- Adriana Zapparoli
era onde ele dormia: isca noturna entre algumas traças e pulgas... e quando muito, ele que não dormia, estraçalhava tudo com as unhas; se dormia era entre os restos de rimas, urros e urina.
e
dentro das xícaras matutinas, ele depositava o dia a dia, as suas caspas e as cinzas do cigarro de tabaco ... e seguia competindo com as baratas o asco do filtro [porque assim sentia melhor a nicotina], o seu desjejum, o seu resto de juízo e o alho, que era tudo o que ele mantinha na cozinha ...
e
enquanto ele observava o quadro de aviso-feltro "não alimente uma formiga", cerceava-lhe a rotina, entre os seus flagelos e as suas vertigens coloridas; retalhava o ácido do movimento externo da bengala, o cáustico entre as bexigas amarelas, e o lático das outras bolas de poligaláceas, as quais ele carregava junto a cadeira, ou na beira de seu chapéu que descansava-lhe a barriga...
e refletia sobre as maravilhas divinas e a luz demoníaca
sua vida pelos olhos castanhos ... do amor...
06/12/2013
14/10/2013
(Escre) ver-me
- Mia Couto
nunca escrevi
sou apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago
sou um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar.
nunca escrevi
sou apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago
sou um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar.
22/09/2013
Parece que estou em perigo. Mas não.
- Mariano Marovatto
Parece que estou em perigo. Mas não.
Sob o efeito do Memoriol B6, entro numa
estação subterrânea à espera do metrô.
Água avança pelos respiradores, o eco
é hilariante como os que se afogam engasgados.
Talvez devêssemos todos
mergulhar nos trilhos
patos e boias.
Do lado seco do vão os dois homens
encasacados. Um veste sobretudo de tecido
grosso e marrom, coisa que não se usa mais.
O outro repuxa um topete
com um pente de plástico.
Calvície à espreita.
Checam com frequência os papéis nas malas.
Os vagões surgem
com os cotovelos molhados apontados.
Talvez aqui seja o ponto final, talvez
seja melhor caminhar apressadamente.
Parece que estou em perigo. Mas não.
Sob o efeito do Memoriol B6, entro numa
estação subterrânea à espera do metrô.
Água avança pelos respiradores, o eco
é hilariante como os que se afogam engasgados.
Talvez devêssemos todos
mergulhar nos trilhos
patos e boias.
Do lado seco do vão os dois homens
encasacados. Um veste sobretudo de tecido
grosso e marrom, coisa que não se usa mais.
O outro repuxa um topete
com um pente de plástico.
Calvície à espreita.
Checam com frequência os papéis nas malas.
Os vagões surgem
com os cotovelos molhados apontados.
Talvez aqui seja o ponto final, talvez
seja melhor caminhar apressadamente.
19/09/2013
regressar à casa
- gil t. sousa
regressar à casa
despir o véu da rua
subir os outros
degrau a degrau
deixá-los
no cimo dos dias
ali
imóveis, pintados
sem doerem
e ir à procura das palavras
das fiéis palavras
que nos esperam
que nos esperaram sempre
com um vinho forte na mão
uma droga
ou um sonho
ou apenas
um sonho
ou então um cavalo
um louco cavalo
uma máquina iluminada
de fugir
de ir
pelo gume mais aceso das montanhas
e voltar
pela maré serena
dos rios
regressar à casa
despir o véu da rua
subir os outros
degrau a degrau
deixá-los
no cimo dos dias
ali
imóveis, pintados
sem doerem
e ir à procura das palavras
das fiéis palavras
que nos esperam
que nos esperaram sempre
com um vinho forte na mão
uma droga
ou um sonho
ou apenas
um sonho
ou então um cavalo
um louco cavalo
uma máquina iluminada
de fugir
de ir
pelo gume mais aceso das montanhas
e voltar
pela maré serena
dos rios
28/08/2013
Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre
- Jovan Hristic
Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre,
Astrónomos, matemáticos e um dos magos da Síria,
Para lerem nas estrelas a glória do Rei dos Reis
E demonstrar a sua imortalidade com a ajuda da geometria.
Antes do nascer do dia, menearam as cabeças em concordância
Com as suas interpretações. A resposta das estrelas
Foi positiva. As trombetas anunciaram
A glória do Rei dos Reis sob o sol nascente.
No pálacio, com a mesa posta para o banquete, eles são esperados
Por aqueles sobre os quais as estrelas se pronunciaram esta noite
E cujo futuro transborda agora como vinho novo
Guardado nos cálices dourados preparados para os brindes.
