31/12/2012

A Ceramista


- Ana Rüsche



                                        Trago comigo coisas abandonadas.
                                        Coisas que os homens jogaram fora:
                                        placentas, gânglios, guirlandas, guelras.
                                                   Marize Castro, "Muralha"

              a partir de Concha e Aurora,
              criações de Ângela Barros e Alberto Guzik


agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável

escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada

no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas

e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica

e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro

05/12/2012

A saga


-  Enre


O doutor disse:
viver é negócio muito perigoso,
a gente morre para provar que viveu.

Ela respirou com os pés no meio-fio
e as mãos contra o sol
cega de ruas e muros.
Era humana
sólida e precária.

Ele, incorpóreo e eterno,
regurgitou o temor dizendo:
perigoso é não viveres
antes que a morte
te deixe encantada.

Ele, o tempo.

02/12/2012

Petróleo


-  Joana Corona


sombra:
carne incorpórea colada no tempo.
corpo imaterial, ou a fisicalidade do ausente.
o negativo de uma materialidade anterior –
silhueta de fumaça na parede branca.

(o que se fotografa são fantasmas)

eu sou o livro-fogo que queima, negro.

estive sempre aqui (mas isso não é visível).
agora há o resquício,
e há também a imagem que me cria,
para que eu siga sendo
este outro.

agora sou um traço de pólvora.
 a fotografia-fuligem, a imagem-pó –

o livro-espectro.

É muito claro


-  Ana Cristina Cesar


é muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama

01/12/2012

Pernalonga


-  Max Czollek


há quem conte histórias
sobre a constelação
de seus cadarços soltos

para que você
desate o braço
nos dias ruins

quando alguém pede
que identifique corpos
que outrora amou

ultrapassa o precipício
e despenca primeiro só
quando percebe o erro.


(Tradução de Ricardo Domeneck)

29/11/2012

Visita-me enquanto não envelheço


-  Al Berto


visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem.

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

28/11/2012

Finis


-  Casimiro de Brito


Se antes de abrir a boca
Já está tudo dito
Deverei abrir a boca?


Enredar-me nas águas
Se o mar consome as areias por toda a parte?


Levantar-me alucinado
Se as nuvens apagam o fogo
Mais cedo ou mais tarde?


Se não há nada para dizer
Onde se acumulam as palavras
Que não foram ditas?

Evadir-me, esquecer-me


-  Sophia de Mello Breyner Andresen


Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.


Arte poética


-  Jorge Luís Borges



Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.




27/11/2012

Netuno


-  Simone de Andrade Neves

Crê e trilhas, 
insólitos anéis, 
luas diversas. 

Adagas sustentam 
frágeis 
estalactites. 

Entre o gélido 
e os ventos 
o corpo filtra: 
o meio. 

Nem grande, 
nem pequeno, 

nem perto, 
nem longe, 

o mais pesado: 
o centro. 

26/11/2012

O sorriso

-  Eugénio de Andrade



Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.





 

19/11/2012

Cinco breves poesias


-  Sandro Penna



1
Talvez a juventude seja isto:
sem arrependimento amar sempre os sentidos.

2
Este corpo que aperto (e me aperta!)
tem um sabor de estrelas e de lodo.
E eu não sei quem agora me tinge
(profundíssimo jogo) de vermelho
as estrelas.

3
Era no cinema, onde as portas
se abrem e fecham continuamente.
Àquele rumor ela pensou
que ele voltasse;
mas não voltou.

4
Fazer do verde prado
um jogo proibido.
Já o tenho tentado.
Sem o conseguir.

5
«Poeta exclusivo do amor»
me chamaram. E era talvez certo.
Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores
da cidade longínqua
não são eles também amor?
Sob nuvens quentes
não são ainda o som
de um amor que arde
e não mais se afasta?



(Tradução de David Mourão Ferreira)

11/11/2012

Pinheiros

-  Maria Rita Kehl


Poderia, digamos
não ser hoje.
Podia não ser agora
                        nem aqui.
O ar é grávido de possibilidades
e de cheiros; nessas coisas
ninguém é dono do próprio nariz.

