- Laurie Stone
I am in my bed, and it feels like a raft being pulled behind a boat. I am flying across waves churned up in the wake, and I am afraid, but that is the element I remember as my music. Knowledge, I can’t say I acquired much, and then there is the forgetting. I held Primrose’s hand and said I think I’m afraid, and she thought I meant of death, but I was talking about my life as a pink ball rolling across the sidewalks of New York. The walls you bounce off tell you the size of your ambition and send you racing like a salmon to the planet where you were born. As I lay dying, I remembered my mother’s voice like the anthem of my first school. Mama, Mama, I said, calling the woman who could not tell the difference between our smells and whom I therefore had to leave. In fairy tales, people are warned against the temptations they can’t resist and then are turned into a pillar of salt, or a deer, or a swan. We’re not supposed to want to fall, but I found it thrilling not being attached to anything. People said I was beautiful, but I didn’t know the difference between the mirror and an empty book. That’s where I wanted to end up: in a house of unmeaning. I have to laugh at the white room my mind was becoming. What use is furniture when you no longer know how to sit but hover on the verge of being a page you are finally ready to write on? We don’t know who we are. It isn’t a human capacity, so you might as well wish for a golden beak to sprout from the parrot colored feathers on your face. A crest is rising, and it’s the tide of my blood. Even as a young girl, my eyebrows knit as if seeking each other consolation. Then I felt myself becoming liquid.
27/07/2015
20/07/2015
Digo
- Eucanaã Ferraz
Imagino que seu nome é outra areia
outra fábula outro nu outro tédio outro ladrilho.
Ainda assim é você. Se seu nome fosse outro
do outro lado da linha outro nervo outra nostalgia
ainda era você e só por isso acenderia a alegria
de o ser mesmo que seu nome não valesse o cinema
mínimo de o escrevermos numa página e pudesse até
não pertencer a este mundo e tivesse que ser dito
com luvas de borracha. Nome que andasse descalço
mas sem queixa da sorte porque ainda assim
quebravam nos seus passos as tardes de junho.
Podia ser um nome que não cantasse que
mal se sentisse que não conduzisse ao coração
dos velhos trens de carga. Mas seu nome
longe disso é berilo abrindo seu brilho na língua
cada vez que o digo. Frondoso é e sob sua sombra
descansa talvez uma onça e na mais alta sílaba
um inseto finca seu alfinete e zine.
Mas podia não ser nada disso. Seria por exemplo
onde batesse aleatório o dedo na página do dicionário,
imagino. E deduzo que enquanto houver nomes
sobre a Terra haverá discórdia e haverá poemas.
Imagino que seu nome é outra areia
outra fábula outro nu outro tédio outro ladrilho.
Ainda assim é você. Se seu nome fosse outro
do outro lado da linha outro nervo outra nostalgia
ainda era você e só por isso acenderia a alegria
de o ser mesmo que seu nome não valesse o cinema
mínimo de o escrevermos numa página e pudesse até
não pertencer a este mundo e tivesse que ser dito
com luvas de borracha. Nome que andasse descalço
mas sem queixa da sorte porque ainda assim
quebravam nos seus passos as tardes de junho.
Podia ser um nome que não cantasse que
mal se sentisse que não conduzisse ao coração
dos velhos trens de carga. Mas seu nome
longe disso é berilo abrindo seu brilho na língua
cada vez que o digo. Frondoso é e sob sua sombra
descansa talvez uma onça e na mais alta sílaba
um inseto finca seu alfinete e zine.
Mas podia não ser nada disso. Seria por exemplo
onde batesse aleatório o dedo na página do dicionário,
imagino. E deduzo que enquanto houver nomes
sobre a Terra haverá discórdia e haverá poemas.
19/07/2015
18/07/2015
Vestir as cidades
- Eucanaã Ferraz
A que vai em frente dos olhos, dependurada
em finos aros, não é larga
(vai do pavilhão da orelha
ao nariz), mas promete a visão
de outra que se projeta além dela,
nítida, translúcida.
O chapéu de copa e abas largas
é a Babilônia que viu nascer
e crescer a criança que partiu
com pressa e sem lhe dizer se agora
o traz à cabeça por lembrança
ou completo esquecimento.
A que os dedos puderem furtar será a luva
que lhes cairá mais certa: uns tantos edifícios
demolidos, mapas remotos, sinos sem torres,
trilhos de nenhum bonde. Das que insistem
agarradas nas solas dos sapatos jamais
se sabem os nomes, tantos os verbos
indecisos e as ruas mal costuradas. No entanto,
trajar-nos-á perfeita (é a ilusão que o diz) aquela
que só visitamos nas fotografias, no desejo,
nas vitrines, e que imaginamos impecável
nos ombros e nos punhos (por sobre aquela
que segue tatuada no braço, malgrado nosso).
A que vai em frente dos olhos, dependurada
em finos aros, não é larga
(vai do pavilhão da orelha
ao nariz), mas promete a visão
de outra que se projeta além dela,
nítida, translúcida.
O chapéu de copa e abas largas
é a Babilônia que viu nascer
e crescer a criança que partiu
com pressa e sem lhe dizer se agora
o traz à cabeça por lembrança
ou completo esquecimento.