Só alguns jovens, recentemente especializados em geometria,
Não se mostraram totalmente convencidos com o que foi lido nas estrelas,
Pois as estrelas respondem sempre aos humanos,
Mas a que questão só elas mesmas sabem.
(Tradução de Charles Simic)
Astrónomos, matemáticos e um dos magos da Síria,
Para lerem nas estrelas a glória do Rei dos Reis
E demonstrar a sua imortalidade com a ajuda da geometria.
Antes do nascer do dia, menearam as cabeças em concordância
Com as suas interpretações. A resposta das estrelas
Foi positiva. As trombetas anunciaram
A glória do Rei dos Reis sob o sol nascente.
No pálacio, com a mesa posta para o banquete, eles são esperados
Por aqueles sobre os quais as estrelas se pronunciaram esta noite
E cujo futuro transborda agora como vinho novo
Guardado nos cálices dourados preparados para os brindes.
Só alguns jovens, recentemente especializados em geometria,
Não se mostraram totalmente convencidos com o que foi lido nas estrelas,
Pois as estrelas respondem sempre aos humanos,
Mas a que questão só elas mesmas sabem.
(Tradução de Charles Simic)
16/08/2013
Daqui a pouco
- Ana Guadalupe
depois quando não existe
depois
não existe
só o agora continua insistente
se fosse um homem ou mulher de olhos grandes
o agora telefonaria muitas vezes
até que alguém atendesse
pra que a gente se gostasse no primeiro instante
e vivesse dias inteiros estragados por detalhes
aparelhos com defeito, despencamento de cabides
um amigo inconveniente, o gênero errado de filme
alergia a pólen
alergia a cabelos
depois quando não existe
depois
não existe
só o agora continua insistente
se fosse um homem ou mulher de olhos grandes
o agora telefonaria muitas vezes
até que alguém atendesse
pra que a gente se gostasse no primeiro instante
e vivesse dias inteiros estragados por detalhes
aparelhos com defeito, despencamento de cabides
um amigo inconveniente, o gênero errado de filme
alergia a pólen
alergia a cabelos
15/08/2013
o desgoverno dos sonhos
- valter hugo mãe
já não te aguardo,
adio-me
sobre o veludo da tua
morte o atrio do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar
se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono
o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer
existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem
eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua
e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro
a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir
e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica
critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão
por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo
lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto
já tu esperas,
abrevias-me
ao luís miguel nava
já não te aguardo,
adio-me
sobre o veludo da tua
morte o atrio do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar
se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono
o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer
existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem
eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua
e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro
a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir
e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica
critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão
por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo
lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto
já tu esperas,
abrevias-me
14/08/2013
Vestígios
- Al Berto
noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obsessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos a repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obsessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos a repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
07/08/2013
Ode ao Tejo
- Adolfo Casais Monteiro
e à memória de Álvaro de Campos
E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa-
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça.
"Olá Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa
em que Fernando Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens, imagem muito minha do terno,
porque és real e tens forma, vida ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!
O meu mal é não ser dos que trazem a beleza metida na algibeira
e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não estás diante dos meus olhos, estás sempre longe.
Não te reduzi a uma ideia para trazer dentro da cabeça,
e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,
mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre virgem,
porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a posse.
Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...
E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado sem te olhar, ó Tejo.
Mau sinal, mau sinal, Tejo.
Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
levado nos teus braços,
debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,
embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória
as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
para me lavar do que deve andar de impuro dentro de mim,
para os meus olhos beberem a tua força de luxo indomável,
para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me
dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,
para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para outro lado
quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,
mais bela que qualquer sonho,
porque é real, concreta, e única!
e à memória de Álvaro de Campos
E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa-
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça.
"Olá Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa
em que Fernando Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens, imagem muito minha do terno,
porque és real e tens forma, vida ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!
O meu mal é não ser dos que trazem a beleza metida na algibeira
e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não estás diante dos meus olhos, estás sempre longe.
Não te reduzi a uma ideia para trazer dentro da cabeça,
e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,
mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre virgem,
porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a posse.
Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...
E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado sem te olhar, ó Tejo.
Mau sinal, mau sinal, Tejo.
Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
levado nos teus braços,
debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,
embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória
as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
para me lavar do que deve andar de impuro dentro de mim,
para os meus olhos beberem a tua força de luxo indomável,
para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me
dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,
para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para outro lado
quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,
mais bela que qualquer sonho,
porque é real, concreta, e única!