Essa tarde, por exemplo
merece um sorvete
saudadndo o fim da chuva de verão.

Mas então          eu teria
                          nove anos
                          sandálias havaianas
e o bonde subindo a rua
             Theodoro Sampaio

06/11/2012

Os mortos e suas crianças


-   Benjamin Péret


Se eu fosse alguma coisa
não alguém
diria aos filhos de Édouard
providenciem
e se eles não providenciassem
eu iria para a floresta dos reis magos
sem galochas e sem ceroulas
como um eremita
e haveria certamente um grande animal
sem dentes
com plumas
e redondo como um vitelo
que viria uma noite devorar minhas orelhas
Então deus me diria
você é um santo entre os santos
pegue este automóvel
O automóvel seria sensacional
oito cilindros e dois motores
e no centro uma bananeira
que camuflaria Adão e Eva
fazendo

mas isso será objeto de outro poema

(Tradução de Laura Erber)

04/11/2012

Fixações


- Luis Muñoz


Telefona-me à meia-noite.
Escuto o lamber do vento
através do telefone, como um cachorro ansioso,
e a sua voz transparente na cabina.
Há em frente ─  diz-me ─
um armazém de chapa
com forma de garrafa,
um terreno com escombros
branqueados de gesso,
umas casas cúbicas como dados sem uso
e três ou quatro pinheiros calcinados
da cor do remorso.
Estas poucas imagens
fixam-me à sua ausência
como devem fixá-lo ao facto de estar só.
No meu quarto de livros clareados
pela luz de moeda da lua,
provoca uma pontada:
─  Estou atrás de ti ─  diz-me ─
e em redor de tudo isto.


(Tradução Joaquim Manuel Magalhães)

Nostalgia


-  gil t. sousa


o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória

o amor
como um obediente
braço quebrado

reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido

e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas

suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

Distribuição do tempo

-   Julio Cortázar




Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez são mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.

(Tradução de Jorge Henrique Bastos)

26/10/2012

Na sombra das coisas


-  Adonis


Gosto de ficar na sombra das coisas
no segredo delas, gosto
de entranhar a criação
de vagar como as ideias
como a arte que se estranha
e, incerto, incauto
renasço a cada dia.

(Tradução de Michel Sleiman)

25/10/2012

Explico-te...

-  Eucanaã Ferraz


Explico-te
o que é um eclipse:

dois navios, maralto,
miram-se no rosto

um do outro, de um modo que
já não sabem, ao certo, o que são:

se dois homens,
se duas mulheres,

se dois sóis ou duas conchas
que se abrissem

para tecer com a saliva
uma da outra

a árvore rara do instante,
que não vive mais que

o tempo estreito de um laço
perfeito entre dois

touros ou duas flores,
entre dois lugares

retornados ao um.

Song For Ishtar


-  Denise Levertov


The moon is a sow 
and grunts in my throat 
Her great shining shines through me 
so the mud of my hollow gleams 
and breaks in silver bubbles 


She is a sow 
and I a pig and a poet 


When she opens her white 
lips to devour me I bite back 
and laughter rocks the moon 


In the black of desire 
we rock and grunt, grunt and 
shine 

02/10/2012

Time will come

-  Robinson Jeffers


Time will come, no doubt,
when the sun too shall die; the planets will freeze,
and the air on them;
frozen gases, white flakes of air
will be the dust:
which no wind ever will stir; this very dust in dim
starlight glistening
is dead wind, the white corpse of wind.
Also the galaxy will die; the glitter of the Milky Way,
our universe, all the stars that have names are dead.
Vast is the night. How you have grown, dear night,
walking your empty halls, how tall!

26/09/2012

Peinture

-   Michel Butor



              ...qui se soulève... bat... dans le sommeil... silencieusement les marches... le violoncelle... du port réservé au millieu... maintient à l'écart... de la roseraie... l'orge... on est en train de dresser... violet... une tente... sylvestre... céleste... rêveur... le tendre qui donne son masque... la lune... de plumes... passe entre les nuages... lentement... l'ombrelle...





