30/05/2019

dois velhos filhos de Gandhi


-  Marina Sereno


dois velhos filhos de Gandhi
cruzados de miçangas aos pés
da igreja do Bonfim concluem 
falta agora comer um acarajé
que é a oferenda de Iansã para Xangô
numa carta Dorival escreveu para Jorge
a Bahia está viva, ainda lá
o firmamento azul
esse mar tão verde
e o povaréu

a Bahia está viva
no último sábado o cortejo afro foi
interrompido
para Erica Malunguinho subir ao palco
e falar
sobre o que estamos construindo
sobre as vidas de que não abriremos mão
porque ela estava presente na festa dançando
num vestido longo e vermelho
e porque a presença
de seu corpo será indispensável
nos nossos próximos mundos

pelo Rio Vermelho as frases
escritas nos muros
fundamentam as nossas apostas 
enquanto os nomes de todos os orixás irrompem pelos cantos da cidade
todos os nomes direcionam meu passo

visito Salvador com a frase
de Natalia Ginzburg em 1963 lembrando 
do tempo feliz quando o fascismo parecia
que ia terminar logo
não acabou, Natalia, ainda não
mas por aqui as pretas estão se amando tanto
que é visível na postura de seus corpos
na firmeza de seus caminhos
elas passam coroadas e brilhosas
e se beijam
os terreiros centenários são sinalizados
por placas de trânsito
e o iorubá parece ser uma língua oficial
pois está nos nomes
de bairros e borracharias

os baianos me pedem para ter paciência
em todo lugar que vou, repare
eu que sempre fui a mais paciente em qualquer
mesa de bar mas aqui
é preciso
se mover num tempo
que não conhecemos
não destruir-se
e amar Iemanjá