- rui costa
1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.
[breve ensaio sobre a potência - texto-ensaio composto por 31 fragmentos]
24/08/2018
20/08/2018
quando os cavalos mergulhadores são obrigados
- Maíra Ferreira
(para Danielle Magalhães)
a mergulhar eu li
que para que eles não fujam e não desistam
na hora h
o chão lá de cima se abre sozinho
de forma que não há outra saída
a não ser descer e entrar de cabeça
na água lá embaixo
e é só assim que os cavalos mergulhadores não
desistem nem recuam nem mudam de ideia
porque na verdade eles não sabem
que estão prestes a cair
eles não sabem que serão jogados de tão alto
encurralados em uma situação onde
não existe retorno não existe
plano b exceto abraçar a queda agora
já que ela está aqui e exige
ser experimentada
e eu pensei que se eu fosse um cavalo
e fizessem isso comigo da próxima vez eu
é que não subiria as escadas
eu é que não pisaria lá em cima de novo
sabendo que mais uma vez o chão
poderia se abrir e eu mais uma vez
seria obrigado a saltar
talvez os cavalos sejam inocentes e não
pensem que se um homem fez uma coisa uma vez
ele vai fazer outras vezes também talvez os cavalos
sejam benevolentes e queiram dar novas
chances aos homens ainda que eles não mereçam
e continuem jogando os pobres cavalos
lá de cima
para boca do mar
na verdade pensando bem eu também
não sei se eu li isso ou se imaginei quando
vi a fotografia de um cavalo saltando
e concluí que não haveria motivo pra um cavalo
saltar de bom grado espontaneamente
os cavalos não são suicidas como nós somos
os cavalos têm algo incrível chamado
instinto de preservação
então a não ser que fossem obrigados não saltariam
os cavalos mergulhadores querem ser só cavalos
foi o que eu pensei
eles querem ser só cavalos
no chão onde podem segurar a vida com os cascos
potentes e exercer suas habilidades de galopar em alta velocidade
mas talvez eu é que não entenda nada
de cavalos e de saltos
e talvez haja saltos que não são suicidas
talvez os cavalos entendam alguma coisa
lá em cima e saltem mesmo porque querem
porque o chão não é o bastante para os seus
cascos potentes e suas habilidades de galopar em alta velocidade
talvez eu devesse ser mais como os cavalos
mergulhadores e me lançar de alturas inconciliáveis
para tentar entender
alguma coisa
que o chão não permite
que eu entenda
06/08/2018
Dora
- Jarid Arraes
nunca esqueço de Dora
de sua paralisia
sua cegueira
sua oposição transformada
em patologia
como os homens
amam os códigos
que catalogam a loucura
feminina
e distribuem sintomas
por cima dos
hematomas
e taças de sangria
em suas camas
forradas com mentiras
e blocos de papel
onde escrevem cárceres
onde descrevem leitos
onde Dora e eu e todas
nós
devemos deitar
em espera
nunca esqueço do caso
de Dora
da coragem sufocada
por mãos livros
por páginas
escritas por homens
como ele
com números que são
camisolas
à força
e que mais cedo ou
mais tarde
acabamos por vestir
porque em seus blocos
camas poltronas
em seus estetoscópios
eles escutam
a rebeldia
porque Dora e eu e todas
nós
nos fazemos
ouvir
nunca esqueço de Dora
de sua paralisia
sua cegueira
sua oposição transformada
em patologia
como os homens
amam os códigos
que catalogam a loucura
feminina
e distribuem sintomas
por cima dos
hematomas
e taças de sangria
em suas camas
forradas com mentiras
e blocos de papel
onde escrevem cárceres
onde descrevem leitos
onde Dora e eu e todas
nós
devemos deitar
em espera
nunca esqueço do caso
de Dora
da coragem sufocada
por mãos livros
por páginas
escritas por homens
como ele
com números que são
camisolas
à força
e que mais cedo ou
mais tarde
acabamos por vestir
porque em seus blocos
camas poltronas
em seus estetoscópios
eles escutam
a rebeldia
porque Dora e eu e todas
nós