Une main aux ongles rubis,
                tenant un éventail,
fait un signe aux Voix qui hésident
                entre les Larmes et les Temps.
Les Lointains s'enfoncent dans l'ombre
                où il semble que ce soit désert
alors que les Torrents y appellent doucement :
                Ô Occidentale... 
Rayons.
                 Souple... 
Les Nues maintenant
                 hésitent
entre le Soir et les Larmes.






fugues
                                irrésistible déchirante
fulgurations frimas
                                inlassable
terreurs éraflures guitare
                hélice hardiesse hantise harmonie
                voix






Fier Aquilon,
               horreur de la Scynthie...
Quelqu'un respire dans ce taillis,
               sous le soleil entre les branches.
Le chasse-nue et l'ébranle-rocher...
               Les voyages
donnent aux Chants leur masque
               et restent
immobiles.
               Brûlante...
Les Fureurs entraînent lestement les Ondes
               à l'écart
dans les rayons.
               Ô Nordique...






gueule erseaux nuées halage
                praires voyages
                enfantements embrassements emblèmes empressements
                émotions fréquences lointains
                                brûlante occidentale amoureuse
temps éraillures guet
                                nordique révolue
fusions frissons
fuselages
                flûtiste frémissements obscurité
                narines hippogriffes
                hivers





Les Frondaisons appellent
                très doucement :
Ô Méridional...
                L'eau très claire
bat
                silencieusement
les marches du port
                réservé.
L'irrite-mer
                et qui fais approcher...
Rayons.
                J'ose...
Le soleil.
                Ô golfes...
Les Orgues prennent par la main les Fumées
                pour venir saluer les Nues.






                fumets
                gigues pourpre
                nébuleuse ondes fable
faïence
orage oupille
                               ô oriental
ordalies nuées prudence
                               somptuex flûtiste
                plumes torrents flamants
                voyages rapaces rafale raffinement
                études rigueurs
prescience hurlement écaille rafraîchissement






Je frôle...
                Les tendres Ondées
prennent leur masque aux Ruines,
                puis restent
immobiles à regarder
                une plume outremer descendre
en tournoyant
                sur le bassin d'oracle.
Méridional brillant...
                Les Chants
donnent leus masque de perle aux Délices,
                puis restent
dans les charmilles à regarder
                les Tourmentes entraîner les Flamants.
Œil dont l'éclair mes tempêtes essuie...






Ou encore :

Avant que les premiers éclats de l'aube
atténuent la force des esprits enfermés
dans la sève des prêles, il faut
leur ajouter dans l'eau de la chaudière
un morceau de la peau d'un loup,
une grenouille d'Allemagne, l'étincelle
d'un brasero allumé en Anglaterre et transporté
de navire en navire dans des lanternes de mica,
des os d'espadon réduits en poussière.

Quand la poussière est entièrement dissoute
et que la sève a pris le parfum du Piémont
entrée des chasseurs





Un rêveur hésite
entre Gracieuse vibrante
et Douce-amère sur un banc de marbre
éclaboussé par la cascade.

Une brume de porphyre.

Le flûtiste et le cuisinier appellent doucement :
Ô soir...





Ou bien:

Le murmure des merles
à l'aurore entre avec l'air
de ce jeudi de printemps dans la maison
de cristal piquetée d'étincelles,
tapissée de poils de chèvres,
enveloppée de brumes.

silence moiré
souffle de menthe sur la boue du Brésil
entrée des invités lointains
murmure d'ailerons


(...)

25/09/2012

Acalanto

-  Paulo Henriques Britto



Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticularidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

Sociedade dissociada

- Bruno Andante

Vi nas grandes cidades
a multidão de solidões.
Próximos tão distantes,
juntos sim, nada unidos.

Vi a juventude alienada,
sedada, refém de modismos.
Já têm direito de ir e vir,
não saem do lugar.

Vi os animais torturados
pintados felizes nas propagandas.
E nos corações das crianças,
alvos fáceis de farsas como tal.