04/08/2013
Versos na tarde
- Yannis Ritsos
A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.
(Tradução de José Paulo Paes)
A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.
(Tradução de José Paulo Paes)
04/07/2013
Somente uma gota
- Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Somente uma gota solitária
Somente uma gota solitária
A teus pés derramada
Somente uma fagulha acesa
Nos teus lábios róseos
Somente uma utopia singela
Para passar o dia
Somente uma emoção fugidia
Miniatura de sonho
Nós dois
28/06/2013
O amor gasta
- Júlia Hansen
O amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.
Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada. Bicicleta.
Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos miúdos.
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.
O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.
O amor gasta
ilharga, rumo
porque inventa
de novo, amor.
Suor, fruto
rosto nítido
paira um ritmo
na gruta, silêncio.
Mas se o amor gasta
temerosos, teus receios
e se o amor cria o dia
de chegarmos numa praça
em que fumo feito
o amor desfolhe
nicotina amarelando
os batentes das portas
o outono
também pode entrar, amor.
Amor pode pôr altifalantes
não adianta, não avisam
o caminho, a enxurrada. Bicicleta.
Mas se bem amadurece
água com açúcar, dá papaia
e o amor no máximo gasta
cáries nos dentes dos miúdos.
Sabe bem, alisar demais
nunca fez gastar o viço
nem dos pelos
do gato que te oferto no Natal
e em seu salto matutino
sobre nossos corpos
desconhece o puído da vida.
O amor nos lambe áspero
constrói-nos olhos, digo
para ver pontes o amor
abre as portas. Cria.
O imaginário é meu armário.
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.
24/06/2013
He carries in his eyes
- Adonis
He carries in his eyes
a pearl; from the ends of days
and from the winds he takes
a spark; and from his hand,
from the islands of rain
a mountain, and creates dawn.
I know him—he carries in his eyes
the prophecy of the seas.
He named me history and the poem
that purifies a place.
I know him—he named me flood.
(Tradução de Khaled Mattawa)
Lamento
- Luís Quintais
Em memória de Paulo Jorge Valverde
1.
Ao contrário de mim, sei que sempre amaste
as fotografias, porque sempre estiveste
próximo, jocosamente próximo da morte.
E ela brincava contigo através do brilho
das imagens.
No preâmbulo do teu regresso,
que fazia eu? Estava em Granada,
por puro acaso. Por puro acaso visitara a casa de Lorca,
e os seus olhos tinham algo de temível.
Era uma dessas fotografias em que o poeta
sorri para a câmara
segurando alegre um dos seus sobrinhos.
Senti o rumor dilacerante daqueles olhos,
como se se tratasse do eco do teu nome
que o futuro se encarregaria
de me devolver intacto.
Rodeado de asséptica atenção, morrias devagar.
Cuidados intensivos. Que expressão mais consonante
com a única intimidade que conheci de ti—
o que se expunha neste lugar, neste purgatório
de máquinas e escalas afinadas
para a ténue linha da vida que do teu corpo se escoava.
2.
Já não estamos no tempo.
E é aí que te encontro,
num lugar de pesadelo, num lugar de fria,
metálica arquitectura.
Pede-se a palavra,
o único modo de recobrares os sentidos,
a única esperança. Que te dizer à beira deste cárcere de reservas
em que te encontras envolto?
A palavra que te trará à minha mesa,
onde assistiremos juntos
ao desfilar do indeterminado,
nós, os que sempre amámos
as clareiras
onde o indeterminado começa a cantar.
Os olhos de Lorca atravessam longos corredores de
[aflição
e invadem esta sala de agonia.
Nada posso fazer. A não ser perseguir
ficções, as que nos têm forçosamente de salvar.
Se assim não for, só nos resta a sujeição à perda, ao desespero.
Oiço o vento que se desprende
das árvores de São Tomé, as que estão
nas fotografias que me envias,
ou melhor, imagino as bruxas que se metamorfoseiam
em pássaros
apenas para habitarem os postais que me envias.
3.
Sobrevivendo-te, talvez te tenha traído.
Terei sido eu aquele que te conduziu pela mão
até ao lugar convulso
onde para ler se implora luz e se obtém silêncio?
Arredar-te-ia deste silêncio.
Como fazê-lo? Saberei trocar de ilha?
Saberei merecer a ilha difícil, a ilha das fantasiosas deserções
onde perscrutaremos por fim o mar?
