- Marina Sereno
dois velhos filhos de
Gandhi
cruzados de miçangas aos
pés
da igreja do Bonfim
concluem
falta agora comer um
acarajé
que é a oferenda de Iansã
para Xangô
numa carta Dorival escreveu
para Jorge
a Bahia está viva, ainda lá
o firmamento azul
esse mar tão verde
e o povaréu
a Bahia está viva
no último sábado o cortejo
afro foi
interrompido
para Erica Malunguinho
subir ao palco
e falar
sobre o que estamos
construindo
sobre as vidas de que não abriremos
mão
porque ela estava presente
na festa dançando
num vestido longo e
vermelho
e porque a presença
de seu corpo será
indispensável
nos nossos próximos mundos
pelo Rio Vermelho as frases
escritas nos muros
fundamentam as nossas
apostas
enquanto os nomes de todos
os orixás irrompem pelos cantos da cidade
todos os nomes direcionam
meu passo
visito Salvador com a frase
de Natalia Ginzburg em 1963
lembrando
do tempo feliz quando o
fascismo parecia
que ia terminar logo
não acabou, Natalia, ainda
não
mas por aqui as pretas
estão se amando tanto
que é visível na postura de
seus corpos
na firmeza de seus caminhos
elas passam coroadas e
brilhosas
e se beijam
os terreiros centenários
são sinalizados
por placas de trânsito
e o iorubá parece ser uma
língua oficial
pois está nos nomes
de bairros e borracharias
os baianos me pedem para
ter paciência
em todo lugar que vou,
repare
eu que sempre fui a mais
paciente em qualquer
mesa de bar mas aqui
é preciso
se mover num tempo
que não conhecemos
não destruir-se
e amar Iemanjá