Sociedade dissociada...
Vamos de mãos dadas,
na pressa, ao precipício,
vil fosso de nossos vícios.

23/09/2012

The rose of the world


-   William Butler Yeats



Who dreamed that beauty passes like a dream?
For these red lips, with all their mournful pride,
Mournful that no new wonder may betide,
Troy passed away in one high funeral gleam,
And Usna's children died.
        
We and the labouring world are passing by:
Amid men's souls, that waver and give place
Like the pale waters in their wintry race,
Under the passing stars, foam of the sky,
Lives on this lonely face.
        
Bow down, archangels, in your dim abode:
Before you were, or any hearts to beat,
Weary and kind one lingered by His seat;
He made the world to be a grassy road
Before her wandering feet.

Mistério gasoso

-   Masé Lemos



enquanto ele fumava seu cigarro Minister
uma coisa azul percorria seu corpo.
se acaso sentia arrepios,
a pele arrepiava
pêlos eriçados.
o frescor do vento marinho
seus pés sobre a areia gelada.
- a vida é líquida
rápida
discretas carícias do mundo.

22/09/2012

Autonomia

-  Wislawa Szymborska


Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.


(Tradução coletiva - inimigo rumor)

Réquiem

- José Paulo da Fonseca


quantas palavras          imagens
                                                     anseios
adormecem na alma
                           esperando a hora               o dia          a noite
                                                                          que jamais hão de vir
 reflete
           lentamente reflete
                                     sobre o abandono a que te condenas
                                                                                  talvez frivolamente

20/09/2012

caem as palavras


-  Alberto Pucheu


caem as palavras
se não bastassem as folhas
e os pingos da chuva

Arroubos

-   Laura Erber



......la misma ofuscadora cantidad de luz y los mismos grupos de
murmuradores ascendiendo por las escaleras
recorrer às palavras que anunciam a realidade
mas isso também não são coisas minhas
aqui nestas margens ainda é difícil
a qualquer momento o sol queima demais ainda não é noite mas também logo se
vê que não é mais dia
ao longo da muralha algo que balança
giro contrariado de saudades
quando envelhecer não afina com catar feijão
envelhecer sem rotina
nervos críticos
mordida invejável no lóbulo de certa orelha
rabiscando por detrás
amor, às vezes foge pelas barbas
sofrendo síncopes
fico também enrodilhada
tua colméia derrama
múltiplos ruídos
você sem pressa
virando o rosto sem direção certa
comentando comentando o dia longo
você suave, feliz
sem lentes entre o contato cutâneo
aqui mesmo

Lendo Ferlinghetti não penso

-   Ana Cristina Cesar



Lendo Ferlinghetti não penso
                                     em Nova Iorque no verão
mas nos cheiros de pessoas que não suspeitam
                                                            que têm cheiros
                 e em minha volta
tentando decifrar saudades,
                                                ficções do Humaitá
lento Ferlinghetti não penso
                                   nos amantes cobertos pela árvore
resistindo e rasgando-se
                                   de novo
                                                                  penso sim

19/09/2012

Perguntas

-   Carlos Drummond de Andrade



Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.

Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.

Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.

Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.

No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):

Amar, depois de perder.



18/09/2012

Azuliante

-   António José Forte




Este poema

começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver no meio do deserto o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito eu sei choverá muito

e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente



Certas palavras muito duras quando a noite cai

não devem ter outra origem sabem tão bem quanto eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
os segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente


Digo não Eu digo não

digo o teu nome que diz não


No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore

à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos
passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite mil e uma noites de quem espera
Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir


No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis

que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase da terra
tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua eu a tempestade
de coração a coração


Roda sórdida da razão cínica e canto de galos

depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal 

Acordar na rua do mundo


-  Luiza Neto Jorge


madrugada. passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas. no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos. assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou
e duma varanda um pingo cai
de uma vaso salpicando o fato do bancário

10/09/2012

Recebei as nossas homenagens

-  Eucanaã Ferraz



Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio

parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.

