01/08/2018

Trajeto

-  Micheliny Verunschk

Maçã.
Velhos que se falam
em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.
Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca,
O o rio prenhe de embalagens coloridas,
o meu pai
me acenando noutra plataforma.
Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema,
sua perda.
Velocidade em espiral:
perfume barato,
a casa rosa,
crianças brincando num quintal,
camiseta vermelha, 
a minha vida num quadrado mágico.
Velocidade em espiral:
a língua dissoluta,
o filho morto da minha avó
na próxima estação,
a minha avó,
arames farpados nos muros,
como trepadeiras,
(o burburinho do trem).
Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema.
os nervos expostos do poema..
Poema.
Uma caixa de madeira ordinária
forrada de flores
e tecido de algodão ordinário.
uma fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.
Velocidade descendente:
O amigo sem o nó na garganta,
o amigo luminoso horas antes,
o amigo dançando na memória no meu sonho.
Velocidade descendente:
A sua pele sobre a minha pele,
os seus cabelos alinhavados aos meus,
a cicatriz me atravessando.
O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda do poema.
O meu avô na outra margem.
O meu pai na outra margem.
Eu.
A cidade cinza,
contra o verde quase impossível
a mulher grávida
andando por sobre o lixão,
A a lua, como o sorriso doe um gato.
Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,
viVisão do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.
Aceleração.
Desaceleração.
Repouso.
Tudo parando.
Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.