da memória,
Saber o seco de ser e ser,
E em um fragmento fundar o que suspenso
Pode estar: o instante in-
Terminável sobre os termos táteis, totais,
Do contrato estabelecido
Entre o Ego e Eros,
Engendrar a volta por cima das cinzas, fênix
Dos acasos práticos do medo.
Escrever um verso e dá-lo,
Sem o fórceps do tempo,
Sem o velcro dos espaços corrosivos,
Sem as vestes dos discursos nítidos,
Sem a voz que aparente cantá-lo pretende,
Ante o destino convulso de tudo...
Ser feliz, mesmo na estranhíssima entrelinha
Do agora. Abrir portas.
Deixar o ar
Da despedida
Penetrar pelas frestas do que se forma
Com o fôlego das dúvidas remotas,
Forçá-lo a ir pela saída mais íntima
Do flerte, do gesto, do riso, pô-lo à prova
Dos desejos que a alma contornam,
Expirá-lo num êxtase incontido,
Vê-lo vento a virar furacão,
Balançar o cabelo da palavra
Que, por mais que se procure,
Não se acha esculpida
Na vontade de encontrá-la, nave e nuvem,
Acenar para quem passa,
Atravessar a ponte que já vai longe, fora
Do alcance dos arames farpados da memória,
Saber o seco de ser e ser,
E em um fragmento fundar o que suspenso
Pode estar: o instante in-
Terminável sobre os termos táteis, totais,
Do contrato estabelecido
Entre o Ego e Eros,
Engendrar a volta por cima das cinzas, fênix
Dos acasos práticos do medo.
Escrever um verso e dá-lo,
Sem o fórceps do tempo,
Sem o velcro dos espaços corrosivos,
Sem as vestes dos discursos nítidos,
Sem a voz que aparente cantá-lo pretende,
Ante o destino convulso de tudo...
Ser feliz, mesmo na estranhíssima entrelinha
Do agora. Abrir portas.
Um campo batido pela brisa
- Fernando Assis Pacheco
A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
La memoria
- Juan Ramón Jiménez
!Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(!vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(!vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
!Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!
!Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(!vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(!vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
!Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!
21/06/2013
Extravio
- Ferreira Gullar
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em cada olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em cada olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
A la espera de la oscuridad
- Alejandra Pizarnik
Ese instante que no se olvida
Tan vacío devuelto por las sombras
Tan vacío rechazado por los relojes
Ese pobre instante adoptado por mi ternura
Desnudo desnudo de sangre de alas
Sin ojos para recordar angustias de antaño
Sin labios para recoger el zumo de las violencias
perdidas en el canto de los helados campanarios.
Ampáralo niña ciega de alma
Ponle tus cabellos escarchados por el fuego
Abrázalo pequeña estatua de terror.
Señálale el mundo convulsionado a tus pies
A tus pies donde mueren las golondrinas
Tiritantes de pavor frente al futuro
Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.
Pero ese instante sudoroso de nada
Acurrucado en la cueva del destino
Sin manos para decir nunca
Sin manos para regalar mariposas
A los niños muertos
Ese instante que no se olvida
Tan vacío devuelto por las sombras
Tan vacío rechazado por los relojes
Ese pobre instante adoptado por mi ternura
Desnudo desnudo de sangre de alas
Sin ojos para recordar angustias de antaño
Sin labios para recoger el zumo de las violencias
perdidas en el canto de los helados campanarios.
Ampáralo niña ciega de alma
Ponle tus cabellos escarchados por el fuego
Abrázalo pequeña estatua de terror.
Señálale el mundo convulsionado a tus pies
A tus pies donde mueren las golondrinas
Tiritantes de pavor frente al futuro
Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.
Pero ese instante sudoroso de nada
Acurrucado en la cueva del destino
Sin manos para decir nunca
Sin manos para regalar mariposas
A los niños muertos
Year's End
- Marilyn Hacker
for Audre Lorde and Sonny Wainwright
Twice in my quickly disappearing forties
someone called while someone I loved and I were
making love to tell me another woman had died of cancer.
Seven years apart, and two different lovers:
underneath the numbers, how lives are braided,
how those women's death and lives, lived and died, were
interleaved also.
Does lip touch on lip a memento mori?
Does the blood-thrust nipple against its eager
mate recall, through lust, a breast's transformations
sometimes are lethal?
Now or later, what's the enormous difference?
If one day is good, is a day sufficient?
Is it fear of death with which I'm so eager
to live my life out
now and in its possible permutations
with the one I love? (Only four days later,
she was on a plane headed west across the
Atlantic, work-bound.)
Men and women, mortally wounded where we
love and nourish, dying at thirty, forty,
fifty, not on barricades, but in beds of
unfulfilled promise:
tell me, senators, what you call abnormal?
Each day's obits read as if there's a war on.
Fifty-eight-year-old poet dead of cancer:
warrior woman
laid down with the other warrior women.
Both times when the telephone rang, I answered,
wanting not to, knowing I had to answer,
go from two bodies'
infinite approach to a crest of pleasure
through the disembodied voice from a distance
saying one loved body was clay, one wave of
mind burst and broken.
Each time we went back to each other's hands and
mouths as to a requiem where the chorus
sings death with irrelevant and amazing
bodily music.
for Audre Lorde and Sonny Wainwright
Twice in my quickly disappearing forties
someone called while someone I loved and I were
making love to tell me another woman had died of cancer.
