- Luís Quintais
Em memória de Paulo Jorge Valverde
1.
Ao contrário de mim, sei que sempre amaste
as fotografias, porque sempre estiveste
próximo, jocosamente próximo da morte.
E ela brincava contigo através do brilho
das imagens.
No preâmbulo do teu regresso,
que fazia eu? Estava em Granada,
por puro acaso. Por puro acaso visitara a casa de Lorca,
e os seus olhos tinham algo de temível.
Era uma dessas fotografias em que o poeta
sorri para a câmara
segurando alegre um dos seus sobrinhos.
Senti o rumor dilacerante daqueles olhos,
como se se tratasse do eco do teu nome
que o futuro se encarregaria
de me devolver intacto.
Rodeado de asséptica atenção, morrias devagar.
Cuidados intensivos. Que expressão mais consonante
com a única intimidade que conheci de ti—
o que se expunha neste lugar, neste purgatório
de máquinas e escalas afinadas
para a ténue linha da vida que do teu corpo se escoava.
2.
Já não estamos no tempo.
E é aí que te encontro,
num lugar de pesadelo, num lugar de fria,
metálica arquitectura.
Pede-se a palavra,
o único modo de recobrares os sentidos,
a única esperança. Que te dizer à beira deste cárcere de reservas
em que te encontras envolto?
A palavra que te trará à minha mesa,
onde assistiremos juntos
ao desfilar do indeterminado,
nós, os que sempre amámos
as clareiras
onde o indeterminado começa a cantar.
Os olhos de Lorca atravessam longos corredores de
[aflição
e invadem esta sala de agonia.
Nada posso fazer. A não ser perseguir
ficções, as que nos têm forçosamente de salvar.
Se assim não for, só nos resta a sujeição à perda, ao desespero.
Oiço o vento que se desprende
das árvores de São Tomé, as que estão
nas fotografias que me envias,
ou melhor, imagino as bruxas que se metamorfoseiam
em pássaros
apenas para habitarem os postais que me envias.
3.
Sobrevivendo-te, talvez te tenha traído.
Terei sido eu aquele que te conduziu pela mão
até ao lugar convulso
onde para ler se implora luz e se obtém silêncio?
Arredar-te-ia deste silêncio.
Como fazê-lo? Saberei trocar de ilha?
Saberei merecer a ilha difícil, a ilha das fantasiosas deserções
onde perscrutaremos por fim o mar?