19/01/2019

água cinza

-  Joana Lavôr


esqueço o filtro aberto porque
molho os pés sempre que 
sonho com o armário de travessas vindo

filomena, meus braços rachavam
segurar arrebentar o pâncreas
servir a mesa enquanto todos saem do quintal, 
jardim escuro, 
correm enquanto 

paredes de hera se encolhem 
arranca a mesa bem servida
todos correm eu sirvo 
bandejas pratos cheios de almondegas
travessas vidro caindo água aberta

o touro voa bem na fresta 
pela janela onde pessoas saem
eu sirvo o touro
























transporte com lodo

-  Joana Lavôr
                                                          para maya

o homem embrulhado
passava longe d'água
mantinha minhas 
tábuas guardadas
éramos quatro
segurando janelas,
touros joelhos dobrados
correndo roupas ferreiros
o mastro d'água os espelhos
coxas abertas em lodo 
areia ventrículos curvos
o touro diz pareço 
um peixe entre seus braços 
falto com o respeito
colecionismo fora do mar
persegue, tua costela não
cola quente carne lodo
percorre beiras de espetos
são formas de boiar
sair com as mãos duras
tantas algas bananas podres
matriarcas, andamos enfiadas
sempre tanto quanto vênus 
o coração azul para fora
deixo nossos corpos 
aguados esquecidos grafite 
dura bem na barriga 

mar meio de transporte





























15/01/2019

o martelo

-  Adelaide Ivánova


durmo com um martelo
embaixo do travesseiro
caso alguém entre de novo
e sorrateiro
no meu quarto não bastasse
ser um saco ter um ferro
me cutucando a cabeça
há ainda outro inconveniente:
Humboldt nunca pode chegar
de surpresa corre o risco
de ser martelado e assim
morrer ou viver
(a quantidade de energia
liberada pelo golpe de
um martelo
é equivalente à metade de
sua massa vezes a velocidade
ao quadrado na hora do impacto)

04/01/2019

Naschmarkt

-  Age de Carvalho


No olho da amêndoa,
no damasco, exposto
numa lágrima de figo,
sabes: eu não sou daqui,
nunca cheguei,
nunca
saí daqui.

Caroço sem carne,
só osso, os
cernes

dessa verdade. E a verdade, circum-
aberta no coração,
desfechada
no coração,
de pé
se despe: abre-se
em gumes, cordialmente.