Em memória de Paulo Jorge Valverde
1.
Ao contrário de mim, sei que sempre amaste
as fotografias, porque sempre estiveste
próximo, jocosamente próximo da morte.
E ela brincava contigo através do brilho
das imagens.
No preâmbulo do teu regresso,
que fazia eu? Estava em Granada,
por puro acaso. Por puro acaso visitara a casa de Lorca,
e os seus olhos tinham algo de temível.
Era uma dessas fotografias em que o poeta
sorri para a câmara
segurando alegre um dos seus sobrinhos.
Senti o rumor dilacerante daqueles olhos,
como se se tratasse do eco do teu nome
que o futuro se encarregaria
de me devolver intacto.
Rodeado de asséptica atenção, morrias devagar.
Cuidados intensivos. Que expressão mais consonante
com a única intimidade que conheci de ti—
o que se expunha neste lugar, neste purgatório
de máquinas e escalas afinadas
para a ténue linha da vida que do teu corpo se escoava.
2.
Já não estamos no tempo.
E é aí que te encontro,
num lugar de pesadelo, num lugar de fria,
metálica arquitectura.
Pede-se a palavra,
o único modo de recobrares os sentidos,
a única esperança. Que te dizer à beira deste cárcere de reservas
em que te encontras envolto?
A palavra que te trará à minha mesa,
onde assistiremos juntos
ao desfilar do indeterminado,
nós, os que sempre amámos
as clareiras
onde o indeterminado começa a cantar.
Os olhos de Lorca atravessam longos corredores de
[aflição
e invadem esta sala de agonia.
Nada posso fazer. A não ser perseguir
ficções, as que nos têm forçosamente de salvar.
Se assim não for, só nos resta a sujeição à perda, ao desespero.
Oiço o vento que se desprende
das árvores de São Tomé, as que estão
nas fotografias que me envias,
ou melhor, imagino as bruxas que se metamorfoseiam
em pássaros
apenas para habitarem os postais que me envias.
3.
Sobrevivendo-te, talvez te tenha traído.
Terei sido eu aquele que te conduziu pela mão
até ao lugar convulso
onde para ler se implora luz e se obtém silêncio?
Arredar-te-ia deste silêncio.
Como fazê-lo? Saberei trocar de ilha?
Saberei merecer a ilha difícil, a ilha das fantasiosas deserções
onde perscrutaremos por fim o mar?
23/06/2013
Teoria Sentada
- Herberto Hélder
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a umidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a umidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.
O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o alcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.
Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.
Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim - a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.
Alguém se procura dentro do meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.
Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
22/06/2013
Aos deuses do olvido
- Adriano Nunes
Deixar o ar
Da despedida
Penetrar pelas frestas do que se forma
Com o fôlego das dúvidas remotas,
Forçá-lo a ir pela saída mais íntima
Do flerte, do gesto, do riso, pô-lo à prova
Dos desejos que a alma contornam,
Expirá-lo num êxtase incontido,
Vê-lo vento a virar furacão,
Balançar o cabelo da palavra
Que, por mais que se procure,
Não se acha esculpida
Na vontade de encontrá-la, nave e nuvem,
Acenar para quem passa,
Atravessar a ponte que já vai longe, fora
Do alcance dos arames farpados da memória,
Saber o seco de ser e ser,
E em um fragmento fundar o que suspenso
Pode estar: o instante in-
Terminável sobre os termos táteis, totais,
Do contrato estabelecido
Entre o Ego e Eros,
Engendrar a volta por cima das cinzas, fênix
Dos acasos práticos do medo.
Escrever um verso e dá-lo,
Sem o fórceps do tempo,
Sem o velcro dos espaços corrosivos,
Sem as vestes dos discursos nítidos,
Sem a voz que aparente cantá-lo pretende,
Ante o destino convulso de tudo...
Ser feliz, mesmo na estranhíssima entrelinha
Do agora. Abrir portas.
Deixar o ar
Da despedida
Penetrar pelas frestas do que se forma
Com o fôlego das dúvidas remotas,
Forçá-lo a ir pela saída mais íntima
Do flerte, do gesto, do riso, pô-lo à prova
Dos desejos que a alma contornam,
Expirá-lo num êxtase incontido,
Vê-lo vento a virar furacão,
Balançar o cabelo da palavra
Que, por mais que se procure,
Não se acha esculpida
Na vontade de encontrá-la, nave e nuvem,
Acenar para quem passa,
Atravessar a ponte que já vai longe, fora
Do alcance dos arames farpados da memória,
Saber o seco de ser e ser,
E em um fragmento fundar o que suspenso
Pode estar: o instante in-
Terminável sobre os termos táteis, totais,
Do contrato estabelecido
Entre o Ego e Eros,
Engendrar a volta por cima das cinzas, fênix
Dos acasos práticos do medo.
