21/03/2012

Pensamentos que me visitam nas ruas movimentadas

-  Wisława Szymborska
[poema #100]





Rostos.

Bilhões de rostos na face da terra.

Dizem que cada um é diferente

dos que já se foram e dos que virão um dia.

Mas a Natureza – quem é que a entende? –

cansada do trabalho que nunca acaba

talvez repita suas ideias antigas              

e ponha-nos rostos

já usados outrora.



Pode ser Arquimedes de jeans que passa ao seu lado,

a czarina Catarina com roupa de brechó,               

um dos faraós de pasta e óculos.


A viúva de um sapateiro descalço

vinda de uma Varsóvia pequenina ainda,

um mestre da gruta de Altamira

levando as netas para o zoológico,

um Vândalo cabeludo a caminho do museu

para se deliciar com os mestres do passado.



Os que tombaram há duzentos séculos,

há cinco séculos,

há meio século.


Alguém levado em carruagem dourada,

alguém levado em vagão de extermínio.

Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,

suas babás, suas lavadeiras e Semíramis

que só fala inglês.



Bilhões de rostos na face da terra.

Meu, seu, de quem –

você nunca saberá.

Talvez a Natureza tenha que ludibriar

para dar conta dos prazos e da demanda

e pesque até o que estava submerso               

no espelho da deslembrança.



(Tradução de Henryk Siewierski)