Seven years apart, and two different lovers:
underneath the numbers, how lives are braided,
how those women's death and lives, lived and died, were
interleaved also.
Does lip touch on lip a memento mori?
Does the blood-thrust nipple against its eager
mate recall, through lust, a breast's transformations
sometimes are lethal?
Now or later, what's the enormous difference?
If one day is good, is a day sufficient?
Is it fear of death with which I'm so eager
to live my life out
now and in its possible permutations
with the one I love? (Only four days later,
she was on a plane headed west across the
Atlantic, work-bound.)
Men and women, mortally wounded where we
love and nourish, dying at thirty, forty,
fifty, not on barricades, but in beds of
unfulfilled promise:
tell me, senators, what you call abnormal?
Each day's obits read as if there's a war on.
Fifty-eight-year-old poet dead of cancer:
warrior woman
laid down with the other warrior women.
Both times when the telephone rang, I answered,
wanting not to, knowing I had to answer,
go from two bodies'
infinite approach to a crest of pleasure
through the disembodied voice from a distance
saying one loved body was clay, one wave of
mind burst and broken.
Each time we went back to each other's hands and
mouths as to a requiem where the chorus
sings death with irrelevant and amazing
bodily music.
18/06/2013
Nudez
- João Ricardo Lopes
quatro traços entrecruzados no papel e eis o asterisco:
tão simples quanto isso.
nunca reparaste como pode ser belo um rabisco,
quando o desenhamos sem segundas intenções?
deitados na mesma cama, saciados pela mesma noite
que a seu bel-prazer nos acorda e adormece,
escutamos a serenata do vento e da chuva juntos
sobre o balbuciar da persiana
sim, também a mim apetece conversar um pouco,
dizer coisas que façam rir, segurar no ventre
a tua cabeça prolixa e sonhadora
gosto [murmuras] que me acaricies os seios,
me mordas, me beijes assim, assim, como quem cai
de muito alto
quatro braços entrecruzados de novo e eis o amor:
tão simples quanto isso, tão simples quanto a nudez
de um coração duplo que às escuras pulsasse
ainda mais fundo, ainda mais fundo, como o das estrelas,
a triliões de anos-luz
quatro traços entrecruzados no papel e eis o asterisco:
tão simples quanto isso.
nunca reparaste como pode ser belo um rabisco,
quando o desenhamos sem segundas intenções?
deitados na mesma cama, saciados pela mesma noite
que a seu bel-prazer nos acorda e adormece,
escutamos a serenata do vento e da chuva juntos
sobre o balbuciar da persiana
sim, também a mim apetece conversar um pouco,
dizer coisas que façam rir, segurar no ventre
a tua cabeça prolixa e sonhadora
gosto [murmuras] que me acaricies os seios,
me mordas, me beijes assim, assim, como quem cai
de muito alto
quatro braços entrecruzados de novo e eis o amor:
tão simples quanto isso, tão simples quanto a nudez
de um coração duplo que às escuras pulsasse
ainda mais fundo, ainda mais fundo, como o das estrelas,
a triliões de anos-luz
13/06/2013
Canção do Exílio
- Murilo Mendes
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!
Setembro
- Mário Botas
"Seldom we find" says Solomon Don Dance
"Half ann idea in the profoundest sonnet"
E.A.Poe
A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.
Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.
No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.
Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?
Para exemplo
- Paul Éluard
É certo que desde sempre
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Ouço-me e tu me ouves
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Ele precisa de ser um espelho
(Tradução de Egito Gonçalves)
É certo que desde sempre
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Ouço-me e tu me ouves
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Ele precisa de ser um espelho
(Tradução de Egito Gonçalves)
03/06/2013
Impermanência do caminho
- Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Ouvido por aí, não diga mais
Nos silêncios transita o ventre calma
Sem rumo, esgarçalham os trigais
Do sumido vertemos nus rescaldo
Turvo ruído que os abraçou
Na pressa dos ditos atropelados
Frevo tremido pelos passos moucos
Surdos ponteiros em brasa tornados
Provocados na trova do desgaste
Por enganos d'entre olhares tomam
Boas novas que a cidade alardeia
No suor infindo alma margeia
Por cada vão apelo um braço rôto
Troco perfis rasgados sob os astros
Ouvido por aí, não diga mais
Nos silêncios transita o ventre calma
Sem rumo, esgarçalham os trigais
Do sumido vertemos nus rescaldo
Turvo ruído que os abraçou
Na pressa dos ditos atropelados
Frevo tremido pelos passos moucos
Surdos ponteiros em brasa tornados
Provocados na trova do desgaste
Por enganos d'entre olhares tomam
Boas novas que a cidade alardeia
No suor infindo alma margeia
Por cada vão apelo um braço rôto
Troco perfis rasgados sob os astros
fôsses tu um grande espaço e eu tacteasse
- Herberto Hélder
fôsses tu um grande espaço e eu tacteasse
com todo o meu corpo sôfrego e cego
Madrugada
- Li Bai
Os campos frios embebendo-se em chuva recente,
as cores da Primavera espalhando-se por toda a parte,
os peixes saltitando no grande lago azul,
os tordos cantando nos pesados galhos verdes,
o pólen das flores salpicando-se de gotas de chuva,
a erva dos montes arqueando-se por igual, na cintura,
no rio, entre bambus, restos de névoa
afastando-se, levemente dispersos pela brisa.
(Tradução de António Graça de Abreu)
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