30/06/2011

Alguns versos

 -  Antonio Cicero


As letras brancas de alguns versos me espreitam
em pé no fundo azul de uma tela atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde ao levantar quase nada o olhar
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.

28/06/2011

À canseira da vida humana

-  Gregório de Matos

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.


O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.


Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.


O prudente Varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco c’os demais, que ser sisudo.

27/06/2011

A noite dissolve os homens

-  Carlos Drummond de Andrade


A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
 
E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam.
 
A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
 
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
 
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.
 
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
 
Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
 
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
 
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
 
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
 
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...
 
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

O chão é cama

-  Carlos Drummond de Andrade


O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para reposar do amor, vamos à cama.

25/06/2011

Plenilúnio

-  Fernando Pessoa


As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira —
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...

Cumplicidade

-  Soares Feitosa


Chamar pássaros  
com alpiste de amá-los livres, 
procuradores eles serão,  
ad judicia,  
ad negotia,  
pleni, 
plenipotenciários, 
procuradores meus, 
asas livres aos meus azuis. 

                Eles me pousam os parapeitos: 
                uma sombra, 
                tem que haver uma sombra cúmplice: 
                seja de aproximar,  
                seja de chegar bem perto, 
                parece que é. 

O que garante o medo 
é o gesto das duas mãos,  
as duas, 
conchadas de pegar 
em quase... 
a alma do pássaro  

                —— não, não:  
                “avoe, meu bicho”,  
                que não lhe devo... —— 

A intimidade é sutil, 
(dos pássaros) 
não só a deles: 
é sutil 
quando estremece 
e pousa. 
                                Sempre. 

21/06/2011

A um poeta

- Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, no silêncio e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

20/06/2011

Traduzir-se

-  Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

19/06/2011

A dupla situação

-  Carlos Drummond de Andrade


Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal de que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.

Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.

Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.

Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.

18/06/2011

Entre o ser ou o não ser

-  Ana Garrett 


Entre o ser ou o não ser

escolho o ter

medo de te ver assim,

num sossego pálido

e tranquilo demais.



De entre todas as armas

escolho aquelas,

lindas rosas amarelas,

pintadas timidamente

nos teus imponentes vitrais.

17/06/2011

Por que não viver ao vivo?

-  Camila Da Vinci


De repente tudo se tornou tão previsível.
Acordarei e repetirei o ritual diário
Não farei nada de novo
Mas pode ser que eu conquiste um novo público.
 
O cenário não mudou
Mas reparo uma mudança:
Os atores não são os mesmos.
Ah! mas são os mesmos personagens!
Aquele ali eu já conheço
Aquela? Já interpretei muitas vezes

A cena se repete sempre
A emoção mais expressiva que observo?
Uma “Tensão Pré-Flash”
E que exigência a câmera nos faz!
Tão felizes, tão magros, tão agradáveis
E cada vez mais distantes de nós mesmos

Em que cabeça vejo os cabelos do comercial de Shampoo?
Fios lindos e saudáveis
E, voando no mesmo vento que os balança,
Uma consciência remota

Ria de si mesmo
Mas não chore na frente dos outros.
Não te reveles a qualquer um!
E a ti, quando te revelarás?

Perdemos quem somos.

Olhei meu rosto no espelho
Ornado de lápis, blush e batom
E me perguntei quem eu queria representar
Com aquele retrato que acabara de pintar
Fiquei aborrecida com a questão
Lavei o rosto.
E mesmo com a face limpa
Não reconheci quem eu era

Eu era uma tela em branco esperando qualquer cor?
Onde estariam os rascunhos e estudos que antecederam aquele final?
Era como se eles tivessem se perdido
Agora a minha verdade era aquele personagem
Do qual não era de minha autoria sua história
Mas que eu sabia de cor cada falso ato seu

Por que não viver ao vivo?
Falta coragem de assumir o errático
Então, simplesmente perguntamos:
- Se a suavidade existe, por que toda essa aspereza em viver?
E esquecemos que sentir é seco e sem anestesia

16/06/2011

Poema-orelha

-  Carlos Drummond de Andrade


Esta é a orelha do livro

por onde o poeta escuta

se dele falam mal

ou se o amam.