09/09/2012

O dever

-   Antonin Artaud



O dever
Do escritor, do poeta
Não é encerrar-se cobardementre num texto
Num livro, numa revista de onde nunca sairá,
Pelo contrário, é vir
Para o exterior
E sacudir,
Atacar
O espírito público.
Ou então para que serve?
Para que nasceu?

31/08/2012

Em que alvorada rasgarei os olhos?

-  Hélder Macedo


Em que alvorada rasgarei os olhos?

(Eu queria um manto verde onde dormisse
e um ventre largo onde abrigar meu sono).

Porém...
Porém a minha mão é negra
e tudo mancha.

E a razão, no escuro, só distingue
a própria luz opaca que projeta.

24/08/2012

Ode To A Nightingale

-  John Keats



My heart aches, and a drowsy numbness pains
 My sense, as though of hemlock I had drunk,
 Or emptied some dull opiate to the drains
 One minute past, and Lethe-wards had sunk:
 'Tis not through envy of thy happy lot,
 But being too happy in thine happiness, --
 That thou, light-wingèd Dryad of the trees
 In some melodious plot
 Of beechen green, and shadows numberless,
 Singest of summer in full-throated ease.

O, for a draught of vintage! that hath been
 Cool'd a long age in the deep-delved earth,
 Tasting of Flora and the country green,
 Dance, and Provençal song, and sunburnt mirth!
 O for a beaker full of the warm South,
 Full of the true, the blushful Hippocrene,
 With beaded bubbles winking at the brim,
 And purple-stained mouth;
 That I might drink, and leave the world unseen,
 And with thee fade away into the forest dim:

Fade far away, dissolve, and quite forget
 What thou among the leaves hast never known,
 The weariness, the fever, and the fret
 Here, where men sit and hear each other groan;
 Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
 Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
 Where but to think is to be full of sorrow
 And leaden-eyed despairs,
 Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
 Or new Love pine at them beyond to-morrow.

Away! away! for I will fly to thee,
 Not charioted by Bacchus and his pards,
 But on the viewless wings of Poesy,
 Though the dull brain perplexes and retards:
 Already with thee! tender is the night,
 And haply the Queen-Moon is on her throne,
 Cluster'd around by all her starry Fays;
 But here there is no light,
 Save what from heaven is with the breezes blown
 Through verdurous glooms and winding mossy ways.

I cannot see what flowers are at my feet,
 Nor what soft incense hangs upon the boughs,
 But, in embalmed darkness, guess each sweet
 Wherewith the seasonable month endows
 The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
 White hawthorn, and the pastoral eglantine;
 Fast fading violets cover'd up in leaves;
 And mid-May's eldest child,
 The coming musk-rose, full of dewy wine,
 The murmurous haunt of flies on summer eves.

Darkling I listen; and, for many a time
 I have been half in love with easeful Death,
 Call'd him soft names in many a mused rhyme,
 To take into the air my quiet breath;
 Now more than ever seems it rich to die,
 To cease upon the midnight with no pain,
 While thou art pouring forth thy soul abroad
 In such an ecstasy!
 Still wouldst thou sing, and I have ears in vain --
 To thy high requiem become a sod.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
 No hungry generations tread thee down;
 The voice I hear this passing night was heard
 In ancient days by emperor and clown:
 Perhaps the self-same song that found a path
 Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
 She stood in tears amid the alien corn;
 The same that oft-times hath
 Charm'd magic casements, opening on the foam
 Of perilous seas, in faery lands forlorn.

Forlorn! the very word is like a bell
 To toll me back from thee to my sole self!
 Adieu! the fancy cannot cheat so well
 As she is fam'd to do, deceiving elf.
 Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
 Past the near meadows, over the still stream,
 Up the hill-side; and now 'tis buried deep
 In the next valley-glades:
 Was it a vision, or a waking dream?
 Fled is that music: -- Do I wake or sleep?

21/08/2012

Sul

-  Eugénio de Andrade


Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.