Escrever um verso e dá-lo,
Sem o fórceps do tempo,
Sem o velcro dos espaços corrosivos,
Sem as vestes dos discursos nítidos,
Sem a voz que aparente cantá-lo pretende,
Ante o destino convulso de tudo...
Ser feliz, mesmo na estranhíssima entrelinha
Do agora. Abrir portas.
Um campo batido pela brisa
- Fernando Assis Pacheco
A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
La memoria
- Juan Ramón Jiménez
!Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(!vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(!vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
!Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!
!Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(!vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(!vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
!Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!
21/06/2013
Extravio
- Ferreira Gullar
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em cada olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em cada olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
A la espera de la oscuridad
- Alejandra Pizarnik
Ese instante que no se olvida
Tan vacío devuelto por las sombras
Tan vacío rechazado por los relojes
Ese pobre instante adoptado por mi ternura
Desnudo desnudo de sangre de alas
Sin ojos para recordar angustias de antaño
Sin labios para recoger el zumo de las violencias
perdidas en el canto de los helados campanarios.
Ampáralo niña ciega de alma
Ponle tus cabellos escarchados por el fuego
Abrázalo pequeña estatua de terror.
Señálale el mundo convulsionado a tus pies
A tus pies donde mueren las golondrinas
Tiritantes de pavor frente al futuro
Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.
Pero ese instante sudoroso de nada
Acurrucado en la cueva del destino
Sin manos para decir nunca
Sin manos para regalar mariposas
A los niños muertos
Ese instante que no se olvida
Tan vacío devuelto por las sombras
Tan vacío rechazado por los relojes
Ese pobre instante adoptado por mi ternura
Desnudo desnudo de sangre de alas
Sin ojos para recordar angustias de antaño
Sin labios para recoger el zumo de las violencias
perdidas en el canto de los helados campanarios.
Ampáralo niña ciega de alma
Ponle tus cabellos escarchados por el fuego
Abrázalo pequeña estatua de terror.
Señálale el mundo convulsionado a tus pies
A tus pies donde mueren las golondrinas
Tiritantes de pavor frente al futuro
Dile que los suspiros del mar
Humedecen las únicas palabras
Por las que vale vivir.
Pero ese instante sudoroso de nada
Acurrucado en la cueva del destino
Sin manos para decir nunca
Sin manos para regalar mariposas
A los niños muertos
Year's End
- Marilyn Hacker
for Audre Lorde and Sonny Wainwright
Twice in my quickly disappearing forties
someone called while someone I loved and I were
making love to tell me another woman had died of cancer.
Seven years apart, and two different lovers:
underneath the numbers, how lives are braided,
how those women's death and lives, lived and died, were
interleaved also.
Does lip touch on lip a memento mori?
Does the blood-thrust nipple against its eager
mate recall, through lust, a breast's transformations
sometimes are lethal?
Now or later, what's the enormous difference?
If one day is good, is a day sufficient?
Is it fear of death with which I'm so eager
to live my life out
now and in its possible permutations
with the one I love? (Only four days later,
she was on a plane headed west across the
Atlantic, work-bound.)
Men and women, mortally wounded where we
love and nourish, dying at thirty, forty,
fifty, not on barricades, but in beds of
unfulfilled promise:
tell me, senators, what you call abnormal?
Each day's obits read as if there's a war on.
Fifty-eight-year-old poet dead of cancer:
warrior woman
laid down with the other warrior women.
Both times when the telephone rang, I answered,
wanting not to, knowing I had to answer,
go from two bodies'
infinite approach to a crest of pleasure
through the disembodied voice from a distance
saying one loved body was clay, one wave of
mind burst and broken.
Each time we went back to each other's hands and
mouths as to a requiem where the chorus
sings death with irrelevant and amazing
bodily music.
for Audre Lorde and Sonny Wainwright
Twice in my quickly disappearing forties
someone called while someone I loved and I were
making love to tell me another woman had died of cancer.
Seven years apart, and two different lovers:
underneath the numbers, how lives are braided,
how those women's death and lives, lived and died, were
interleaved also.
Does lip touch on lip a memento mori?
Does the blood-thrust nipple against its eager
mate recall, through lust, a breast's transformations
sometimes are lethal?
