- Priscilla Menezes
Eu estou me cuidando e isso tem a ver com andar por onde não deveria. Tanta coisa desmorona, mas não o que, em sua queda, abriria espaço para mais formas de vida. O desejo é uma força assustadora. Enquanto pudermos desejar, seremos a constante possibilidade de uma bomba rente ao estado de coisas. Eu te desejo muita fúria. Eu desejo que nossas águas se encontrem, formem correnteza e vinguem a memória de todos os rios aqui soterrados. A terra vive e conspira e nós também. Nossas águas poderiam condenar todas as estruturas desse mundo erguido pelos homens. A umidade traria tudo abaixo e teríamos que, uma vez mais, olhar para a terra, onde temos aliados. O que queima, o que enfrenta, o que não cessa de retornar. O estado aquoso da matéria, que, multiforme, escapa e avança. Isso há fora e dentro de nós e constitui um manancial que assombra a firmeza de toda pátria. Disso eles sabem muito pouco. Isso eu falo nos vãos, em becos, nas ruelas. Para que faça eco e também eu escute. Que escorra.