nos fazemos
ouvir
todos os meus amigos estão tendo crise de ansiedade
- Danielle Magalhães
todos os meus amigos estão tendo crise de ansiedade
o caio foi parar na emergência
a ana está com psoríase na perna
a camila não para de andar
de um lado pro outro
dentro de casa
o corpo vai ficando todo
dormente ela diz que sente dor
depois vai parando de sentir
os dedos os lábios o
corpo a nati diz que nunca teve
mas diz que tem
outros transtornos possíveis
a bela tá sempre feliz
a bela não diz
mas um dia a bela
escreveu não vou sair porque
suor chorar dormir
a bela diz
três pontinhos
a mariana perde a fome
e eu não paro de comer
e de beber tudo anda caindo
menos o capital
obrigada por sempre deixar
a jujuba vermelha para mim
virou o meu modo de dizer
eu te amo meu estômago
vive eternamente em um pós-guerra
o mundo tá chato pra caramba
e todos vivemos tocando
a rolagem do teclado
como se estivéssemos
fazendo gozar
todas as bucetas do mundo
só que não
todos estamos só olhando
a nossa linha do tempo
como se uma coisa muito importante
fosse acontecer a qualquer momento
umas quatro crianças estão para nascer
os 23 manifestantes foram condenados
foi sentenciado
há tudo de novo no front
e mais nada nas mãos
o caio segura o peito
como se fosse enfartar
na foto ele ri ao mesmo tempo
a câmera do celular não sabe
que essa será a fotografia da minha geração
no exame a médica me diz
seu nervo tem uma cicatriz antiga
doutora eu nem sabia
que nervo tinha cicatriz
agora eu sei que ela começou antes
do tal do Baudelaire
chamar a modernidade
de reservatório de eletricidade
o que pulsa hoje doutora
não é o nervo
é a cicatriz atravessada na linha
de todas as nossas jugulares
todos os meus amigos estão tendo crise de ansiedade
o caio foi parar na emergência
a ana está com psoríase na perna
a camila não para de andar
de um lado pro outro
dentro de casa
o corpo vai ficando todo
dormente ela diz que sente dor
depois vai parando de sentir
os dedos os lábios o
corpo a nati diz que nunca teve
mas diz que tem
outros transtornos possíveis
a bela tá sempre feliz
a bela não diz
mas um dia a bela
escreveu não vou sair porque
suor chorar dormir
a bela diz
três pontinhos
a mariana perde a fome
e eu não paro de comer
e de beber tudo anda caindo
menos o capital
obrigada por sempre deixar
a jujuba vermelha para mim
virou o meu modo de dizer
eu te amo meu estômago
vive eternamente em um pós-guerra
o mundo tá chato pra caramba
e todos vivemos tocando
a rolagem do teclado
como se estivéssemos
fazendo gozar
todas as bucetas do mundo
só que não
todos estamos só olhando
a nossa linha do tempo
como se uma coisa muito importante
fosse acontecer a qualquer momento
umas quatro crianças estão para nascer
os 23 manifestantes foram condenados
foi sentenciado
há tudo de novo no front
e mais nada nas mãos
o caio segura o peito
como se fosse enfartar
na foto ele ri ao mesmo tempo
a câmera do celular não sabe
que essa será a fotografia da minha geração
no exame a médica me diz
seu nervo tem uma cicatriz antiga
doutora eu nem sabia
que nervo tinha cicatriz
agora eu sei que ela começou antes
do tal do Baudelaire
chamar a modernidade
de reservatório de eletricidade
o que pulsa hoje doutora
não é o nervo
é a cicatriz atravessada na linha
de todas as nossas jugulares
Objetos
- Augusto Guimaraens Cavalcanti
Nenhuma consolação nas formas
já não é claro o enigma das palavras
os objetos sempre excedem os nomes
Objetos recobertos de conceitos passam
de mão em mão sem pertencer a ninguém
– fria é a gramática provisória de suas mobílias nomeadas
Quando o silêncio se cobre de signos
objetos (supostamente inanimados) forjam para si
outros diálogos de incomunicabilidades
Desparafusadas as máquinas de produzir novidades,
objetos podem ser soldados ao ouro rude de nomes