A que os dedos puderem furtar será a luva
que lhes cairá mais certa: uns tantos edifícios
demolidos, mapas remotos, sinos sem torres,
trilhos de nenhum bonde. Das que insistem
agarradas nas solas dos sapatos jamais
se sabem os nomes, tantos os verbos
indecisos e as ruas mal costuradas. No entanto,
trajar-nos-á perfeita (é a ilusão que o diz) aquela
que só visitamos nas fotografias, no desejo,
nas vitrines, e que imaginamos impecável
nos ombros e nos punhos (por sobre aquela
que segue tatuada no braço, malgrado nosso).
Atento
- Adriano Espínola
Todos os dias,
batalho silenciosamente.
Ao respirar, busco ser o vento.
Ao caminhar, sou o caminho.
Ao sonhar, engendro o sonho do sonho,
delirante e consciente.
Ao pensar, penso o pensamento
e devagar o componho.
Ao realizá-lo, sou a realidade,
simplesmente.
Não há outra verdade
senão a que invento.
14/07/2015
Ombro
- Aline Bei
andava tão quieta. em todas as conversas ela
só ouvia.
tinha um rosto de gente interessada, daí o abuso, mas
por dentro
ela era
lotação da
Sé.
Precisava dizer umas boas, também,
Umas perguntas do tipo
Depois que morro nunca mais vejo meu corpo nem os corpos das pessoas que amei?
Só que antes
Ela precisava encontrar alguém de ouvido grande
maior que a boca ou pelo menos os 2
do mesmo tamanho,
que luta, ela pensava,
olhando a cidade de são Paulo 6 da tarde esperando o
busão
que demoraria muito,
muitíssimo
pra passar.
Antes
precisavam passar os carros que estavam na frente e parecia que sempre
tinham carros demais
na frente
de Ana.
Respirou fundo, de uma profundidade que
se fosse em metros,
Dava longe na nova
Zelândia, saltos
de bungy Jump
Sem vista pro mar. Cidade de pedra essa são Paulo, com suas
pessoas de pedra.
andava tão quieta. em todas as conversas ela
só ouvia.
tinha um rosto de gente interessada, daí o abuso, mas
por dentro
ela era
lotação da
Sé.
Precisava dizer umas boas, também,
Umas perguntas do tipo
Depois que morro nunca mais vejo meu corpo nem os corpos das pessoas que amei?
Só que antes
Ela precisava encontrar alguém de ouvido grande
maior que a boca ou pelo menos os 2
do mesmo tamanho,
que luta, ela pensava,
olhando a cidade de são Paulo 6 da tarde esperando o
busão
que demoraria muito,
muitíssimo
pra passar.
Antes
precisavam passar os carros que estavam na frente e parecia que sempre
tinham carros demais
na frente
de Ana.
Respirou fundo, de uma profundidade que
se fosse em metros,
Dava longe na nova
Zelândia, saltos
de bungy Jump
Sem vista pro mar. Cidade de pedra essa são Paulo, com suas
pessoas de pedra.
Chagall, The Red Roofs, 1958.
Rua do mundo
- Eucanaã Ferraz
para o Jorge Fernandes da Silveira
Onde morou a Luiza.
Passei por ela, a rua, muitas vezes.
Chama-se agora "da Misericórdia"
e sabe de cor seu caminho
que desce à beira do rio
no alto de um ramo de alecrim,
como um Tejo miúdo, todo de pedras
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.
O cano que rebentou junto ao passeio,
sim, se calhar,
inda não foi consertado,
que as coisas são lentas.
Chama-se agora "da Misericórdia"
a antiga Rua do Mundo.
Era talvez pequena
para nome tão afastadamente,
para a Terra toda e os astros,
mas Luiza era um corpo celeste
a vigiar o andamento, o ruído,
o silêncio, o istmo,
as variações possíveis,
imprevistas, o sangue,
a asa, o sal inesgotável
do vário, o jogo.
Rua do mundo fora,
de seres que se queimavam à luz.
Rua do mundo sensível,
onde Luiza metia o nariz.
Abarcar o mundo com as pernas,
afundar no poema, cair
no mundo, ganhar mundos,
fundos nenhuns, perder.
Era uma rua qualquer, mas
a chuva sabia seu nome, bem como
os males irremediáveis, as ventanias,
os alvoroços de verão, os insetos.
Mesmo a felicidade tantas vezes
desceu e subiu tal qual uma vaga
desordenada, descalça, as pedras
daquela via sem reis nem padres.
Os sábados enchiam as calçadas de pernas.
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam.
Luiza ouvia os cacos, cada um.
A rua frágil, a palavra disparada.
Já não se chama "do Mundo".
É agora "Rua da Misericórdia".
Já não é a vastidão do orbe,
mas, de joelhos, ora pro nobis.
O sol vinha reto varar a janela
da louca que atravessara
a noite à procura do verso
mais irritado, mais de si.
Do punhal ali, rente aos olhos,
ao fígado, ao coração, a mulher sabia
que só uma palavra a salvaria:
misericórdia. Não pediria?
De longe, era possível ouvir um grito
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.
Mas era menos para ela que para o mundo,
menos para ela que para a rua do.
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