30/09/2019

jacarepaguá


-  Joana Lavôr


é tarde, estou velho cansado
sou uma espécie de traficante de morangos
a casa completamente verde por dentro, o chão gelado
sinto tempo para dores nas costas
tudo, exceto eu, carrega cadeiras mesas de palha
os discos de meu pai.
todos os dias muita lama no caminho
esse foi passivo, congelado
olho para o chão, percebo que a casa está no mato,
é Jacarepaguá, sou eu
muito confuso no rodapé e na parede
o chão não é o mesmo, mas sinto
tombado o móvel antigo
tem o mesmo cheiro e retoma tudo. é isso
descanso olhando os móveis saindo da casa
dão má sorte e giram na varada
carrego muitas cestas e samburás
coloco-as na pequena sala
onde meu pai guardava os registros em filas
muitos estão exaustos e abertos
nadando imóveis.
encoberto, não sabia se queria me defender, não queria
levantar a bota, cai sempre um pouco da lama, essa é a água.
estou ficando cada vez mais magro e próximo de Ana.
pequeno e sufocado fitando paredes
muito confuso olhando a água que chega,
vejo o rosto                        meu pai no teto
pela primeira vez paro de ser passivo jogo
braços para tocar. não posso,
me afogo, engulo
dentro não consigo ver
uma janela que abre         nada sai da casa
caio no quintal e olho Ana
de pé, ela cresce pegando muita chuva sorrindo no escuro
sou mais jovem, tenho 4 anos e corro para ela
palha e plantas por todo o chão
nós nos seguramos sob a chuva.