Now or later, what's the enormous difference?
If one day is good, is a day sufficient?
Is it fear of death with which I'm so eager
to live my life out
now and in its possible permutations
with the one I love? (Only four days later,
she was on a plane headed west across the
Atlantic, work-bound.)
Men and women, mortally wounded where we
love and nourish, dying at thirty, forty,
fifty, not on barricades, but in beds of
unfulfilled promise:
tell me, senators, what you call abnormal?
Each day's obits read as if there's a war on.
Fifty-eight-year-old poet dead of cancer:
warrior woman
laid down with the other warrior women.
Both times when the telephone rang, I answered,
wanting not to, knowing I had to answer,
go from two bodies'
infinite approach to a crest of pleasure
through the disembodied voice from a distance
saying one loved body was clay, one wave of
mind burst and broken.
Each time we went back to each other's hands and
mouths as to a requiem where the chorus
sings death with irrelevant and amazing
bodily music.
18/06/2013
Nudez
- João Ricardo Lopes
quatro traços entrecruzados no papel e eis o asterisco:
tão simples quanto isso.
nunca reparaste como pode ser belo um rabisco,
quando o desenhamos sem segundas intenções?
deitados na mesma cama, saciados pela mesma noite
que a seu bel-prazer nos acorda e adormece,
escutamos a serenata do vento e da chuva juntos
sobre o balbuciar da persiana
sim, também a mim apetece conversar um pouco,
dizer coisas que façam rir, segurar no ventre
a tua cabeça prolixa e sonhadora
gosto [murmuras] que me acaricies os seios,
me mordas, me beijes assim, assim, como quem cai
de muito alto
quatro braços entrecruzados de novo e eis o amor:
tão simples quanto isso, tão simples quanto a nudez
de um coração duplo que às escuras pulsasse
ainda mais fundo, ainda mais fundo, como o das estrelas,
a triliões de anos-luz
quatro traços entrecruzados no papel e eis o asterisco:
tão simples quanto isso.
nunca reparaste como pode ser belo um rabisco,
quando o desenhamos sem segundas intenções?
deitados na mesma cama, saciados pela mesma noite
que a seu bel-prazer nos acorda e adormece,
escutamos a serenata do vento e da chuva juntos
sobre o balbuciar da persiana
sim, também a mim apetece conversar um pouco,
dizer coisas que façam rir, segurar no ventre
a tua cabeça prolixa e sonhadora
gosto [murmuras] que me acaricies os seios,
me mordas, me beijes assim, assim, como quem cai
de muito alto
quatro braços entrecruzados de novo e eis o amor:
tão simples quanto isso, tão simples quanto a nudez
de um coração duplo que às escuras pulsasse
ainda mais fundo, ainda mais fundo, como o das estrelas,
a triliões de anos-luz
13/06/2013
Canção do Exílio
- Murilo Mendes
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá con certidão de idade!
Setembro
- Mário Botas
"Seldom we find" says Solomon Don Dance
"Half ann idea in the profoundest sonnet"
E.A.Poe
A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.
Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.
No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.
Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?
Para exemplo
- Paul Éluard
É certo que desde sempre
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Ouço-me e tu me ouves
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Ele precisa de ser um espelho
(Tradução de Egito Gonçalves)
É certo que desde sempre
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Ouço-me e tu me ouves
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Ele precisa de ser um espelho
(Tradução de Egito Gonçalves)
03/06/2013
Impermanência do caminho
- Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Ouvido por aí, não diga mais
Nos silêncios transita o ventre calma
Sem rumo, esgarçalham os trigais
Do sumido vertemos nus rescaldo
Turvo ruído que os abraçou
Na pressa dos ditos atropelados
Frevo tremido pelos passos moucos
Surdos ponteiros em brasa tornados
Provocados na trova do desgaste
Por enganos d'entre olhares tomam
Boas novas que a cidade alardeia
No suor infindo alma margeia
Por cada vão apelo um braço rôto
Troco perfis rasgados sob os astros
Ouvido por aí, não diga mais
Nos silêncios transita o ventre calma
Sem rumo, esgarçalham os trigais
Do sumido vertemos nus rescaldo
Turvo ruído que os abraçou
Na pressa dos ditos atropelados
Frevo tremido pelos passos moucos
Surdos ponteiros em brasa tornados
Provocados na trova do desgaste
Por enganos d'entre olhares tomam
Boas novas que a cidade alardeia
No suor infindo alma margeia
Por cada vão apelo um braço rôto
Troco perfis rasgados sob os astros
fôsses tu um grande espaço e eu tacteasse
- Herberto Hélder
fôsses tu um grande espaço e eu tacteasse
com todo o meu corpo sôfrego e cego
Madrugada
- Li Bai
Os campos frios embebendo-se em chuva recente,
as cores da Primavera espalhando-se por toda a parte,
os peixes saltitando no grande lago azul,
os tordos cantando nos pesados galhos verdes,
o pólen das flores salpicando-se de gotas de chuva,
a erva dos montes arqueando-se por igual, na cintura,
no rio, entre bambus, restos de névoa
afastando-se, levemente dispersos pela brisa.
