18/07/2015

Vestir as cidades

-  Eucanaã Ferraz


A que vai em frente dos olhos, dependurada
em finos aros, não é larga
(vai do pavilhão da orelha

ao nariz), mas promete a visão
de outra que se projeta além dela,
nítida, translúcida.

O chapéu de copa e abas largas
é a Babilônia que viu nascer
e crescer a criança que partiu

com pressa e sem lhe dizer se agora
o traz à cabeça por lembrança
ou completo esquecimento.

A que os dedos puderem furtar será a luva
que lhes cairá mais certa: uns tantos edifícios
demolidos, mapas remotos, sinos sem torres,

trilhos de nenhum bonde. Das que insistem
agarradas nas solas dos sapatos jamais
se sabem os nomes, tantos os verbos

indecisos e as ruas mal costuradas. No entanto,
trajar-nos-á perfeita (é a ilusão que o diz) aquela
que só visitamos nas fotografias, no desejo,

nas vitrines, e que imaginamos impecável
nos ombros e nos punhos (por sobre aquela
que segue tatuada no braço, malgrado nosso).