- Marcelo Reis de Mello
para a Luiza
fechar os olhos
não é fabricar timidamente
a noite.
abri-los ainda não é
encarar de frente
o fogo.
apenas a primeira camada
das pálpebras
é feita de pele
e só quando se estanca
entre a pele e o coração
qualquer desnível
é porque se abriram
dentro
ou sobre as quais
(embora tão finas)
um pouco de músculo
e tecido laxo
glândulas, inervações
+ 150 cílios
contra a tempestade.
há coisas entre ver
e não ver
que não conhecemos
por mais de uma noite
através da qual tudo parece possível.
em anos terríveis
como este
que se acabam como se nascessem
de novo e de novo
damo-nos conta
de que olhar
tem a ver
também
(ou sobretudo)
com o tempo.
o tempo que como os olhos
só se mostra em superfície
esconde fissuras
fossas canais
e toda a estranha maquinaria
das lágrimas.
as horas podem ser
uma exalação oftálmica.
o corpo transpira oxímoros:
a pele que somos
é a pele mais nova.
ainda assim, Nava
dizia – o espelho da memória.
e não há nada mais profundo
do que os olhos
de um bebê.