(Tradução de António Graça de Abreu)
27/05/2013
Bebida
- Sylvia Beirute
bebo onde existe sede.
a mão arrefece com o peso da cabeça.
este silêncio resgata palavras
para além dos factos magros e esguios.
o meu sangue conhece o amor.
leio Östen Sjöstrand
lia Östen Sjöstrand há cinco minutos atrás.
alguém me chamou e tudo ficou diferente.
não digo que seja apenas este poema.
não é, claramente, apenas este poema.
bebo onde existe sede.
Pista do bem-te-vi, Urca
- Alberto Pucheu
Nos acostumamos
com os fragmentos
nas avenidas
mas no dia
de sol
quando
o universo
é um círculo azul
voltado para dentro
e as ondas
arrebentam na audição
iluminada
qual não é
a admiração
de um jovem
tranqüilo
nas margens
da águapor entre os dedos
escapa
a própria mão
(e os dedos).
por entre a mão
escapa
o próprio braço
(e a mão).
por entre o braço
escapa
o próprio corpo
(e o braço).
por entre o corpo
escapa
o próprio ar
(e o corpo).
por entre o ar
escapa
o próprio céu
(e o ar).
por entre o céu
escapa
a própria mão
(e os dedos).
Nos acostumamos
com os fragmentos
nas avenidas
mas no dia
de sol
quando
o universo
é um círculo azul
voltado para dentro
e as ondas
arrebentam na audição
iluminada
qual não é
a admiração
de um jovem
tranqüilo
nas margens
da águapor entre os dedos
escapa
a própria mão
(e os dedos).
por entre a mão
escapa
o próprio braço
(e a mão).
por entre o braço
escapa
o próprio corpo
(e o braço).
por entre o corpo
escapa
o próprio ar
(e o corpo).
por entre o ar
escapa
o próprio céu
(e o ar).
por entre o céu
escapa
a própria mão
(e os dedos).
Los pasos perdidos
- Alejandra Pizarnik
Antes fue una luz
en mi lenguaje nacido
a pocos pasos del amor.
Noche abierta. Noche presencia.
Antes fue una luz
en mi lenguaje nacido
a pocos pasos del amor.
Noche abierta. Noche presencia.
A Árvore
- Leonardo Ferrari
Ah! Foi quando eu vagava pelos cantos
Profundos e ocultos da mente humana
Que eu contemplei aquela imagem insana,
Que me sitiou com todos seus encantos.
Uma árvore se exibia, soberana:
Ostentava suas folhas como mantos,
Sob o orvalho qual pérolas de prantos
Da agonia que precede o nirvana;
Seu tronco nu, delgado e delicado,
Sobre a pétrea desolação terrestre
Erguia-se num floreio descuidado.
É a vida humana essa árvore impossível!
Qualquer dificuldade que se orquestre,
Ela triunfa bela e invencível.
Ah! Foi quando eu vagava pelos cantos
Profundos e ocultos da mente humana
Que eu contemplei aquela imagem insana,
Que me sitiou com todos seus encantos.
Uma árvore se exibia, soberana:
Ostentava suas folhas como mantos,
Sob o orvalho qual pérolas de prantos
Da agonia que precede o nirvana;
Seu tronco nu, delgado e delicado,
Sobre a pétrea desolação terrestre
Erguia-se num floreio descuidado.
É a vida humana essa árvore impossível!
Qualquer dificuldade que se orquestre,
Ela triunfa bela e invencível.
22/05/2013
Vinte anos depois
- Vajda János
(No álbum de Gina)
Qual gelo nos picos do Monte Branco,
que não dana nem sol, nem sequer vento,
não arde meu coração, em descanso;
não vivo da paixão novo tormento.
Miríades de estrelas ao redor
de mim brilham, à porfia, coquetes,
sobre mim lançam raios; mas nem por
isso de novo quem eu sou derrete.