20/08/2012

Muito antes, erigiam-se templos

-  Àlex Susanna



Muito antes, erigiam-se templos
e até mesmo grandes catedrais:
hoje, quando a noite chega, contentamo-nos
com um abrigo, uma qualquer arcada
onde evitar esse excesso de intempérie
e enganar o frio que nos corrói os ossos.

17/08/2012

Todas as noites não saber

-  gil t. sousa

todas as noites não saber

em que hora parar
em que degrau de sombra

largar o recado para o nada

que nos queima
as mãos

15/08/2012

Torso arcaico de Apolo


-  Rainer Maria Rilke


Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.


(Tradução de Manuel Bandeira)

Leer, leer, leer


-  Miguel de Unamuno


Leer, leer, leer, vivir la vida
que otros soñaron.

Leer, leer, leer, el alma olvida
las cosas que pasaron.

Se quedan las que quedan, las ficciones,
las flores de la pluma,

las olas, las humanas creaciones,
el poso de la espuma.

Leer, leer, leer; ¿seré lectura
mañana también yo?

¿Seré mi creador, mi criatura,
seré lo que pasó?

As palavras interditas


-  Eugénio de Andrade


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

04/08/2012

Fim do céu

-   Adonis

Fim do céu

Sonha em jogar os olhos nas
 profundezas da cidade próxima
 sonha em dançar no abismo
 em ignorar os dias que devoram
 as coisas, os dias que engendram as coisas
 sonha em levantar, em fluir como o mar
 em apressar os segredos
começando um céu

no fim do céu.


(Tradução de Michel Sleiman)

Desperta-me no sono em ti

-   Gunnar Ekelöf

Desperta-me no sono em ti
Desperta os meus mundos por ti
Acende as minhas estrelas mortas, atrai-as para junto de ti.

Sonha-me para lá do meu universo
Conduz-me à morada das chamas
Faz com que eu nasça, para mim, morre-me para eu estar junto de ti.

Mais perto, mais perto de ti
Mais perto do meu lar de nascimento
Aquece-me, aperta-me para estar junto de ti.


(Tradução de Armando da Silva Carvalho)

Manifesto

-  Eucanaã Ferraz


Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.

Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide

do que é capaz a coincidência
entre as coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,

pratique-se o descanso, para
que o povo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.

Entre os teus lábios

-  Eugénio de Andrade

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

O destino dos amantes

-  José Agostinho Baptista


Dissipa-se, no longo nevoeiro, a cintilação de um
archote,
um rasto de imponderáveis amantes.
Quem por eles clama, clama em vão.
Já os pulsos se abriram para a desolação da terra.
Estes rios não são os seus rios.
E esta água mutilada,
esta luz que fere o amplo pátio dos invernos é a sua
água, a sua luz.
Onde o raio despedaça os ténues fios do amor uma
inesperada palavra assume o desastre.
Amaram-se e perderam-se.
De pé, sobre o convés, contemplando o fim dos
navios.
O albatroz descreve os vultos imensos da saudade.
Há, sobre o olhar dos condenados,
uma aflição de sombras,
quando o sol se afasta para os eus domínios.
A sedução dos frutos é a sedução da morte e,
seduzidos, eles demandaram o grande vale.
Um arco de som vibra eternamente no centro da
tempestade.
Eles voltam-se para fora,
para a unânime certeza da escuridão do mundo.
A alma parte.

30/07/2012

Erra Orfeu pelo mundo

-  Artur Lundkvist


Erra Orfeu pelo mundo,
ora vagabundo coberto de pó por planos caminhos,
ora escalador com edelweiss no chapéu
e corda oleada à volta da lira.


- Sou cantor errante
à procura de um mito perdido,
mas só estátuas encontro,
amor e heroísmo em pedra esculpidos.
E em toda a parte sou o Estrangeiro.
Nenhum povo, nenhuma árvore genealógica bebe a vida
destas fontes. Perde-se o homem na multidão
ou, como máquina, peça por peça se desmonta,
doente de paixão de revelar-se
ou de conhecer-se a si próprio. A mulher
jaz com o seio morto e escuta o trovejar
do mar da noite. Luz e trevas
perderam o seu poder, a sua distinção.