transbordados no metal de outros nomes
Pelas bordas de uma mesma lâmina
áspera geografia de pulsação mineral
palavra polida pela pedra
Certos objetos sustentam uma pedra na cabeça
como se deslocassem um sol apagado
– objetos cada vez mais estranhos carregam
a cicatriz do inominável
Nenhuma consolação nas formas
já não é claro o enigma das palavras
os objetos sempre excedem os nomes
Objetos recobertos de conceitos passam
de mão em mão sem pertencer a ninguém
– fria é a gramática provisória de suas mobílias nomeadas
Quando o silêncio se cobre de signos
objetos (supostamente inanimados) forjam para si
outros diálogos de incomunicabilidades
Desparafusadas as máquinas de produzir novidades,
objetos podem ser soldados ao ouro rude de nomes
transbordados no metal de outros nomes
Pelas bordas de uma mesma lâmina
áspera geografia de pulsação mineral
palavra polida pela pedra
Certos objetos sustentam uma pedra na cabeça
como se deslocassem um sol apagado
– objetos cada vez mais estranhos carregam
a cicatriz do inominável
01/08/2018
Lugar onde
- Ruy Belo
Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria, de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
Solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca
Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria, de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
Solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca
Trajeto
- Micheliny Verunschk
Maçã.
Velhos que se falam
em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.
Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca,
O o rio prenhe de embalagens coloridas,
o meu pai
me acenando noutra plataforma.
A casa rosa
com platibanda branca,
Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema,
asua perda.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema,
a
Velocidade em espiral:
perfume barato,
a casa rosa,
crianças brincando num quintal,
camiseta vermelha,
a minha vida num quadrado mágico.
perfume barato,
a casa rosa,
crianças brincando num quintal,
a minha vida num quadrado mágico.
Velocidade em espiral:
a língua dissoluta,
o filho morto da minha avó
na próxima estação,
a minha avó,
arames farpados nos muros,
como trepadeiras,
(o burburinho do trem).
a língua dissoluta,
o filho morto da minha avó
na próxima estação,
a minha avó,
arames farpados nos muros,
como trepadeiras,
Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema.
os nervos expostosdo poema..
Poema.
Uma caixa de madeiraordinária
forrada de flores
e tecidode algodão ordinário.
Auma fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
os nervos expostos
Poema.
Uma caixa de madeira
forrada de flores
e tecido
A
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.
Velocidade descendente:
O amigo sem o nó na garganta,
o amigo luminoso horas antes,
o amigo dançando na memóriano meu sonho.
O amigo sem o nó na garganta,
o amigo luminoso horas antes,
o amigo dançando na memória
Velocidade descendente:
A sua pele sobre a minha pele,
os seus cabelos alinhavados aos meus,
a cicatriz me atravessando.
A sua pele sobre a minha pele,
os seus cabelos alinhavados aos meus,
a cicatriz me atravessando.
O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perdado poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda
O meu avô na outra margem.
O meu pai na outra margem.
Eu.
A cidade cinza,
contra o verde quase impossível
a mulher grávida
andando por sobre o lixão,
A a lua, como o sorriso doe um gato.
O meu pai na outra margem.
Eu.
A cidade cinza,
a mulher grávida
andando por sobre o lixão,
Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,
viVisão do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,
num livro muito velho.
Aceleração.
Desaceleração.
Repouso.
Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.
anatomia das pálpebras
- Marcelo Reis de Mello
para a Luiza
fechar os olhos
não é fabricar timidamente
a noite.
abri-los ainda não é
encarar de frente
o fogo.
apenas a primeira camada
das pálpebras
é feita de pele
e só quando se estanca
entre a pele e o coração
qualquer desnível
é porque se abriram
dentro
ou sobre as quais
(embora tão finas)
um pouco de músculo
e tecido laxo
glândulas, inervações
+ 150 cílios
contra a tempestade.
há coisas entre ver
e não ver
que não conhecemos
por mais de uma noite
através da qual tudo parece possível.
em anos terríveis
como este
que se acabam como se nascessem
de novo e de novo
damo-nos conta
de que olhar
tem a ver
também
(ou sobretudo)
com o tempo.
o tempo que como os olhos
só se mostra em superfície
esconde fissuras
fossas canais
e toda a estranha maquinaria
das lágrimas.
as horas podem ser
uma exalação oftálmica.
o corpo transpira oxímoros:
a pele que somos
é a pele mais nova.
ainda assim, Nava
dizia – o espelho da memória.
e não há nada mais profundo
do que os olhos
de um bebê.
contar ponteiros
- Carla Diacov
Uma mancha como que feita a giz por uma mão de criança uma árvore tombada no céu de Osíris. Uma mancha como que feita à revelia do tempo descascada a tinta uma criança tombada num peito. Uma mancha como que desfeita um desfecho incrível uma sombra um relógio um galho um raio de sol à revelia da criança. Osíris Osíris um desespero um passo atrás um contento. A mancha. Um conjunto de crianças arriscadas.
Uma longa mesa uma bacia com frutas um amor e o teu amor. Uma bacia cansada um amor espalhado pela longa mesa com frutas teu amor inalcançável. Um braço estirado sobre a longa data uma bacia de outros tempos (quase todos frescos e sem sementes) a mesa tatuada no braço um amor com moscas nele. Uma árvore que se deitou com outra árvore um amor que ainda não um amor que desde a primeira luta entre homens entre jacarés umas frutas pisoteadas e mais um amor. Um instrumento musical sobre a longa mesa.
A cama a medida do casamento a cama. A cama o corredor o vulto o outro vulto e uma posta de baleia no criado mudo. A cama o rabo da baleia para fora da gaveta de cuecas o vulto primeiro. A ordem dos vultos um vulto o vulto o rastro da baleia no corredor. A cama a desordem das medidas o casal de vultos desonestos. O segundo vulto com o rabo para fora da cama da janela. O grito da baleia o grito do vulto segundo o grito da madeira o grito da gaveta dos tacos do piso do estrado do beiral. O grito a medida do casamento o grito uma baleia desonesta.
Uma jovem uma dança o silêncio dançado um coelho e um útero atrasados. O arrasto contrário dos passos dela. Um vestido muito largo o espaço entre o tecido e o couro com silêncio nele. Um braço tatuado numa tomada da pequena memória. Um braço que cobre parte do rosto com sardas numa tomada da pequena memória. Medir com a água qualquer tipo de atraso. Medir com guerras qualquer suspeita de amor. Medir com medos qualquer ameaça de flor.
Um homem um copo a postura de recolhimento um urso pardo um pente de casco de tartaruga. Um copo quase cheio um rapaz a postura de enfrentamento um urso polar um pente de casco de tartaruga. Um urso empalhado um copo tombado um atalho no chão um menino despenteado a primeira postura dissidente.
Um idoso uma criança uma criança idosa uma onça e uma xícara com leite com azeite. Um cachorro velho uma mulher barriguda uma barriga por etapas uma onça e uma xícara com água com azeite. Um carteiro um menino que quer ser carteiro velho uma menina desajeitada uma onça e uma xícara com nanquim com azeite. Uma onça uma onça idosa uma onça barriguda e uma xícara com os restos do relógio de pulso com azeite.
Os figos
- Estela Rosa
Sylvia Plath diz que é preciso
escolher um figo
Mas eu estranho
fico cabreira
Nunca soube escolher figos
Na minha época de pequena
havia a figueira centenária
da minha mãe
Bastava florescer e começava a guerra
A disputa, de início
era eu e minha mãe
verde e maduro
[Antes de madurarem figos viram compotas]
Por meus olhos úmidos
e pela glicose alta
minha mãe desistia dos figos
[Figos nunca foram uma questão de escolha]
E aí mais uma batalha
Os sanhaços
tão azuis, tão bonitos
me carregavam de culpa
Feito pequenas máquinas de devorar
eles escolhiam todos os figos
e eu qualquer figo maduro
Sem poder de escolha
eu defendia os sobreviventes
As armas eram
restos de tecido
retalhos costurados
bicos potentes
lanças na cara
No fim das contas,
as máquinas sempre vencem
e me restava só um figo
O que sobrava.