Uma orelha ou uma boca

sequiosa de palavras?

São oito livros velhos

e mais um livro novo

de um poeta ainda mais velho

que a vida que viveu

e contudo o provoca

a viver sempre e nunca.

Oito livros que o tempo

empurrou para longe

de mim

mais um livro sem tempo

em que o poeta se contempla

e se diz boa-tarde

(ensaio de boa-noite,

variante de bom-dia,

que tudo é o vasto dia

em seus compartimentos

nem sempre respiráveis

e todos habitados

enfim.)

Não me leias se buscas

flamante novidade

ou sopro de Camões.

Aquilo que revelo

e o mais que segue oculto

em vítreos alçapões

são notícias humanas,

simples estar-no-mundo,

e brincos de palavra,

um não-estar-estando,

mas de tal jeito urdidos

o jogo e a confissão

que nem distingo eu mesmo

o vivido e o inventado.

Tudo vivido? Nada.

Nada vivido? Tudo.

A orelha pouco explica

de cuidados terrenos;

e a poesia mais rica

é um sinal de menos.

14/06/2011

Hymne à la Beauté

-  Charles Baudelaire


Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
O Beauté? ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin.


Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.


Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.


Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.


L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L'amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l'air d'un moribond caressant son tombeau.
 

Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté! monstre énorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu?



De Satan ou de Dieu, qu'importe? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, — fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! —
L'univers moins hideux et les instants moins lourds?

12/06/2011

Vários efeitos de amor

-  Lope de Vega


Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e corajoso;

não ver fora do bem centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto a um claro desengano;
beber veneno por licor suave;
esquecer o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
dar a vida e a alma a desilusões,
isto é amor;

quem provou bem sabe.

11/06/2011

Ave, Palavra

-  João Guimarães Rosa


[...] Eu estava ali, cheio de mente,
mas nas imagens do meu mar de morte,
morada de ninguém;
                      apenas minha?
Em meio de muito pranto sei:
agudos os ossos da alma
e toda beleza é distante.

Só o túmulo obedece.
Todo ídolo é tentativa de
deter o tempo.

(Nem o ar é meu, nem
             o que é meu é meu. E o
              relato que é meu,
                      do chão do mar)

Eu morro de autenticidade!

Não! Que eu ainda não sou!
Que eu ainda não sou saudade...

Saudade - as modulações
               do escuro;
As falenas de além-fogo, e
uma nudez de espada: a ardente
neutralidade de um anjo. [...]

10/06/2011

Déjeuner du matin

-  Jacques Prévert


Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler

Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder

Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder

Et moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et j'ai pleuré

09/06/2011

Momentos como esse

-  Rodrigo Capella

Luzes de lindos lábios,

Raios tênues e cristais,

Momentos de desejada dor,

Fantasias e mágicos sonhos.


És tão bela e insensata,

Carícias sem abraços,

Dores de belas canções,

Beijo, sensações.


Venero-a como uma flor,

Puras luzes obsecuras,

Tua rara beleza.


Desejos como esse,

Jamais terei.


Pensar em você,

Não morro por quê?

08/06/2011

Segredo de Camarinha

-  Micheliny Verunschk


Cora,

teu retrato amarelado de moça

fala à minha dor.

Teu retrato-butterfly antigo

pousa,

pousa sobre

a rosa remendada de minha dor.

Aquele rapaz, Cora,

que tinha o medo

(o medo que têm todos os homens)

e que não pressentiu a espera ancestral,

aquele rapaz, Cora,

o desencontrei também.

Ele vestia

o mesmo sorriso

e o mesmo cheiro bom de terra

e o mesmo medo

(ainda o medo)

o medo

ele vestia.

(O que há de se fazer,

Cora,

com um mal destes de amor ?)

Cora,

teu antigo retrato de moça

baila-bailarina

sobre a minha dor.