Estrangeiro sou?
Mesmo aqui entre as liras das árvores
felizes de tão raramente assim soarem?
Nunca se abrem as mulheres-árvores, nunca sorriem,
apenas a terra sugam e o ar, o mais que podem.
Euridice alguma me segue no limiar da manhã.
Meu canto não alcança ouvidos, não move corações.
Eu próprio sou o homem desmembrado,
não só não trago a delicada lira
como me  pesa também o fardo da carne
neste tempo e abatedouro da vida.


Se então um estrangeiro no mundo real,
no multiplice abismo da criação?
Como imagens aquáticas acumuladas num poço
é a minha angústia; mas vergo ao peso deste fardo
e é apenas lá no fundo entre as pedras que o sangue corre.
Quero quebrar em pedaços a estátua que me figura humano,
revestir-me com pele de tigre ou pernas de flamingo,
ser árvore ou fonte, nuvem ou estrela,
palpitar com a montanha, embeber-me com a terra,
penetrar em tudo e em tudo soar!


(Tradução de Silva Duarte)

Canção

Allen Ginsberg


O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:

o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.


(Tradução de Claudio Willer)

27/07/2012

A porta aporta

-  Luiza Neto Jorge



a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme

09/07/2012

Um lugar na minha alma

-  Abel Feu


Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais…

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, e poemas
que te escrevi (lembras-te?); guardo
cartas e fotografias…
                                       E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.


(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

18/06/2012

A Máquina do Mundo

-   Carlos Drummond de Andrade


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

14/06/2012

Flamenco

-   Roberta Ferraz



Sulcar o caudaloso de um rio
até o encontro com a haste dos cabelos
que é a dança

Eu enfaixaria teus sonhos num damasco
tendo no ombro o lusco-fusco de um cristal
ardendo abrir-te à coloração negra
e ensaiar o espaço
entre meu corpo e a lunação

Rugas olhos pesados palmas
bater no meio de uma tarde o calcanhar
vertebral apetite de quem é vivo

As mulheres estão todas fortes
em seus laços florescidos de escuro
Minha manhã é um caminhão encostado
nas águas, bordoada de vento
com chapéus e garrafas

Sobre o vau de um tempo estanque
homens como sons duelam
a viagem de meu nome
Como um tálamo de vinho
corrói e acalanta

01/06/2012

Uma gaivota viesse

-  Eucanaã Ferraz


O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz

e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, secretíssima, a alegria que não cabe nos guias de turismo,

quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?

De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,

o que nos parte, o que nos corta, mal fechamos a mala, mal
abrimos a porta.

30/05/2012

Um contraprogama

-  Sergio Cohn


1
Esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio


2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas

29/05/2012

Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo

-  Gunnar Ekelöf

Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo
palavras tornam-se de novo interessantes:
Algo soterrado
que se revolve com pá de arqueólogo:


A pequena palavra tu
talvez miçanga
que um dia enfeitara um pescoço


A grande palavra eu
talvez quartzo em lasca
com que um sem-dentes qualquer desfiara sua carne
dura.


(Tradução de Ricardo Domeneck)

25/05/2012

Rapto

-  Eucanaã Ferraz


Ia tocar meus lábios mas
o trem, o circo,
a fome dos meninos,
o garçom, a praça.
Nunca mais sua mão.

Como uma flor vermelha

-  Sophia de Mello Breyner Andresen


À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

24/05/2012

O sal da língua

-   Eugénio de Andrade



Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Era a luz, era a forma de uma luz

-   Antoni Clapés



Era a luz, era a forma de uma luz
Interior, um rumor como um véu
que cobria o silêncio e as palavras.
Era um (espaço) deserto
dilacerado em infinitos sinais fragmentados.
Era o tempo que volvia, fulgor do relâmpago
no vazio, no próprio relâmpago.
Era o poema, era o poeta do poeta.

Era a poesia habitada

(Tradução de Egito Gonçalves)

Tanto de meu estado me acho incerto

Luís de Camões


Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.