- Marina Sereno
é o que está dando pra fazer agora: aprender a se segurar, sem tanto alarde, se espalhar em silêncio, construir uma base, firmar uma rede por debaixo da terra, pelas paredes, saber ficar firme, ter onde se agarrar. o tempo e a firmeza são coisas que aprendo com as plantas: desenterrei a semente porque plantei no fim do ano passado, supus que não tivesse vingado, já é setembro e nada. mas o tempo do abacateiro é esse: é preciso uma raiz forte pra sustentar um corpo de abacateiro. o tempo da roseira acho muito bonito, um tempo do corte: é preciso podá-la com frequência e sustentar o ato é sempre difícil, me dói muito, acho que nela também, mas depois da perda ela se propaga em força e flores. o tempo das trepadeiras geralmente é muito rápido, quase urgente, talvez porque elas já sabem inventar pernas e braços e se apoiar em lugares improváveis, se deslocam com facilidade. na calçada aqui embaixo a prefeitura arrancou uma árvore dessas muito antigas, tenho visto essa imagem com frequência: é preciso abrir o chão para extrair as raízes que estão por dentro dele, elas são picadas em vários pedaços menores. essas árvores quando caem arrancam o chão junto, ele vem colado na raiz, um chão inteiro. desdobrar raízes por onde não se espera, é o que está dando pra fazer agora: cultivar raízes tão imensas que comprometam as estruturas, aos poucos/raízes aéreas que permitam se movimentar por cima das coisas, pelo teto, pelas janelas, rapidamente. arrancar um chão, inventar outros.