Então, Sylvia
nunca escolhi meu figo
minha escolha, silenciosa,
sempre foi desistir dos figos.
É que pra alguns, querida,
o que importa mesmo
é a batalha.
Sylvia Plath diz que é preciso
escolher um figo
Mas eu estranho
fico cabreira
Nunca soube escolher figos
Na minha época de pequena
havia a figueira centenária
da minha mãe
Bastava florescer e começava a guerra
A disputa, de início
era eu e minha mãe
verde e maduro
[Antes de madurarem figos viram compotas]
Por meus olhos úmidos
e pela glicose alta
minha mãe desistia dos figos
[Figos nunca foram uma questão de escolha]
E aí mais uma batalha
Os sanhaços
tão azuis, tão bonitos
me carregavam de culpa
Feito pequenas máquinas de devorar
eles escolhiam todos os figos
e eu qualquer figo maduro
Sem poder de escolha
eu defendia os sobreviventes
As armas eram
restos de tecido
retalhos costurados
bicos potentes
lanças na cara
No fim das contas,
as máquinas sempre vencem
e me restava só um figo
O que sobrava.
Então, Sylvia
nunca escolhi meu figo
minha escolha, silenciosa,
sempre foi desistir dos figos.
É que pra alguns, querida,
o que importa mesmo
é a batalha.
Fiquei tanto tempo longe de casa
- Dimitri BR
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem reconheço a casa ao chegar
e as outras casas
as mesmas ruas
o mesmo jardim
E o sentimento estranho
de todo viajante ao chegar
este lugar não é mais o mesmo
este lugar não é mais o mesmo pra mim
Só os mesmos rostos de onde eu vim
roupa suja na bagagem
e a vida pra retomar
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei mais de que lado está
do lado de dentro
ao lado da estrada
que nunca cruzei
Persiste em mim a alegria
certeza de toda chegada
e a tristeza da despedida
a tristeza da despedida, eu sei
Isso é quase tudo o que eu guardei
é o que levo na bagagem
e a vida
pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está
não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei se saí mesmo do lugar
um lugar
depois do outro
saindo de mim
Um dia eu saio sem rumo, eu sumo
poeira de estrada
vou partir, vou chegar
vou partir, vou chegar enfim
Não há fim – mas vou até o fim
levo o tempo na bagagem
e a vida
pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está
não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?
Fiquei tanto tempo longe de casa
Penso em tudo que como eu não vai voltar
e nas pessoas que vêm e vão
nas pessoas que vêm e vão voltar
Sempre o pôr-do-sol em algum lugar
é o nascer do sol noutro lugar
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem reconheço a casa ao chegar
e as outras casas
as mesmas ruas
o mesmo jardim
E o sentimento estranho
de todo viajante ao chegar
este lugar não é mais o mesmo
este lugar não é mais o mesmo pra mim
Só os mesmos rostos de onde eu vim
roupa suja na bagagem
e a vida pra retomar
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei mais de que lado está
do lado de dentro
ao lado da estrada
que nunca cruzei
Persiste em mim a alegria
certeza de toda chegada
e a tristeza da despedida
a tristeza da despedida, eu sei
Isso é quase tudo o que eu guardei
é o que levo na bagagem
e a vida
pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está
não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?
Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei se saí mesmo do lugar
um lugar
depois do outro
saindo de mim
Um dia eu saio sem rumo, eu sumo
poeira de estrada
vou partir, vou chegar
vou partir, vou chegar enfim
Não há fim – mas vou até o fim
levo o tempo na bagagem
e a vida
pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está
não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?
Fiquei tanto tempo longe de casa
Penso em tudo que como eu não vai voltar
e nas pessoas que vêm e vão
nas pessoas que vêm e vão voltar
Sempre o pôr-do-sol em algum lugar
é o nascer do sol noutro lugar
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