Às vezes, na silente madrugada,
acordando, sozinho, se define,
no lago fantástico da passada
juventude, tua imagem de cisne.
E, então, meu coração doura já,
como, nas longas noites de Inverno,
quando sol nascente rompe acolá,
no Monte Branco essa neve eterna.
(Tradução de Ernesto Rodrigues)
El Alba
- José Gorostiza
El paisaje marino
en pesados colores se dibuja.
Duermen las cosas. Al salir, el alba
parece sobre el mar una burbuja.
Y la vida es apenas
un milagroso reposar de barcas
en la blanda quietud de las arenas
El paisaje marino
en pesados colores se dibuja.
Duermen las cosas. Al salir, el alba
parece sobre el mar una burbuja.
Y la vida es apenas
un milagroso reposar de barcas
en la blanda quietud de las arenas
A Poem for Painters
- John Wieners
Our age bereft of nobility
How can our faces show it?
I look for love.
My lips stand out
dry and cracked with want
of it.
Oh it is well.
My poem shall show the need for it.
Again we go driven by forces
we have no control over. Only
in the poem
comes an image that we rule
the line by the pen
in the painter’s hand one foot
away from me.
Drawing the face
and its torture.
That is why no one dares tackle it.
Held as they are in the hands
of forces they
cannot understand.
That despair
is on my face and shall show
in the fine lines of any man.
I had love once in the palm of my hand.
See the lines there.
How we played
its game, are playing now
in the bounds of white and heartless fields.
Fall down on my head, love,
drench my flesh in the streams
of fine sprays. Like
French perfume
so that I light up as
mountain glorys
and I am showered by the scent
of the finished line.
No circles
but that two parallels do cross
And carry our souls and bodies
together as the planets,
Showing light on the surface
of our skin, knowing
that so much of it flows through
the veins underneath.
Our cheeks puffed with it.
The pockets full.
2.
Pushed on by the incompletion
of what goes before me
I hesitate before this paper
scratching for the right words.
Paul Klee scratched for seven years
on smoked glass, to develop
his line, LaVigne says, look
at his face! he who has spent
all night drawing mine.
The sun also
rises on the rooftops, beginning
w/ violet. I begin in blue
knowing why we are cool.
3.
My middle name is Joseph and I
walk beside an ass on the way to what
Bethlehem, where a new babe is born.
Not the second hand of Yeats but
first prints on a cloudy windowpane.
America, you boil over
4.
The cauldron scalds.
Flesh is scarred.
Eyes shot.
The street aswarm with
vipers and heavy armed bandits.
There are bandages on the wounds
but blood flows unabated. The bath-
rooms are full. Oh stop up
the drains.
We are run over.
5.
Let me ramble here.
yet stay within my own yardlines.
I go out of bounds
without defense,
oh attack.
6.
At last the game is over
and the line lengthens.
Let us stay with what we know.
That love is my strength, that
I am overpowered by it:
desire
that too
is on the face: gone stale.
When green was the bed my love
and I laid down upon.
Such it is, heart’s complaint,
You hear upon a day in June.
And I see no end in view
when summer goes, as it will,
upon the roads, like singing
companions across the land.
Go with it man, if you must,
but leave us markers on your way.
South of Mission, Seattle,
over the Sierra Mountains,
the Middle West and Michigan,
moving east again, easy
coming into Chicago and
the cattle country, calling
to each other over canyons,
careful not to be caught
at night, they are still out,
the destroyers, and down
into the South, familiar land,
lush places, blue mountains
of Carolina, into Black Mountain
and you can sleep out, or
straight across into States
I cannot think of their names.
This nation is so large, like
our hands, our love it lives
with no lover, looking only
for the beloved, back home
into the heart, New York,
New England, Vermont green
mountains, and Massachusetts
my city, Boston and the sea.
Again to smell what this calm
ocean cannot tell us. The seasons.
Only the heart remembers
and records in words
of works
we lay down for those men
who can come to them.
7.
At last. I come to the last defense.
My poems contain no
wilde beestes, no
lady of the lake music
of the spheres, or organ chants,
yet by these lines
I betray what little given me.
One needs no defense.
Only the score of a man’s
struggle to stay with
what is his own, what
lies within him to do.
Without which is nothing,
for him or those who hear him
And I come to this,
knowing the waste, leaving
the rest up to love
and its twisted faces
my hands claw out at
only to draw back from the
blood already running there.
Oh come back, whatever heart
you have left. It is my life
you save. The poem is done.
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